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Claustrofobia em um não lugar citadino - Cosmópolis, David Cronenberg

o "rato" se torna mercadoria em Cronenberg Em apresentação na sua primière na França, Cannes, críticos falam do pecado de Cronenberg neste filme que parecia ter tudo para nos clarificar sobre nosso atual patamar contemporâneo. Esteticamente, políticamente, financeiramente. O pecado havia sido o tempo estático - sem maiores ações, sem maiores sentimentos afetivos. Cronenberg rebate: o filme fala de uma claustrofobia, não podia ser diferente. Representado pelo jovem ator Robert Pattinson, este que, certas vezes, parece não querer atuar - uma qualidade que rememora um ponto alto alcançado por Pierre Clémenti, por exemplo -, o protagonista de Cosmópolis quer apenas cortar o cabelo. "Drama" joyceano, do livro de DeLillo. Ao lado de toda sua saga rumo à periferia da cidade, local onde fica seu barbeiro de infância, uma série de acontecimentos inúteis tangenciam sua rotina. A grande fatia do tempo fílmico é gravada dentro de uma limousine equipada com artefatos da no...
No Brasil, a figura do intelectual é associada ao trabalho do jurista, e a do cientista ao trabalho do médico. Antigamente era assim - médicos e juristas eram também governantes, prefeitos, escritores, farmacêuticos, jornalistas, etc. Às vezes tudo isso junto. Pensar assim hoje em dia é uma aberração, mas isso ainda se vê em muitas cidades. Médicos e advogados (ou juízes) são trabalhadores como quaisquer outros. Não há porque terem privilégios ou status social diferenciado. Traços do elitismo de uma sociedade atrasada cultural e economicamente - há que se fugir desse estigma. Há bons profissionais e péssimos profissionais em qualquer área.

007, publicidade, redenções, etc.

James Bond como aquele galã que nos amava, está velho. Funcionando bem, claro, mas já quase inutilizado. Agente do império atual capitalista, ele é moldado por Sam Mendes, ótimo diretor, numa aventura contra os turcos, chineses, traidores e toda a velha escória que a Europa distingue como os Inimigos terroristas e mafiosos. Ainda que tenhamos essa aventura politicamente muito incorreta, percebe-se uma autocrítica muito própria ao universo jamesbondiano. É que não há resposta plausível para tanta retaliação, pra tanta investigação titubeante, pra tanta morte nessa guerra contra o terror. Antes eram os comunistas, hoje são os subdesenvolvidos mestiços que ocupam as periferias metropolitanas europeias - haja cofidência nessas aventuras ditas ingênuas. O império contra ataca. O diretor, conhecido pela falta de misticismo diante desse mundo americanizado, beligerante, middle class farto de possibilidades ingênuas dadas pela propaganda, rende-se ao triunfo do mito inglês. Mito criado por Ian...

Rock's death

O rock and roll, começando com Muddy Watters , com o blues afirmando-se com uma batida menos improvisada aludindo a um passado mais negro, como o Jazz, mas extremamente violento, agressivo, religioso, gospel, pentecostal, protestante, rico, mostrava ao mundo uma cultura nova. Claro, era também música negra americana agredindo ouvidos brancos recatados, mas evoluiu ao ritmo único, unívoco, padrão do multiculturalismo adotado pela globalização pós-guerra - principalmente nos meandros da revolução jovem das décadas de 60 e 70, quando as indústrias culturais se tornaram mais fortes incluindo a presença daqueles melhores experimentos (are you experienced?) conjuntos entre o mais velho tradicional e o mais jovem pop. Movimento hippie, fuga do urbano, mas não da indústria. Movimento "just DO IT" de Jerry Rubin, movimentos ANTI-GUERRA (ANTI WAR), fim da guerra imperialista do Vietnã apoiada por todo o ocidente, na paranóia que afundou as causas perdidas do socialismo. O slogan é adq...

Xingu

Há formas de se olhar o outro em narrativas. São os focos narrativos, pontos de vista, linhas condutivas através de personagens que encaram o, afinal, desconhecido da aventura, do enredo. Foi assim com aquelas grandes bilheterias da maestria de grandes massas conduzidas pelo olhar curioso, assustado. Alien, de Ridley Scott fez o mundo acordar para seres evoluídos, superiores, que nos consomem por dentro. Nascem, aliás, de nós mesmos. O “outro” que nos habita. No Brasil, terra bastante desconhecida, a regra é essa também. Explorar o oeste, tal como no gênero (também de grandes massas) foi a ordem de um elementar discurso oficial. Temos que nos conhecer por dentro, diria o positivista republicano, fragmento de um déspota esclarecido como D. Pedro II, intelectual do romantismo. Os não lugares então, aqui, estão no profundo interior da floresta. Xingu retoma a encenação deste interior do Brasil Grande. Paulo César Peréio entende bem dessa linguagem provocadora, que in...

Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel

É pena que uma grande geração de pessoas que imaginaram uma fantasia chamada contracultura hoje seja lembrada por documentários de arquivo. Pena que tudo tenha que aderir à linguagem dominante do "bem apurado", deixando melhor de uma época somente para uma história do passado. Em outras palavras, o documentário histórico nos retira o presente. Em Glauber, Labirinto do Brasil , Dzi Croquettes , Uma noite em 67 , Raul , a tônica é de relembrar um tempo de utopias, daquele jeito que foi a tese tão simples mencionada por Sílvio Tendler. Todos estes filmes nos confirmam a morte de uma geração, que pra o grande sistema pareceu "perdida" em apontamentos propositivos. Uma balela. Os mesmos filmes de arquivo nos fazem reafirmar que todos esses ídolos de uma dimensão artística passada, chamada contracultural, underground, udigrudi, subversiva, ou, lírica, são vivos em nosso imaginário mais criativo. Claro, só podiam estar guardados em nossa Caixa de Pandora, que, caso ain...

Os Inquilinos (Os incomodados que se mudem)

Sérgio Bianchi prepara a cena Bianchi, diretor de cinema meticuloso e preciso no que se trata de temáticas brasileiras, abandona seu sarcasmo tão presente nos longa metragens anteriores. Agora, em Os Inquilinos, a atmosfera é a da inércia, suspense, terror do cotidiano - fora da estratégia da ironia. Difícil dizer o que pode parecer essa nova narrativa que coloca a periferia, a família classe baixa cordial no centro do alvo da objetiva. Ainda assim, é certo que a pegada ainda é a crítica social. Uma interpretação possível pode ser a própria inabilidade com a vida em comunidade do subúrbio, diante de uma paisagem de violência constante e radical. Cidadania? discurso falho já expresso em "Quanto vale ou é por quilo?", uma solução apontada pelo brechtianismo radical: a violência contra organizações que se utilizam da pobreza para enriquecer. A mesma violência que em Os Inquilinos provoca o terror constante da família em busca de paz, ou ascensão social perto da favela, e qu...