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Que horas ela volta?

Anna Muylaert (2015) (The second mother, Une seconde mère) Nem olhe pra esta piscina, Jéssica Um plano de uma escada iluminada com certo rigor do meio de tarde, certa penumbra, fim do dia em que o sol pára de iluminar e entra a noite em que todos dormem com certa tranq ü ilidade. Menos a personagem principal chamada Val, interpretada pela agora apresentadora de TV da Rede Globo, Regina Casé. A empregada doméstica aguarda a hora de sua filha, Jéssica, chegar de Pernambuco. Também esperam a hora chegar, os demais personagens da família de classe média-quase-alta paulistana do Morumbi. Que horas seriam? Hora que a servidão, ou a cultura da servilitude, ou da amizade do(a) agregado(a), do favor acima de qualquer serviço profissional, tomaria algum tipo de “consciência de sua classe social”. Seria assim, caso estivéssemos num ambiente de conversas da década de 70 – do cinema político, gênero que ambientava a chamada luta de classes em viés quase óbvio de instrução, ou revolução...

Interestelar (Interestellar) – Christopher Nolan, 2014

Christopher Nolan no set de filmagens de Interestellar Não é tema novo desenvolver linhas de raciocínio ao longo do roteiro “lógico”, e também literário, sobre a “natureza humana”. Também sabe-se que, quando em crise, o cinema norte-americano elabora com todas as suas forças e contingentes de trabalhadores o gênero épico. E muito dinheiro é usado nisso. Qualquer criança vê nestes épicos a força, aliada à potência passadista medieval (saga das adaptações de Tolkien por Peter Jackson) de uma mitologia com armas evidentemente ideológicas. No entanto, as crianças estão fora do jogo – mesmo participando intensamente dele tanto nas telas quanto nas cadeiras de espectadores. Está também, fora do jogo, a pequena filha do grande explorador de universos, o personagem chamado Cooper.   O jogo de Christopher Nolan é outro – mesmo dentro do gênero épico. Ele elabora um roteiro que nos traga a brincadeira de criança que é a lógica, e falta dela. O herói americano tem que estar em todo...

Jogo das Decapitações (2013, Sérgio Bianchi)

Haveria quem dissesse que o sarcasmo dos filmes de Sérgio Bianchi pesam na mão, perdem um pouco a medida, transbordam com um ódio destilado pela “câmera-faca”. Mas e a velha procura pela realidade, não pode ganhar esse tom? O cinema brasileiro que tanto prezou por algum tempo em seu novo cinema – que, mesmo distante da maldição da ironia e sadismo em seu início, já demonstrava o que havia de falho nos discursos oficiais sobre o que se chamou por muito tempo de “Brasil” - , é ele um motivo ideológico impulsionado pelos seus diretores? E a morbidez do cinema chamado MARGINAL, em São Paulo? Contra a adoção da indústria carioca da Rede Globo? Não trariam, estes contextos algo a mais na discussão sobre a ideologia no cinema? Impossível juntar ideologia e desbunde. Essa impossibilidade é vista em “Jogo das Decapitações”, de Bianchi. Ele mesmo parece propôr essa impossibilidade de diálogo desde seu principiante “Maldita Coincidência”(1973), este que se exibe em trechos também no filme ...

O Veneno Está na Mesa 2

Pulamos o primeiro documentário para este segundo episódio por duas razões evidentes.  1a) Sílvio Tendler, o diretor, apresenta o absurdo que é a aceitação universal no Brasil de agrotóxicos através de uma política e de economias à parte da cidadania, muito comum no país. Mas essa produção de 2011, militando contra uma dominação de empresas como a Basf, Monsanto, a prática já disseminada de transgênicos e o uso indiscriminado de pesticidas, atira diretamente na bancada do congresso que desvia as questões - os ruralistas. Dessa maneira assistimos a um ótimo filme político. 2a) O documentário apresenta as questões, introduz, dá ao espectador o que se espera desse primeiro contato: o terror. Ainda sem perspectivas de uma política contrária, o primeiro filme ataca mais que propõe. Nada de errado na tática, mas o tom, mesmo o tratamento do filme, sua "diagramação"geral (que envolve tanto as cartelas, a arte gráfica, e mesmo a edição) ainda parecem ter o motivo unicamente ...

nymph()maniac, nymphomaniac, ninfomania, Lars Von Trier

Opressões de gênero à parte por enquanto, a contemplação do sexo como voyeurismo parte do princípio de que há espectadores no cinema que gostam de ver nossa espécie copulando. O que não gostariam tanto, talvez, de ver uma tese esquisita sobre Bach, um rápido ensaio sobre Edgard Allan Poe, citações diretas e pedagógicas sobre pescaria em rios nórdicos, e, quem sabe, sobre a prostituição "por opção" de um caso doentio em uma sociedade que não concebe o sexo como algo, ainda, fora de tabus. Lars Von Trier é conhecido por ser rígido em método de filmagem. Bom para o cinema atual. Sua fama é de ser "polêmico". Nada que chegue próximo de um Carlos Reygadas, ou de um Sérgio Bianchi (pra citar um dos nossos). Lars prefere, em Nynphomaniac, partir duma comédia cotidiana. Cômico, sim, mas não sem uma certa acidez que corta crenças em quem assiste. Apesar do roteiro aparentemente ter sido mutilado - e há quem diga que pela produção, outros pela falta de cuidado do diret...

Geraldo Vandré "assassinado"

O louco exilado, paraibano, que hoje vive exaltando as forças armadas e a FAB. Pois, quem não entende o que o Brasil se tornou após a ditadura fica na bolha do delírio, sem dúvidas - pro lado do "bem" ou pro lado do "mal". Mas quem estava lá numa luta imaginária (artística), naquela época, era o louco em busca de liberdade. Um jovem artista que, segundo os anais, deixou sua carreira pela luta de sua sobrevivência medíocre sendo funcionário público brasileiro. Taí o que era, e é ser subdesenvolvido: lutar pelo seu mínimo. Ficou pra história a estratégica tropicália, e morreu lentamente o latinoamericanismo.