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Woody Allen - O Sonho de Cassandra - 2007

- A profecia de Cassandra - Allen tem, nessa nova fase de produções na Grã-betanha, partido pra uma linha mais irônica que a normal. Mais trágica, também. É aquela citação constante em suas obras mais “pretensiosas”, mais cults, como A última noite de Boris Kuschensko, citando o realismo literário russo, ou A poderosa Afrodite, citando o teatro antigo da Grécia – sempre dentro do gênero da comédia, onde ele se iniciou, e onde ele domina sua maneira de trabalhar fazendo cinema. Agora ele vai até Shakespeare, autor como Machado de Assis, na Inglaterra. Mas de Dostoiévsky a Shakespeare, a jornada não é tão longa quanto parece. E é nessa junção que a ironia de Woody Allen tem se confirmado. Neste seu último filme, Cassandra’s Dream, o sonho de adquirir um barco para velejar em alguns feriados, e a tradicional maneira de se viver da working class inglesa se transformam, para os dois jovens irmãos, no início de uma viagem moderna capitalista. A partir do barco os dois percebem que podem ...

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias - Cristian Mungiu

Em pleno debate completamente alheio à sociedade, com mobilizações tanto que beiram ao feminismo de um lado, à insanidade religiosa do outro, o tema "aborto" deixa a população brasileira sem saber o que dizer à respeito da ciência e da gênese gnosiológica. Só pra constar: este não é o tema do filme de Cristian Mungiu. O tema seria algo como "o atraso mental" de certos posicionamentos políticos. Afinal, ser a favor ou contra o aborto é um posicionamento político. Hoje muito mais, no mundo globalizado. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias evidencia o que é para a mulher comum lidar com o aborto. Nada mais que hipocrisia considerar que, tanto as drogas quanto o aborto são passíveis de crime. Ambos são usados pela sociedade, e ambos são auto-dilacerações, suicídio (num uso extremo). O caso do aborto quer impôr à discussão a vida que haveria no feto, ou mesmo no embrião. O engraçado é que ninguém se pergunta sobre a vida de animais que se comem à mesa - seria um assassinato difer...

Por que tanto Glauber?

Há de se considerar que ninguém mais aguenta ouvir o nome de Glauber como um marco no cinema brasileiro - e não saber o porquê de ele ser esse marco. Em qualquer lugar que haja um cinéfilo com olhos arregalados querendo saber das novidades do mercado de entretenimento, o nome de Glauber Rocha (tão repetido aqui neste blog que vos serve) é algo datado, se não ultrapassado, velho, antigo, sem referencial atual. Dá até pra concordar a respeito da não atualidade. Mas que tipo de atualidade é que se imagina nessa tentativa de representação cinematográfica contemporânea? Glauber é nicho de pesquisa sobre o audiovisual latinoamericano. Ele, dito abaixo no texto de Guerra Conjugal, foi como Oswald de Andrade ao dissecar a linguagem poética. E, se estes dois ficam em seu tempo, é muito porque a poesia hoje não faz mais muito sentido - o pragmatismo da imagem útil toma a dianteira da paleta de planos. Glauber Rocha desimagina o que se imaginou até sua presença no meio visual, e re-edita o início...

Guerra Conjugal - Joaquim Pedro de Andrade - 1975

Joaquim Pedro teve sempre que ser muito tímido para que sua imposição artística não tivesse presença autoral , como no amigo que ele sempre admirou, Glauber. Em uma comédia de costumes da classe média brasileira, só reatando as pazes com Nelson Rodrigues, mas ao jeito de Dalton Trevisan - exagerando no pessimismo, domesticando os planos em uma falta de sincronia entre o mundo velho e o mundo novo. Não só Joaquim Pedro seguiu, trilhou, abriu esse caminho no cinema novo, mas principalmente Arnaldo Jabôr, onde o drama de costumes chegou a seu ápice em uma agudez sátira. A briga é com o uso do melodrama com fins absolutos de mercado, e com o sentimento carioca meio bobo, de que há romantismo de folhetim em vida. O brega forte desse popular exagerado demonstra o que o avanço econômico nos proporciona, na mídia. Nesse ambiente de cultura de massa dominante surge o filme Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. A mediocridade e decadência chegam a doer de tanta verossimilhança, nesse filme. É um re...

Porto das Caixas - Paulo César Saraceni - 1962

Junte os seguintes nomes: fotografia de Mário Carneiro, trilha sonora de Antônio Carlos Jobim, roteiro adaptado de Lúcio Cardoso, atuação de Reginaldo Farias, direção de Paulo César Saraceni. Será que a obra poderia sair razoável, com tanto peso junto? Sim - saiu. Talvez porque Saraceni ainda não tinha a habilidade necessária para contradizer a linha do cinema traidicional no Brasil. São falsos raccords e quebras de eixo em demasia, são notas repetidas demais do Tom, ao passo que são fotografias lindíssimas de Mário - não se via tanta beleza até então no cinema brasileiro. Inclusive, nem se podia saber quanta beleza tinha esses dramas brasileiros. Lembra, também, Sven Nykvist, o segundo diretor dos filmes de Bergman. Mas o filme sinceramente deixa a desejar em seu ritmo monótono, sem maiores surpresas. Uma moça do interior, mora na casa de um marido rude, e procura, através de seu charme, sedução, um rapaz para matá-lo. Ela tem discussões que parecem não querer acabar com este marido -...

Jogo de Cena - Eduardo Coutinho - 2007

Essa é a proposta do cinema contemporâneo - pelo menos daqueles que vão mais à frente: dedicar-se ao questionamento do que se diz ser a realidade, e a invenção. Problemas psicanalíticos, imaginários, públicos ou privados à parte, o que Eduardo Coutinho vem fazendo nos seus últimos filmes é algo que ultrapassa esses dilemas. Isso porque, como sabemos, o diretor desaba em discussões éticas em documentários. É melhor dizer que ele faz filmes, e não documentários, portanto. Muito mais agora, que suas "regras" foram quebradas. "Nunca montar de maneira ilusória; não colocarás voz over em cenas distintas; nunca inventará ficções para enganar o público - não sejeis Michael Moore!" Coutinho crítico da invenção, da imaginação no filme agora cria. Mas suas crias, suas criações ficam, ainda, na captação do momento. Ele quer, no fundo, deixar toda a discussão um pouco de lado, e aproveitar o ensejo de atrizes contratadas para tentar captar melhor aquilo que sempre tentou gravar....

Annie Hall - Noivo neurótico, noiva nervosa - Woody Allen - 1977

O problema que Woody Allen tem ao não conseguir distinguir a realidade da ficção, algo que Brecht, se estivesse vivo, elogiaria, é o que faz uma grande parcela da platéia no cinema deixar de querer assistir aos dramas existenciais bergmanianos do diretor judeu novaiorquino. Mas a coisa é que esse problema é a chave de Allen - se não dá pra aceitar esse contrato, deixe ele de lado mesmo. A distância entre o que é contado e o que é visto é manifesto em Annie Hall. Essa distância começa logo quando ele, o diretor, também personagem no filme com o nome de Alvy Singer, surge no início da película contando sua história de vida no Brooklyn. Antes mesmo de conhecer Diane Keaton, aquela que seria o grande amor da história. Ele conta, narra, mas participa da trama - a distância serve ao humor, e a polêmica da alienação da imagem do espectador pelo cinema fica pra um plano mais inconsciente. Allen é Alvy, e o contrário pode ser também. O personagem, ou a vida do comediante ficcional, é confundi...