Pular para o conteúdo principal

L'ora di religione - Marco Bellocchio - 2001

Pra quem não acredita em deus, ele surge neste filme não tão pretensioso do diretor italiano. Do início ao último plano, um deus que está nas artimanhas do vaticano, nas propagandas publicitárias da igreja, das defesas conservadoras de beatas do país que praticamente criou o catolicismo. A arte, o cinema de Bellocchio não conseguiria acabar com esse deus romano, mas apenas dispôr uma iconoclastia bem na forma moderna. Deus não vale mais para a arte, mas está na política, na sociedade.

E essa política é forte. É a que quer santificar e dar status, dar uma aura socialmente aceita, uma transcendência mítica que é completamente ocidental. Esse deux do Papa é comum à nossa realidade e dá caráter santo, beato, àquilo que entende como interessante para a comunidade católica.

O filme critica veemente essa falsidade da igreja, que ostenta riqueza mas não se explica racionalmente, não tem nada que convença a quem procure explicações - apenas é. Tal é a imposição da fé que o filho que sofre distúrbios mentais sente-se pressionado a gritar contra deus e a virgem maria - pressão que certamente o fez matar sua mãe, uma "estúpida católica" que armava também a morte de seu filho. Mas essa versão crítica também não convence a um católico, é apenas a do personagem principal - o tal artista iconoclasta.

A trama melodramática faz sentir o peso da política em uma família, sem mesmo vermos um só político ou instituição.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

Xingu

Há formas de se olhar o outro em narrativas. São os focos narrativos, pontos de vista, linhas condutivas através de personagens que encaram o, afinal, desconhecido da aventura, do enredo. Foi assim com aquelas grandes bilheterias da maestria de grandes massas conduzidas pelo olhar curioso, assustado. Alien, de Ridley Scott fez o mundo acordar para seres evoluídos, superiores, que nos consomem por dentro. Nascem, aliás, de nós mesmos. O “outro” que nos habita. No Brasil, terra bastante desconhecida, a regra é essa também. Explorar o oeste, tal como no gênero (também de grandes massas) foi a ordem de um elementar discurso oficial. Temos que nos conhecer por dentro, diria o positivista republicano, fragmento de um déspota esclarecido como D. Pedro II, intelectual do romantismo. Os não lugares então, aqui, estão no profundo interior da floresta. Xingu retoma a encenação deste interior do Brasil Grande. Paulo César Peréio entende bem dessa linguagem provocadora, que in...