Pular para o conteúdo principal

De como Judas é importante na constituição de uma narração testamental

JUDAS - Pra quem tem como arquétipo ser Cristo, ou ter Jesus como parâmetro de um ser humano bondoso que quer dar ao mundo um princípio, ou princípios que não estão atrelados ao dinheiro ou à trocas abstratas, como o capital. Judas seria um traidor porque virou o rosto para Jesus, também, já depois de tê-lo caguetado.

Nos morros e periferias o Judas, caguete, é aquele que tem proximidade com a polícia. Há códigos de conduta bastante profundos no crime organizado, ou no crime desorganizado como o é em grande parte dos casos. Aquele Miguel que dedura todos os participantes da organização é o maior dos traidores na linhagem humana - e não é visto como herói nem mesmo pela polícia depois.

Se ele não ganha nada, nem de um lado nem do outro, contando ao Estado onde estão e quem são os contraventores, porque ele ainda faz isso? Medo? Isso - Judas é um medroso. Ele vira o rosto porque não quer olhar para aquilo que ele mesmo criou - a situação nova proporcionada por um ato seu. Ele não quer mais fazer parte, quer desfazer o que fez, se arrepende, mas ainda sim é sacrificado por todos. O Judas é essencial para a continuação da narração do testamento. Ele é um personagem que vira, que cria o novo clímax, sem ele não haveria o final da narração - o conflito entre o Estado das coisas e o estado paralelo que se criava.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...