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O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

À deriva (2009) - Heitor Dhalia

Uma família burguesa passa "férias" em Búzios. Não haveria maiores decepções, se o tempo não fosse a década de 80. Então: como falar desse tempo que não existe na imaginação de ninguém, a não ser naquela criação de imagens que a mídia nos faz (de Xuxa , a rainha do cinema em Gramado à New Age )? Vindo de um diretor que parece gostar de tempos que não existem, vide Nina (2004) e Cheiro do Ralo(2007), falar de algo que nos incomoda , vide os dois filmes mais uma vez, e as repetições exaustivas de cenários... A década de 80 foi a modernização conservadora em suas vias de fato - seja em uma modernização proposta pela Rede Globo, única rede de TV moderna por aqui, ou pelas importações em massa de LPs, tapes, o surgimento do vídeo cassete e a fotografia polaroid . Tudo isso deixando fácil o acesso às mídias importadas, principalmente vindas do novo império dos EUA. Sendo algo que não existe, o tempo se reconstitui no nosso presente atual - como se algo fosse completamente anacrôni...

A Erva do Rato (2009)

Se alguém tinha dúvida de que o cinema de autor ainda poderia ser feito hoje no Brasil, e com uma qualidade bem próxima, até superior, ao cinema desse tipo que era feito nas passadas décadas de 60 e 70, agora não tem mais. Bressane, como um diretor que quer fazer de sua imagem um ícone da resistência do tipo de cinema citado, chega ao cume de sua arte cinematográfica feita ao público – algo que antes parecia causar ódio ao diretor, vendo o estilo histórico brasileiro, ou mesmo épico aberto desse intelectual. Há muito diziam que ele tinha guardado a herança da narrativa de Glauber Rocha. Só que, em seus épicos como São Jerônimo, ou mesmo o Brás Cubas, Sermões de Padre Antônio Vieira, lembrávamos tanto de Glauber quanto um Jodorovsky mexicano. A razão de Bressane, hoje, ter deixado de lado as elucubrações monumentais e imagéticas de um cinema preocupado com causas da escritura nacional estão quase que evidentes na metalinguagem de Erva do Rato. Parte então, ele, para um drama estabeleci...

Meu mundo em perigo – José Eduardo Belmonte

Num ambiente de cinema que preza pelo preciosismo do maquinário e do ideal de uma retomada meio futurista (sem nada ter a ver com uma aproximação da vanguarda que teve esse nome), meio tupiniquim sem fronteiras, meio natureza global de Meireles, ou de um lado de Salles, a ordem é “senta e vê como estamos andando”. A passos curtos na história (e na História) e na narrativa, e a passos largos no posicionamento de um cinema bem estruturado. Mesmo que historicamente, ou em estruturas narrativas. O problema desse cinema da pós-retomada, ou do cinema da retomada tardio, é não entrar na História – sem fazer histórias e sem entrar no cotidiano real do que anda acontecendo conosco hoje em dia. Em Meu Mundo em Perigo (2009) existe um real, que com a ajuda de Mário Bortolotto se conseguiu chegar, com a fantasia necessária de uma política bem armada com uma psicologia dramática dos diálogos. Longe de um filme que queira atingir muitas platéias cheias de cinema – afinal, cinema hoje não quer mais d...
Gênio da raça IstoÉ, 2/9/1981 Histórias de Glauber Rocha, o artista das metáforas. De sua infância inquieta às turbulências políticas, do desencanto estético à morte patética, inexplicada Quando subiu ao céu, no sábado, dia 22, Glauber Rocha com certeza terá gritado: "Foi um complô da CIA e da KGB. Me mataram, São Pedro!" Todos devem ter rido, como se ria sempre que o cineasta repetia acusações desse tipo. Ou quando garantia que ia morrer aos 42 anos. Ou quando advertia a mulher contra agosto, "mês das grandes tragédias brasileiras, vide Getúlio". Ou quando acreditou na abertura porque o ex-presidente Geisel era, como ele, protestante. Polêmico e escandaloso, Glauber, que filmava, escrevia e falava por metáfora, além de lançar nas telas as desvairadas, geniais imagens que costumava criar, podia ter visões ampliadas da realidade – o que, no cinema, lhe dava a merecida fama de gênio e, na vida, a lenda de louco. Supersticioso e profético, Glauber Rocha mais uma vez po...

O Caso Cláudia (1979)

Miguel Borges, renascendo do Cinema Novo, faz um thriller policial perto do modelo americano... Isso é o que vemos no início desse filme, de 1979 - alguns anos da ditadura mais dura por aqui. A história se desenvolve num Estado em constante guerra civil - Rio de Janeiro. Depois de tudo o que vemos no filme linearmente narrado, do jeito que o público demanda, azuis de ânsia, pedimos pra deixar de saber daquilo tudo - aquele exagero que se contou diante de nossos olhos de espectadores. Mas digo "nós" aqui numa abstração. O filme pode ser tudo, menos exagerado em seu estilo. O trhiller coube justamente, tal como Rubem Biáfora diria em um texto curto pra o jornal Estadão, da maneira de um Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia , ou Assalto ao Trem Pagador.  Esta espécie de conto policial brasileiro, aliás, profundamente brasileiro, é algo que na década de 90 se tentou fazer malogradamente puxando as histórias de Rubem Fonseca. Que é um exímio literato, mas cinema é mais que imagens t...

OS DOIS BRASIS - de Gianni Amico

Glauber - Leon. Leon - Glauber. Para mim, sobretudo, dois amigos. Daqueles de quem a gente traz os filhos sobre os joelhos, daqueles que trazem sobre os joelhos os filhos da gente. Raramente escrevo sobre cinema. Faço-o quase exclusivamente para apresentar meus novos filmes, coisa, por si, já rara. As duas últimas vezes o fiz justamente para escrever sobre Glauber e Leon. Dentro da emoção pela morte de ambos. Glauber e Leon foram - é impossivel não recordar - dois dos quatro irmãos com que privei mo transcorrer de poucos amos, poucos meses. Os outros dois foram Arges Ristum "Il Turco"e Enzo Ungari. O Turco era exilado em Roma mos amos setenta, porta-bandeira da colônia brasileira da época. Ai conheceu Glauber e Leon, tendo trabalhado com ambos. Com seu inato camaleonismo, com sua atávica soturnidade, foi capaz de integrar-se a um e ao outro, conseguindo "traduzi-los". Por Glauber, Enzo viveu uma de suas inflamadas paixões intelectuais; com Leon teceu uma verdadeira ...