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Por que tanto Glauber?

Há de se considerar que ninguém mais aguenta ouvir o nome de Glauber como um marco no cinema brasileiro - e não saber o porquê de ele ser esse marco. Em qualquer lugar que haja um cinéfilo com olhos arregalados querendo saber das novidades do mercado de entretenimento, o nome de Glauber Rocha (tão repetido aqui neste blog que vos serve) é algo datado, se não ultrapassado, velho, antigo, sem referencial atual. Dá até pra concordar a respeito da não atualidade. Mas que tipo de atualidade é que se imagina nessa tentativa de representação cinematográfica contemporânea? Glauber é nicho de pesquisa sobre o audiovisual latinoamericano. Ele, dito abaixo no texto de Guerra Conjugal, foi como Oswald de Andrade ao dissecar a linguagem poética. E, se estes dois ficam em seu tempo, é muito porque a poesia hoje não faz mais muito sentido - o pragmatismo da imagem útil toma a dianteira da paleta de planos. Glauber Rocha desimagina o que se imaginou até sua presença no meio visual, e re-edita o início...

Guerra Conjugal - Joaquim Pedro de Andrade - 1975

Joaquim Pedro teve sempre que ser muito tímido para que sua imposição artística não tivesse presença autoral , como no amigo que ele sempre admirou, Glauber. Em uma comédia de costumes da classe média brasileira, só reatando as pazes com Nelson Rodrigues, mas ao jeito de Dalton Trevisan - exagerando no pessimismo, domesticando os planos em uma falta de sincronia entre o mundo velho e o mundo novo. Não só Joaquim Pedro seguiu, trilhou, abriu esse caminho no cinema novo, mas principalmente Arnaldo Jabôr, onde o drama de costumes chegou a seu ápice em uma agudez sátira. A briga é com o uso do melodrama com fins absolutos de mercado, e com o sentimento carioca meio bobo, de que há romantismo de folhetim em vida. O brega forte desse popular exagerado demonstra o que o avanço econômico nos proporciona, na mídia. Nesse ambiente de cultura de massa dominante surge o filme Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. A mediocridade e decadência chegam a doer de tanta verossimilhança, nesse filme. É um re...

Porto das Caixas - Paulo César Saraceni - 1962

Junte os seguintes nomes: fotografia de Mário Carneiro, trilha sonora de Antônio Carlos Jobim, roteiro adaptado de Lúcio Cardoso, atuação de Reginaldo Farias, direção de Paulo César Saraceni. Será que a obra poderia sair razoável, com tanto peso junto? Sim - saiu. Talvez porque Saraceni ainda não tinha a habilidade necessária para contradizer a linha do cinema traidicional no Brasil. São falsos raccords e quebras de eixo em demasia, são notas repetidas demais do Tom, ao passo que são fotografias lindíssimas de Mário - não se via tanta beleza até então no cinema brasileiro. Inclusive, nem se podia saber quanta beleza tinha esses dramas brasileiros. Lembra, também, Sven Nykvist, o segundo diretor dos filmes de Bergman. Mas o filme sinceramente deixa a desejar em seu ritmo monótono, sem maiores surpresas. Uma moça do interior, mora na casa de um marido rude, e procura, através de seu charme, sedução, um rapaz para matá-lo. Ela tem discussões que parecem não querer acabar com este marido -...

Jogo de Cena - Eduardo Coutinho - 2007

Essa é a proposta do cinema contemporâneo - pelo menos daqueles que vão mais à frente: dedicar-se ao questionamento do que se diz ser a realidade, e a invenção. Problemas psicanalíticos, imaginários, públicos ou privados à parte, o que Eduardo Coutinho vem fazendo nos seus últimos filmes é algo que ultrapassa esses dilemas. Isso porque, como sabemos, o diretor desaba em discussões éticas em documentários. É melhor dizer que ele faz filmes, e não documentários, portanto. Muito mais agora, que suas "regras" foram quebradas. "Nunca montar de maneira ilusória; não colocarás voz over em cenas distintas; nunca inventará ficções para enganar o público - não sejeis Michael Moore!" Coutinho crítico da invenção, da imaginação no filme agora cria. Mas suas crias, suas criações ficam, ainda, na captação do momento. Ele quer, no fundo, deixar toda a discussão um pouco de lado, e aproveitar o ensejo de atrizes contratadas para tentar captar melhor aquilo que sempre tentou gravar....

Annie Hall - Noivo neurótico, noiva nervosa - Woody Allen - 1977

O problema que Woody Allen tem ao não conseguir distinguir a realidade da ficção, algo que Brecht, se estivesse vivo, elogiaria, é o que faz uma grande parcela da platéia no cinema deixar de querer assistir aos dramas existenciais bergmanianos do diretor judeu novaiorquino. Mas a coisa é que esse problema é a chave de Allen - se não dá pra aceitar esse contrato, deixe ele de lado mesmo. A distância entre o que é contado e o que é visto é manifesto em Annie Hall. Essa distância começa logo quando ele, o diretor, também personagem no filme com o nome de Alvy Singer, surge no início da película contando sua história de vida no Brooklyn. Antes mesmo de conhecer Diane Keaton, aquela que seria o grande amor da história. Ele conta, narra, mas participa da trama - a distância serve ao humor, e a polêmica da alienação da imagem do espectador pelo cinema fica pra um plano mais inconsciente. Allen é Alvy, e o contrário pode ser também. O personagem, ou a vida do comediante ficcional, é confundi...

Le Lit de la Vierge - Philippe Garrel - 1969

O salvador é personagem de alguns filmes nas décadas de 60 e 70. Podemos lembrar, inclusive, de uma pelícua feita por Glauber Rocha , na Espanha, chamado Cabezas Cortadas. Uma ceifa, arma do salvador, junto aos guerrilheiros surgem das montanhas rochosas à procura do rei Diaz - do conhecido país Eldourado. Só que este filme vem logo após uma reflexão de Phillipe Garrel , em Le lit de la Vierge. Nele, Garrel põe no onírico revolucionário uma melancolia que chega ao fastio - não há salvação certa no leito da virgem. Nem mesmo Maria Madalena, que guarda o que um dia atiraram em seu corpo, consegue livrar Cristo dessa depressão. Mesmo lembrando um pouco o show de Jesus Cristo Super Star, com as músicas conhecidas da conturbação norte-americana e inglesa da década de 60, o horizonte fica na nulidade. Cristo carrega algo que poderia ser a caixa de Pandora. O inferno. Em uma caixa pequena e leve, como uma mala. O que mais nos alucina é a perseguição interminável de cães e policiais modernos ...

Novo Espetáculo

Será este o primeiro norte-americano afro-descendente a chegar ao cargo mais alto do mundo? Ao cúmulo, centro do império? Àquela cadeira que já serviu de andaime pra dias de preguiça e fadiga de George W. Bush pai e filho? Tomara. O belo e sagaz John Edwards saiu da frente - agora, no partido democrata, temos a mulher de Clinton, Hillary, e o negro Barack Obama na disputa. Seria um fato histórico para o espetáculo político pós-moderno. Daria fôlego aos movimentos negros. E talvez, se Barack chegasse (chegar) ao trono, teríamos como ver a política internacional desse, que talvez, seja o mais querido presidente, desde Kennedy. Ao mesmo tempo, também o mais visado por miras de milícias armadas conservadoras da própria nação estadosunidense.