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Cloud Atlas - 2012

Cloud Atlas (chamado de A Viagem para os analfabetos daqui) tem recebido as piores críticas em revistas renomadas, do tipo Veja. Não só por isso vale muito a pena assistir. Os irmãos Wachowski e Tom Tykwer tão na atmosfera "new age", a revolução que Hollywood aceita nos seus filmes. Anacrônico, mas vivo. Sem contar a influência direta de Godard, ainda que, claro, pro lado da linearidade e adaptação ao mainstream. Mais que em Tarantino. No filme Cloud Atlas a gente percebe como o cinema americano é ridículo na persistente encenação melodramática. E como o povo analfabeto adora esse gênero, enchendo as salas pra sentir o lado auto-ajuda da história. Não é perda de tempo - há muito o que se tirar do experimento que os 3 diretores fazem. Um dos elementos é a contradição entre conformação dos mais fracos e persistência política de pessoas que dominam, mas são esclarecidas. Deixando de lado toda a bobagem de uma política afirmativa norte-americana clássica na politização de umbigo ...

Notas sobre Life of Pi , de Ang Lee (2012)

Produção de Life of Pi mostra a criação de deuses contemporâneos no cinema (título brasileiro: As Aventuras de Pi, 2012) O cinema faz tratos com Deus sempre que foi cinema. Os grandes épicos flertam diretamente com aquilo que a entidade teria nos criado numa linguagem comum – de Intolerância , Griffith, passando por Alemanha Ano Zero , Rossellini, até em Tabu , Murnau, ou Idade da Terra , Glauber Rocha. Citações aleatórias, mas completamente distintas umas das outras – filmes distantes. Isso pra não falar dos épicos propriamente religiosos. O cinema, sem dúvidas, em todas as suas linhas, vertentes, escolas, linguagens e experimentos, brinca com (de) Deus ou Deuses. Simplesmente, nos avisa que não mais a fala, não mais a simples expressão gestual, não mais o comum faz parte do que chamamos de realidade. Enquadra-se o real, divide-se a percepção, cria-se uma história para, poética ou pedagogicamente, nos mostrar expressões divinas da vida. Tocar essa manifestação divina, pra al...

A febre do rato (2012) - Cláudio Assis

Zizo, poeta alterego de Cláudio Assis, mas referência real Para as elites brasileiras, a pobreza é lixo a ser excluído. Para o cinema publicitário, a pobreza é matéria a ser adornada, floreada. Para a publicidade do poeta Zizo (interpretado pelo incansável Irandhir Santos), no filme de Cláudio Assis, o slogan que retorna como mote é: "abaixo a reciclagem e viva a lapidagem".  A estética do lixo passa por uma reciclagem no cinema publicitário do Sudeste em filmes. A pornochanchada, por exemplo, era uma reciclagem da boca do lixo, As comédias-besteirol de hoje são reciclagem das chanchadas. Fenômenos de filmes de favela são reciclagem do Cinema Novo. Da industrialização da Globo Filmes ao cinema da O2 e adjacentes, a publicidade toma formas culminantes hoje na produção cinematográfica. Temos o método já colocado à prova. Cláudio Assis toma essa publicidade e a torna argumento panfletário de algo próximo do abismo. Mas não da maneira utópica. Não quer a revolução. E...

Claustrofobia em um não lugar citadino - Cosmópolis, David Cronenberg

o "rato" se torna mercadoria em Cronenberg Em apresentação na sua primière na França, Cannes, críticos falam do pecado de Cronenberg neste filme que parecia ter tudo para nos clarificar sobre nosso atual patamar contemporâneo. Esteticamente, políticamente, financeiramente. O pecado havia sido o tempo estático - sem maiores ações, sem maiores sentimentos afetivos. Cronenberg rebate: o filme fala de uma claustrofobia, não podia ser diferente. Representado pelo jovem ator Robert Pattinson, este que, certas vezes, parece não querer atuar - uma qualidade que rememora um ponto alto alcançado por Pierre Clémenti, por exemplo -, o protagonista de Cosmópolis quer apenas cortar o cabelo. "Drama" joyceano, do livro de DeLillo. Ao lado de toda sua saga rumo à periferia da cidade, local onde fica seu barbeiro de infância, uma série de acontecimentos inúteis tangenciam sua rotina. A grande fatia do tempo fílmico é gravada dentro de uma limousine equipada com artefatos da no...
No Brasil, a figura do intelectual é associada ao trabalho do jurista, e a do cientista ao trabalho do médico. Antigamente era assim - médicos e juristas eram também governantes, prefeitos, escritores, farmacêuticos, jornalistas, etc. Às vezes tudo isso junto. Pensar assim hoje em dia é uma aberração, mas isso ainda se vê em muitas cidades. Médicos e advogados (ou juízes) são trabalhadores como quaisquer outros. Não há porque terem privilégios ou status social diferenciado. Traços do elitismo de uma sociedade atrasada cultural e economicamente - há que se fugir desse estigma. Há bons profissionais e péssimos profissionais em qualquer área.

007, publicidade, redenções, etc.

James Bond como aquele galã que nos amava, está velho. Funcionando bem, claro, mas já quase inutilizado. Agente do império atual capitalista, ele é moldado por Sam Mendes, ótimo diretor, numa aventura contra os turcos, chineses, traidores e toda a velha escória que a Europa distingue como os Inimigos terroristas e mafiosos. Ainda que tenhamos essa aventura politicamente muito incorreta, percebe-se uma autocrítica muito própria ao universo jamesbondiano. É que não há resposta plausível para tanta retaliação, pra tanta investigação titubeante, pra tanta morte nessa guerra contra o terror. Antes eram os comunistas, hoje são os subdesenvolvidos mestiços que ocupam as periferias metropolitanas europeias - haja cofidência nessas aventuras ditas ingênuas. O império contra ataca. O diretor, conhecido pela falta de misticismo diante desse mundo americanizado, beligerante, middle class farto de possibilidades ingênuas dadas pela propaganda, rende-se ao triunfo do mito inglês. Mito criado por Ian...

Rock's death

O rock and roll, começando com Muddy Watters , com o blues afirmando-se com uma batida menos improvisada aludindo a um passado mais negro, como o Jazz, mas extremamente violento, agressivo, religioso, gospel, pentecostal, protestante, rico, mostrava ao mundo uma cultura nova. Claro, era também música negra americana agredindo ouvidos brancos recatados, mas evoluiu ao ritmo único, unívoco, padrão do multiculturalismo adotado pela globalização pós-guerra - principalmente nos meandros da revolução jovem das décadas de 60 e 70, quando as indústrias culturais se tornaram mais fortes incluindo a presença daqueles melhores experimentos (are you experienced?) conjuntos entre o mais velho tradicional e o mais jovem pop. Movimento hippie, fuga do urbano, mas não da indústria. Movimento "just DO IT" de Jerry Rubin, movimentos ANTI-GUERRA (ANTI WAR), fim da guerra imperialista do Vietnã apoiada por todo o ocidente, na paranóia que afundou as causas perdidas do socialismo. O slogan é adq...