Pular para o conteúdo principal

Babel - Alejandro Inarritu - 2006

Inarritu já se conforma com um "documentário" da ficção politizada, e nos faz ficar conformados com essa nuance. Só que não só ele faz cinema dessa maneira, tantando ser mais realista que qualquer câmera em tripé. Vemos isso em Traffic de Soderbergh, em Syriana de Gaghan, a tentativa é de mostrar conflitos entre um mundo completamente atrasado e os EUA, o grande império.

Em Babel vemos três histórias que se entrelaçam - uma em Marrocos, outra nos EUA e México, e a última, a mais afetiva, no Japão. Na verdade os conflitos são sempre de comunicação - a dificuldade, ou impossibilidade de se estabelecer diálogo entre os que dominam e os que são dominados. Tanto do pai que dá uma espingarda aos filhos, do chefe da casa interpretado por Brad Pitt que não consegue gerir sua babá nem a comitiva que levava ele e sua mulher, dos policiais com os possíveis terroristas ou com o irmão da babá que os trazia do México, ou da deficiente auditiva japonesa ansiosa por sua libído...

São desentendimentos entre dominantes e dominados que não se resolvem, a não ser no final. Enfim, os que contemplam o final feliz são aqueles do primeiro mundo (Japão e EUA). Os mexicanos e os marroquinos, mesmo inocentes, são punidos pelo filme - ao esquecimento. Tragédia apenas para o terceiro mundo, happy end para os que promovem o desenvolvimento aos quatro cantos da terra.

Interessante é ver como o filme se encaixa numa nova proposta de arte mundial , como uma wolrd art, tanto com as músicas da world music, quanto com os atores e locações das mais cosmopolitas às mais deserticas. Assim é o abismo entre o desenvolvido e o esquecido.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

Xingu

Há formas de se olhar o outro em narrativas. São os focos narrativos, pontos de vista, linhas condutivas através de personagens que encaram o, afinal, desconhecido da aventura, do enredo. Foi assim com aquelas grandes bilheterias da maestria de grandes massas conduzidas pelo olhar curioso, assustado. Alien, de Ridley Scott fez o mundo acordar para seres evoluídos, superiores, que nos consomem por dentro. Nascem, aliás, de nós mesmos. O “outro” que nos habita. No Brasil, terra bastante desconhecida, a regra é essa também. Explorar o oeste, tal como no gênero (também de grandes massas) foi a ordem de um elementar discurso oficial. Temos que nos conhecer por dentro, diria o positivista republicano, fragmento de um déspota esclarecido como D. Pedro II, intelectual do romantismo. Os não lugares então, aqui, estão no profundo interior da floresta. Xingu retoma a encenação deste interior do Brasil Grande. Paulo César Peréio entende bem dessa linguagem provocadora, que in...