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::algo sobre a reclamação::

Ao que parece, e todos sabem disso mas não saem por aí dizendo, o Novo Mundo ainda sofre com algo da herança colonial. Por quê? Porque aqui, principalmente no Sul, a chamada sudamérica, dizem pelos cantos a frase "se a gente reclamar não dá jeito" - ou pior: "não adianta reclamar"; "se reclamarmos de tudo vamos viver reclamando", fazendo mal apenas a nós mesmos, ao nosso estômago.

Não acredito que nada aqui seja "natural". Naturais são as florestas paradisíacas, não a maneira de se atuar em sociedade. O que me parece é que aqui querem mais viver felizes, se possível em festas que vão das micaretas às farras dos peões - e isso vale para a américa do norte também, que tem a melhor e mais inventiva música do mundo, o rock n´roll por eles criado. O Novo Mundo vive festejando a vida, por novas perspectivas de uma multiculturalidade do futuro, da construção de um "novo milênio", novas vias, novidades levadas ao mundo inteiro.

Mas nós aqui no Sul festejamos ainda com violência. Inventou-se um mito político do homem cordial, e isso nada tem a ver com a realidade canibal do sul tropical - que de triste só tem a exploração de pequenas elites e grandes propriedades. A cordialidade aqui é outra, não a da subserviência metafísica e cultural. É a cordialidade de viver entre as diferenças e aceitá-las como algo do mundo. Isso não existia antes das viagens coloniais - essa igualdade de culturas distintas.

Deixamos então o Novo Mundo longe da intenção civilizatória e regradora de um Velho Mundo civilizado, ou civilizatório. A modernidade, aliás, é fruto dessa mistura entre o velho e o novo, o passado e o futuro. Aliás, deixando tudo mais claro, a modernidade é nossa!, como dizem os mais conservadores que vieram morar aqui com a tal força civilizatória. A sensação do momento, o espetáculo do exótico, as revoluções capitalistas, a vida feliz dos esportes, a distância da guerra (ela agora é lá no Oriente Médio, não contra os "silvícolas").

Nada mais ilusório que essa mistificação do Novo Mundo.

Isso é passageiro, podem crer. Os EUA já mostram isso, desde o pós-guerra. Ditaduras financiadas e guerras anti-comunismo. Tudo isso com a paranóia óbvia de elites que vivem com medo de perderem seu território conquistado com tanta força. O Novo Mundo é delas, dessas elites pré-capitalistas.

Cabe, a quem tem um mínimo de bom senso e consciência desse processo civilizatório conservador, reclamar. Reclamar publicamente, evidenciar sua indignação, e mudar a chatice. Ser chato, como tentam encaixar a carapuça em quem reclama, é ser, ao menos por um tempo, um pouco mais certo de que aqui, um certo dia, tudo pode correr bem e poderemos viver sem dominação e exploração absurda - afinal, sem desigualdades entre o céu liberal e o inferno popular.

imagem - Antôni Berni - manifestación

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