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Estilo diverso em É proibido fumar, de Anna Muylaert

Dentre as cineastas, esta se destaca imensamente. Não apenas por ter um manancial estilístico bem peculiar, daquela maneira que um cinema autoral demanda, mas por ter em seu currículo o filme Durval Discos (2002), além de alguns roteiros como do filme Desmundo (2002, Alain Fresnot), e O ano em que meus pais saíram de férias (2006, Cao Hamburger). Anna Muylaert é precisa em planos complexos, dentro de paredes e retângulos dos apertados condomínios de nossa vida de hoje. Em todos estes filmes lembrados, Anna se destaca também, talvez principalmente, como escritora de roteiros inimagináveis . Ela supera o mediano do drama escolhido pelo audiovisual nacional, o simples e melô – ao jeito da Globo Filmes. É algo que beira o surreal a língua de Desmundo , como também é a entrada de um cavalo em cena fechada num quarto na segunda metade do filme Durval Discos . Andar pelas tangências do absurdo parecia ser sua promessa, até que vimos o realismo tomar a dianteira em seus últimos roteiros. O...

a propósito de Utopia e Barbárie

Silvio Tendler é um especialista, podemos dizer, em documentários. Já tematizou de Glauber Rocha a Jango, de Juscelino Kubitschek a Milton Santos. Todos os temas giram entre uma experiência própria que este documentarista tinha com sua época de extremos. Em geral, Tendler, que já trabalhou no Chile, França, Vietnã, Israel, é um ansioso pelo campo frutífero da revolução Latino Americana – que, é inevitável ponto de pauta de quem viveu a geração de 1968, o ano que, segundo o jornalista Zuenir Ventura, ainda não acabou. Em Utopia e Barbárie (2009), o tema vai ao olho do furacão dessa geração atribulada, erótica (como diria Marcuse), intensa, revoltada, rebelde, jovem. A modernidade chegava, no mundo, a um multiculturalismo que parecia infinito – o mundo nunca tinha sido tão grande, tão cheio de experiências, de imagens. Exóticas ou estáticas, as imagens reviram-se em neons, em cartazes das então vedetes seminuas, de uma publicidade e consumo que viciam. O escândalo como meta, o espetáculo...

Capitalismo, uma história de amor

Documentário de Michael Moore sai de micro para macro-economia Michael Moore é aquele gordinho chato que aparece, junto à sua equipe de filmagem, em portas de grandes empresas, corporações, da câmara dos deputados, do senado, da White House (casa branca). Ele consegue a empatia de poucos, e o ódio de muitos em todo o continente americano. Por aqui, a Folha de S. Paulo, em “crítica” feita pelo editor do caderno Dinheiro, o jovem Raul Juste Lores, já desestabilizou a recepção do filme chamando-o de “arrastado”. Convenhamos que economistas nunca foram muito bem em estética. Lançado no Brasil na semana passada durante o Festival É Tudo Verdade que acontece em São Paulo, o filme de Moore escolhe o tema do livre mercado e o sistema capitalista – o lucro, o crescimento, a vantagem, o benefício próprio. Desde o início o recado da película está dentro da disciplina histórica: na comparação com o Império Romano, em cenas forjadas pela enciclopédia britânica, o breve histórico da era Reagan, a en...

No Meu Lugar – Eduardo Valente, 2009

Um filme sem luz A première em longas metragens do, agora sim, diretor de cinema Eduardo Valente deu mais o que falar em revistas internacionais por sua inconsistência do que por sua experimentação. Qualidades e defeitos, dependendo do ponto de vista, do lugar do espectador, estão nesta sua estréia. Caberia ao mais atento deixar o modo de narrar entrecortado da moda de filmes independentes de lado e observar, com os olhos mesmo, ou talvez com outros sentidos, a vida cotidiana captada atentamente de universos domésticos da cidade do Rio de Janeiro. Eduardo, ou Duda Valente, é crítico de cinema desde sua faculdade. Passou pelo mestrado e continua sendo crítico hoje. Com alguns curta-metragens e clipes no repertório visual é difícil ver algo que grite, que seja estridente em seu longa. Algo como o que Fernando Meireles conseguiu com o espetáculo das favelas do Rio em Cidade de Deus (2002), ou o que diretores mais cuidadosos andam provando ser possível ao retratar dificuldades psico...

A Fita Branca - Michael Haneke - 2009

O que aparenta, em uma pequena aldeia, não é. Essa pequena aldeia, no longo tratado sociológico e artístico (porque não há uma palavra que una a lógica e a arte? arriscaria algo como... artilógico) de Michael Haneke, é uma condensação do que acontece em qualquer meio social. Ainda que o narrador da história, o personagem do professor da aldeia, diga logo no início do filme que aquilo que ele está para narrar pode ser mentira, todos se vêem no impasse de acreditar naquilo que ele nos conduz pela sua amarração de argumentos. Fato é, que, Fita Branca passa longe de uma ingenuidade, de uma observação distante, de um olhar fatídico, tal como qualquer análise etnográfica faria. O filme é uma arte de perceber as entrelinhas de um agrupamento humano. E se lembrarmos que, não por gratuidade, não vemos um documentário, entramos na imensidão ficcional, na mente abismal criadora de um cineasta, que consegue nos convencer com sua precisão que o cinema ainda passa realidade - na época do exagero del...

Ainda sobre Lula

É realmente uma pena para quem tem certa relação com a política nacional, relação não afetiva, mas de atenção, ver o fracasso do filme Lula - filho do Brasil. Não que ele tenha tido sua relevância dentro do contexto cinematográfico. Mas por ele NÃO ter tido essa importância. Em outras palavras, o filme mais caro da cinematografia brasileira, com aproximadamente 20 milhões de reais gastos em sua feitura, é apenas mais um filme. Mais um filme mal digerido, mal arranjado, mal-feito, em linhas gerais. Quem foi assistir a este desgostoso malogrado, saiu da sala de cinema achando que aqui não há condições práticas de se fazer um bom cinema - a não ser que ele tenha sua veia cômica, gênero já tão explorado pelos programas da Rede Globo de TV. Saiu dizendo que Lula não merecia tal visibilidade, e coisas desse nível. Sim, Lula não é personagem de filme. É o presidente. E não é também garoto propaganda da incapacidade. Pelo que se vê, seu carisma vem de seu estereótipo canastrão boa vida. Um gra...

Lula - Filho do Brasil - Fábio Barreto

Uma coisa, dentre várias, que o movimento do Cinema Novo da década de 60 ensinou às gerações posteriores, foi fazer filmes com o olhar de um estrangeiro que vê os temas do Brasil. Sendo assim, até aqueles milhares de estrangeiros que vivem no país, por “opção” ou por contingência, gostariam dos filmes que veriam nas telas de cinema daqui. Desde que se entende essa tabuada, se cria cinema com intenções industriais que devem ser levadas a sério. Lula, Filho do Brasil , é filme necessário para estrangeiros, “estrangeiros”, e nativos. Filme que centra em personagem, diga-se de passagem, e segue esse herói até o fim nas regras clássicas, chega a ser regra nessa crença da industrialização do cinema. Não é preciso chamar a atenção pra isso, ou para uma publicidade infantil proporcionada conscientemente por quadros artísticos que não saíram da regra populista do primeiro Cinema Novo. Mas, sim, é preciso chamar a atenção para o fato que salta aos olhos dos mais inocentes – sem o personagem rea...