Pular para o conteúdo principal

V

O demônio veio e tirou um menininho da sua toca. O menininho olhou pra o deserto e mandou o demônio ir embora. O demônio que falava não quis ir. Era hora logo de acabar com aquilo, portanto o menininho acabou falando diretamente praquele demônio meio indeciso.

- Olha pra onde você ta me apontando. Vê só o lugar onde estaria aquilo que eu ganho sendo seu amigo. Olha pra lá. Você acha que eu sou otário? Você acha mesmo que eu vou cair nessa sua ladainha, seu safado? O deserto? Acha que eu vou acreditar que no deserto vão ter mulheres, dinheiro e fama? Ah, qualé.

O demônio entra um pouco em pânico por não lembrar das aulas de retórica que tinha feito no Senac. Então abre a boca, soltando bafo de fome:

- Menino... No deserto você tem petróleo. Esqueceu disso?

Foi então que aquela inocência aparente se apresentou como realmente aparente para olhos que desperdiçam tempo com TVs ligadas. O menino deixou de ser menino, e falou que nunca havia pensado dessa maneira. Até abriu seu jogo, dizendo que é realmente da privação que aparece sempre a maior recompensa.

- Mefistófoles... Vós sabeis mesmo o que falais.

A pronúncia foi clara: “sabeis e falais”.

O tal do menino fez campanha, mas já tinha sua alma completamente sob as tentações do(a) capital, da usura, da procura pelo genocídio de todas as raças podres que não sabem o que querem do mundo. Ora vejam, dizia ele, o mundo tem muito a dar, e esses loucos vivem reclamando de tudo. “Ignora-los-ei”.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Xingu

Há formas de se olhar o outro em narrativas. São os focos narrativos, pontos de vista, linhas condutivas através de personagens que encaram o, afinal, desconhecido da aventura, do enredo. Foi assim com aquelas grandes bilheterias da maestria de grandes massas conduzidas pelo olhar curioso, assustado. Alien, de Ridley Scott fez o mundo acordar para seres evoluídos, superiores, que nos consomem por dentro. Nascem, aliás, de nós mesmos. O “outro” que nos habita. No Brasil, terra bastante desconhecida, a regra é essa também. Explorar o oeste, tal como no gênero (também de grandes massas) foi a ordem de um elementar discurso oficial. Temos que nos conhecer por dentro, diria o positivista republicano, fragmento de um déspota esclarecido como D. Pedro II, intelectual do romantismo. Os não lugares então, aqui, estão no profundo interior da floresta. Xingu retoma a encenação deste interior do Brasil Grande. Paulo César Peréio entende bem dessa linguagem provocadora, que in...