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a propósito de Utopia e Barbárie


Silvio Tendler é um especialista, podemos dizer, em documentários. Já tematizou de Glauber Rocha a Jango, de Juscelino Kubitschek a Milton Santos. Todos os temas giram entre uma experiência própria que este documentarista tinha com sua época de extremos. Em geral, Tendler, que já trabalhou no Chile, França, Vietnã, Israel, é um ansioso pelo campo frutífero da revolução Latino Americana – que, é inevitável ponto de pauta de quem viveu a geração de 1968, o ano que, segundo o jornalista Zuenir Ventura, ainda não acabou.

Em Utopia e Barbárie (2009), o tema vai ao olho do furacão dessa geração atribulada, erótica (como diria Marcuse), intensa, revoltada, rebelde, jovem. A modernidade chegava, no mundo, a um multiculturalismo que parecia infinito – o mundo nunca tinha sido tão grande, tão cheio de experiências, de imagens. Exóticas ou estáticas, as imagens reviram-se em neons, em cartazes das então vedetes seminuas, de uma publicidade e consumo que viciam. O escândalo como meta, o espetáculo como meio de vida. O documentário biográfico de Tendler vai além da história, e chega à memória pessoal, como um convincente relato de uma pessoa que viveu os fortes, atribulados momentos de opressão do 1968 no Brasil.

Em contraste com os passos dados nos mundos desenvolvidos, a revolução aqui foi o Ato Institucional no 5. Em todo o cone sul da América, a verdade foi a da repressão. Vemos no documentário essa verdade. Por exemplo, a presença de ex-torturados pela ditadura revendo o assunto da não mais polêmica anistia irrestrita, que, em qualquer lugar do mundo teve como rogativa a punição dos torturadores a serviço do Estado. Tirania moderna, avanços tecnológicos, variações de pensamento, tudo isso, aliada à política de repressão e assassinato de comunistas, configura a década posterior à da “revolução” de 68.

Mas, como se vê no filme, a década de 80 viria pior que a de 70. Se antes se viam hippies nas ruas, pregando paz, amor, fim da guerra contra o terror de algo que já era ultrapassado (o sistema soviético), a utopia da tecnologia solicitava atitudes chamadas yuppies, aqueles nerds que criariam condições necessárias para o desenvolvimento de grandes atrações de épicos estrelares no cinema, de jogos eletrônicos mímeses da guerra, e de derivativos financeiros de uma febre do avanço tecnológico que propicia a vida que temos hoje.

A utopia e a barbárie, portanto, andavam juntas desde sempre, e ninguém se atentava para esse fato. Silvio Tendler conversa com inúmeras pessoas sobre isso. Elenca posições de filósofos pós-modernos como Gianni Vattimo, de jornalistas, militantes, cineastas, pessoas ligadas a uma crença irrestrita de socialização e internacionalização do direito à igualdade. Curioso pelo que vê, em suas entrevistas, Tendler resolve fechar o tema com algumas reticências, já que nada na história teve fim. Vide o conflito atual entre oriente médio e ocidente, metaforizado pelo foco de lutas entre os Palestinos e Israelenses.

Para alguns, o cinema documentário é entediante. Para a maioria, é reportagem de televisão. Já para os que restam dessa generalização, o filme documentário não passa nada mais do que a história do filmado. Todos estão parcialmente certos. Mas o contar histórias em formato que todos estão acostumados à procura da verdade, só pode estar dentro do formato documentário. Verdade, aliás, que, em ensaios, é alcançada nas suas beiradas.

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