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Sobre o que se pode tirar de “I am the Walrus” (John Lennon)

Grande parte do que vou escrever aqui é especulação. No entanto, grande parte também vai ter sua ligação com algo que já foi dito e escrito. Sobre os Beatles, filhos do proletário inglês que escolheram a criatividade como maneira de demonstrar um lirismo revolucionário comum na época do pós-guerra,a era extremista, romântica, surrealista, da juventude crítica às tradições imperialistas e dominadoras. Proletário do centro de um império cultural que continua sendo forte hoje. Centro não só capitalista, portanto. A música “I am the Walrus” é a primeira de John Lennon no disco lançado na ocasião do filme Magical Mystery Tour. Filme colorido, mas exibido em preto e branco na TV. Um fracasso, ainda que tenha emplacado 3 números 1 na lista de hits do “fab four”. Fracasso na ocasião, também, de uma comitiva grande de artistas que escolhiam, àquele momento de industrialização da cultura, a opção de criar obras populares com harmonias simples, para não taxarmos de pobres. A lição do blues e fol...

::algo sobre a reclamação::

Ao que parece, e todos sabem disso mas não saem por aí dizendo, o Novo Mundo ainda sofre com algo da herança colonial. Por quê? Porque aqui, principalmente no Sul, a chamada sudamérica, dizem pelos cantos a frase "se a gente reclamar não dá jeito" - ou pior: "não adianta reclamar"; "se reclamarmos de tudo vamos viver reclamando", fazendo mal apenas a nós mesmos, ao nosso estômago. Não acredito que nada aqui seja "natural". Naturais são as florestas paradisíacas, não a maneira de se atuar em sociedade. O que me parece é que aqui querem mais viver felizes, se possível em festas que vão das micaretas às farras dos peões - e isso vale para a américa do norte também, que tem a melhor e mais inventiva música do mundo, o rock n´roll por eles criado. O Novo Mundo vive festejando a vida, por novas perspectivas de uma multiculturalidade do futuro, da construção de um "novo milênio", novas vias, novidades levadas ao mundo inteiro. Mas nós aqui no ...

Um filme que beirou a política: Bem Amado - Guel Arraes - 2010

Quando o filme Bem Amado termina, vemos o nome Brasil transmutar-se em Sucupira . Isso acontece por razões claras de uma tentativa de se fazer política nesse andamento indeterminado da arte cinematográfica contemporânea. Guel Arraes, diretor do filme, filho de político conhecido pelo exílio, de Pernambuco, que trabalha na Rede Globo desde a década de 80, assume diretamente o tema político – e finalmente - , mas com certeza meio tarde. Indeterminação também na tentativa de um diagnóstico usando a tardia alegoria do dramaturgo Dias Gomes, em tempos que tudo fica claro quando é dito “na cara”, e não em adornamentos e mensagens escondidas e distorcidas. Nada contra a alegoria, pelo contrário. O problema fica em seu manejo. Digamos que, o ator Marco Nanini, que trabalha com Guel no seriado A Grande Família, e é relembrado como o matador de “Lisbela e o Prisioneiro”, chama o filme para si. Mais que, à época, Paulo Gracindo. Odorico Paraguaçu, o prefeito coronel, político-mor da província ...

Nome Próprio - Murilo Salles (2008)

Existe no Brasil uma tribo imensa de anglófonos em arte que se auto-intitulam independentes. São músicos, escritores, artistas plásticos e cineastas que às vezes conseguem pensar em inglês, e dizer algo que nem jamaicanos, nem australianos, nem nigerianos, nem mesmo norte americanos conseguem entender. Inglês, aliás, é a língua corrente nos undergrounds da vida global. Neste nicho pode se enquadrar Clarah Averbuck, escritora que admite um pop, deseja o espírito de Andy Warhol, misturando com John Fante, o velho Hank, a escritura Gonzo, e, quem sabe, a mística beat de Jack Kerouac. Baseado em coisas que Clarah escreveu em blogs, e em seus dois livros publicados, e algo do que ela andou falando pelos bares, o filme Nome Próprio torna evidente essa cultura vaga, esfumada, indie , do pop tupiniquim (e não tupinambá). A batida, o ritmo é da modernidade tardia. Uma modernidade antiga, que tem ar retrô. Não haveria espaços melhores para serem gravados que não fossem os degradados condo...

Espíritos no cinema

Milhares de pagantes de uma indústria que se consolida aos trancos no Brasil Certo dia um colega estudioso de cinema na Índia me explicou em parte o fenômeno da indústria de filmes em Bombaim, a Bollywood. Esta é, para os que desconhecem do fato, a primeira maior indústria de filmes em número de audiência do mundo. Ele dizia que além do drama familiar, a busca dos espectadores era por algumas narrativas que tocassem no tema da religiosidade hindu. São mais de 1 milhão de deuses, semideuses, ancestrais, no hinduísmo – personagens não faltam. Chegam, alguns das castas mais pobres do país, a jogar moedinhas para a tela e gritar nas salas, como num culto, num ritual, numa festa religiosa. Bem, fato é que os realizadores atuais no Brasil tocam no tema do espiritismo em algumas obras. Tema que, aliás, merece maior atenção – e, com a permissão do jornal, voltarei a tocar com mais apuro posteriormente. Em 2008 um filme pretensioso em produção, do Ceará, consegue mais de 400 mil pagantes em s...

The Misfits - (1961) - John Huston

- Marlyn Monroe, uma mulher absurdamente linda, cativante, carismática, alegre, sensual, vai ao interior para processar o ex-marido por violência. Ganha. Conhece dois rapazes durante sua estada na cidade: um ex-combatente de guerra e um cowboy. Este último, Clark Gable, aquele de E o vento levou... - Se o realismo não era, antes, um atributo de filmes hollywoodianos, este é uma exceção a essa regra. Em medidas bem ajustadas, óbvio, pois ninguém iria aos cinemas lotar sessões e comer pipocas se não houvesse o chamativo do showbusiness. Marlyn e Montgomery Clift são estes chamativos do star system. No entanto, longos planos sequências nos dão um sabor novo de modernidade em meio a toda a ostentação interiorana da cenografia. - Detalhe importante, agora. A crítica que John Huston faz, como sempre, à ambição humana diante da natureza. Ambição, diga-se de passagem, patriota, símbolo maior do capitalismo moderno no mundo. O cinema, aliás, era divulgador dessa simbologia. Não Huston, com este...

Uma noite em 67

Sintetizando, numa entrevista, algo de uma memória sempre vem à tona quando quem está no ponto dianteiro das perguntas é alguém que viveu tais lembranças. Aí vem uma história quase perfeita que é compartilhada, comemorada, comentada, vista com comoção, elevada ao típico patamar de sombras empoeiradas e guardadas em prateleiras, que nos assombram no passado. Em uma época de atritos entre uma grande parcela da juventude mundial que tomava o poder das mídias, e uma tradição cheia de teias de aranhas – como foi o final da década de 60 -, os lugares desconhecidos de uma cultura revolucionariam um Brasil tão positivista e tão integralista, senhorial, conservador. Falamos do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, que aconteceu em 1967, e deixou em arquivos atuais momentos singulares das movimentações culturais que viriam logo após essa data. Caso da estréia de Caetano Veloso com a música Alegria, Alegria; ou de uma invenção intelectual e estética de Chico Buarque, com Roda...