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A Erva do Rato (2009)

Se alguém tinha dúvida de que o cinema de autor ainda poderia ser feito hoje no Brasil, e com uma qualidade bem próxima, até superior, ao cinema desse tipo que era feito nas passadas décadas de 60 e 70, agora não tem mais. Bressane, como um diretor que quer fazer de sua imagem um ícone da resistência do tipo de cinema citado, chega ao cume de sua arte cinematográfica feita ao público – algo que antes parecia causar ódio ao diretor, vendo o estilo histórico brasileiro, ou mesmo épico aberto desse intelectual. Há muito diziam que ele tinha guardado a herança da narrativa de Glauber Rocha. Só que, em seus épicos como São Jerônimo, ou mesmo o Brás Cubas, Sermões de Padre Antônio Vieira, lembrávamos tanto de Glauber quanto um Jodorovsky mexicano. A razão de Bressane, hoje, ter deixado de lado as elucubrações monumentais e imagéticas de um cinema preocupado com causas da escritura nacional estão quase que evidentes na metalinguagem de Erva do Rato. Parte então, ele, para um drama estabeleci...

Meu mundo em perigo – José Eduardo Belmonte

Num ambiente de cinema que preza pelo preciosismo do maquinário e do ideal de uma retomada meio futurista (sem nada ter a ver com uma aproximação da vanguarda que teve esse nome), meio tupiniquim sem fronteiras, meio natureza global de Meireles, ou de um lado de Salles, a ordem é “senta e vê como estamos andando”. A passos curtos na história (e na História) e na narrativa, e a passos largos no posicionamento de um cinema bem estruturado. Mesmo que historicamente, ou em estruturas narrativas. O problema desse cinema da pós-retomada, ou do cinema da retomada tardio, é não entrar na História – sem fazer histórias e sem entrar no cotidiano real do que anda acontecendo conosco hoje em dia. Em Meu Mundo em Perigo (2009) existe um real, que com a ajuda de Mário Bortolotto se conseguiu chegar, com a fantasia necessária de uma política bem armada com uma psicologia dramática dos diálogos. Longe de um filme que queira atingir muitas platéias cheias de cinema – afinal, cinema hoje não quer mais d...
Gênio da raça IstoÉ, 2/9/1981 Histórias de Glauber Rocha, o artista das metáforas. De sua infância inquieta às turbulências políticas, do desencanto estético à morte patética, inexplicada Quando subiu ao céu, no sábado, dia 22, Glauber Rocha com certeza terá gritado: "Foi um complô da CIA e da KGB. Me mataram, São Pedro!" Todos devem ter rido, como se ria sempre que o cineasta repetia acusações desse tipo. Ou quando garantia que ia morrer aos 42 anos. Ou quando advertia a mulher contra agosto, "mês das grandes tragédias brasileiras, vide Getúlio". Ou quando acreditou na abertura porque o ex-presidente Geisel era, como ele, protestante. Polêmico e escandaloso, Glauber, que filmava, escrevia e falava por metáfora, além de lançar nas telas as desvairadas, geniais imagens que costumava criar, podia ter visões ampliadas da realidade – o que, no cinema, lhe dava a merecida fama de gênio e, na vida, a lenda de louco. Supersticioso e profético, Glauber Rocha mais uma vez po...

O Caso Cláudia (1979)

Miguel Borges, renascendo do Cinema Novo, faz um thriller policial perto do modelo americano... Isso é o que vemos no início desse filme, de 1979 - alguns anos da ditadura mais dura por aqui. A história se desenvolve num Estado em constante guerra civil - Rio de Janeiro. Depois de tudo o que vemos no filme linearmente narrado, do jeito que o público demanda, azuis de ânsia, pedimos pra deixar de saber daquilo tudo - aquele exagero que se contou diante de nossos olhos de espectadores. Mas digo "nós" aqui numa abstração. O filme pode ser tudo, menos exagerado em seu estilo. O trhiller coube justamente, tal como Rubem Biáfora diria em um texto curto pra o jornal Estadão, da maneira de um Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia , ou Assalto ao Trem Pagador.  Esta espécie de conto policial brasileiro, aliás, profundamente brasileiro, é algo que na década de 90 se tentou fazer malogradamente puxando as histórias de Rubem Fonseca. Que é um exímio literato, mas cinema é mais que imagens t...

OS DOIS BRASIS - de Gianni Amico

Glauber - Leon. Leon - Glauber. Para mim, sobretudo, dois amigos. Daqueles de quem a gente traz os filhos sobre os joelhos, daqueles que trazem sobre os joelhos os filhos da gente. Raramente escrevo sobre cinema. Faço-o quase exclusivamente para apresentar meus novos filmes, coisa, por si, já rara. As duas últimas vezes o fiz justamente para escrever sobre Glauber e Leon. Dentro da emoção pela morte de ambos. Glauber e Leon foram - é impossivel não recordar - dois dos quatro irmãos com que privei mo transcorrer de poucos amos, poucos meses. Os outros dois foram Arges Ristum "Il Turco"e Enzo Ungari. O Turco era exilado em Roma mos amos setenta, porta-bandeira da colônia brasileira da época. Ai conheceu Glauber e Leon, tendo trabalhado com ambos. Com seu inato camaleonismo, com sua atávica soturnidade, foi capaz de integrar-se a um e ao outro, conseguindo "traduzi-los". Por Glauber, Enzo viveu uma de suas inflamadas paixões intelectuais; com Leon teceu uma verdadeira ...
Moscou de Eduardo Coutinho (2009) Coutinho deixou, realmente, a velha procura por um documentário popular. E o que o fez deixar, só ele pode explicar. A vertente que permeia sua tentação cinematográfica atual é a de um filme em que não haja mais uma divisão cerrada entre o verdadeiro e o mentiroso, e, numa espetacularização própria do contemporâneo, a não problematização do verídico. Assim, ele parece voltar ao seu primeiro modo criativo, que era sim a ficção, e era sim a narração cinematográfica. Se em seus documentários anteriores a regra era a demonstração de um imaginário de costumes do povo, desde sua investida etnográfica, ou mesmo curiosa a respeito das classes mais baixas do país, o que na era da militância do PCB se chamava proletariado, o lado escolhido agora é o da investigação da cena. Vejamos Jogo de Cena , e percebamos isso. Mas não só da cena por si – afinal é uma investigação, e, nestes casos, nada fica em si. Como se vê em outros textos aqui pela internet, Coutin...

Nova bela época 3

Como se entender, então, como persona atuante dentro desse novo mundo? É por isso que a fotografia é tão importante. Os noticiários e a verdade moderna possuem seu início com a fotografia. Nestes textos sobre a nova bela época ela não aparece por esse motivo - sua importância em diluir qualquer idéia em imagem - e qualquer pensamento em sentimento superficial e... publicitário . O jornalista mais engajado tem essa mentalidade publicitária. Então, a persona fotografada tem aquele gestual próprio de um participante do programa Big Brother. O mundo é público, após a fotografia.  Quando você lê aqui a FOTOGRAFIA, leia-se também a FOTOGRAFIA EM MOVIMENTO. (a caixa alta é para deixar tudo bem claro) A nova bela época do consumismo desenfreado, sem inflações, mas sem tanta criatividade para as "novidades" do "novo" mundo, é a "nova" bela época antiga, e muito parecida com muitas outras que surgiram na história do que antigamente se chamava de humanidade.