Pular para o conteúdo principal

Wall Street - o dinheiro nunca dorme (2010)

Todo garoto de 8 anos de idade sabe que Wall Street é quem domina o mercado mundial com agentes que conspiram por entre os celulares da veloz vida pós-moderna. Mas o garoto que tinha 8 anos, na época do primeiro episódio do filme Wall Street, de Oliver Stone, 1987, não dava a mínima para essa liquidação de imagens de New York - que, diga-se de passagem, àquela época tinha sido um furacão para uma mente mais acomodada. Digo isso porque o primeiro filme é uma avalanche de informações, em um universo muito pouco afeito ao didatismo, e terminantemente pronto para avançar em uma crítica densa ao tipo de especulação da economia regulada pelo setor financeiro. De tanta informação que dava, o filme chegou, apesar da crítica severa feita ao herói Gordon Gekko (um nome fashion, pelos rumores pops da década de 80), ao patamar de grande obra explicativa do mundo real de Wall Street.

Bem... ao compararmos o primeiro filme com este que acaba de entrar no cinema, percebemos o quanto aquele estava distante da tal realidade. O segundo, sim, apesar do melodrama que liga a trama, é mais realista - trata mais da realidade humana daquele universo poderoso. Quer dizer: o poder ali não é só decidido pela ganância de um herói à la Gekko. É discutido por uma assembléia que, segundo o próprio filme, é composta por uma elite "pensante" do Capital. Gekko, aliás, havia sido denunciado por essa elite, já que ele não tinha pudores algum em se mostrar ganancioso e fútil - algo abominável pelas famílias mais tradicionais.

Uma rápida nota ao brilhante trabalho do novo aprendiz do herói, interpretado pelo jovem ator Shia Labeouf. O velho aprendiz do primeiro filme, Charlie Sheen, volta neste segundo para conversar com seu velho tutor. Ironia do destino, ou não, Michael Douglas desdenha toda a ridícula pomposidade do antigo parceiro, e se volta para a nova juventude observadora, atenta às "novas bolhas" do mercado. Ao fim, como se vê, não há crítica que dê fôlego - todos estão dentro desse campo quase natural da competição e da atividade. A inteligência americana estaria, portanto, nisso, mesmo depois de muita crise sistêmica, porque novos quadros pensantes dão às estruturas rígidas do poder um escape necessário para sua plena continuação.

Ficamos pensando então. O capitalismo é mesmo aquela avalanche de cheques astronômicos de 100 milhões de US$, para novas alternativas de empresas? O extremo oriente vai completar esse sistema com sua corrida pelo tempo perdido de algumas décadas? tudo isso fica na multidão de novas informações jogadas aqui mesmo, na internet, por blogs como este aqui que você está, agora, lendo. Nada muda, a não ser para que tudo continue o mesmo.


Comentários

Anônimo disse…
de quem é a direção? Do oliver stone tb?

abraço
mauro disse…
é sim,e essa segunda versão tem o mesmo nome da primeira.

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...