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Spike Jonze e Sofia Coppola - casados, e juntos na esquisitice indie

Mas que tipo de cinema esquisito é esse - diz um mais alerta a respeito do que se vê em Jonze. Mas que tipo de cinema é esse tão parecido com publicidade, dizem os mais atentos. O problema em se categorizar hoje o cinema feito pelos mais independentes nos Estados Unidos é que não há fruição solta espectatorial que consiga abarcar qualquer tipo de alucinação enquadrada. Enquadra-se não só na janela do audiovisual, mas na janela da percepção cultural do mundo, perfeitamente moldada e esquematizada pelo cinema da América do Norte. Agora, temos que concordar que esse laço pop é mais europeu - mais convincetemente revolucionário e sujo, como algo que saía da França de 68, 69, 70... A subversão completa já passou, mas seus resquícios ficam, por exemplo, na família Coppola, ou na ousadia do wierd Jonze. Óbvio que damos créditos ao roteiro de Kaufman (que tem nome de Vertov), mas as escolhas e os cenários de Jonze são surreais ao extremo convincente. Aquele surrealismo que um dia chegou ao inc...

O choro de Renato Aragão

Renato Aragão foi, sem dúvidas, um dos personagens que tomou conta da imaginação brasileira. Ele apareceu muito na TV, e fez dezenas de filmes, que divertiram não só os instintos juvenis, mas também platéias de adultos e adolescentes. Ele era o nordestino do quarteto brasileiro trapalhão. Talvez pela sua comicidade “faca no bucho”, aquela seriedade sertaneja que faz rir de tão violenta, ele tenha conseguido chegar onde está. Conseguiu, como Chico Anísio, ser um dos cultuados comediantes de nossos tempos. Mas o que terá acontecido com aquela força que víamos no líder dos Trapalhões? Será que ele só envelheceu e perdeu o costume de liderar, ou de criticar os seus pares com a tal “faca no bucho”? Esse envelhecimento do personagem trapalhão incomoda a muitos nos domingos. Mas não é esse o fato que esse texto aqui tenta trazer à tona. O fato é que Renato Aragão, o suporte do personagem trapalhão, é hoje um grande empresário do meio midiático, e o senhor que possui um contato direto com a ...

Woody Allen - O Sonho de Cassandra - 2007

- A profecia de Cassandra - Allen tem, nessa nova fase de produções na Grã-betanha, partido pra uma linha mais irônica que a normal. Mais trágica, também. É aquela citação constante em suas obras mais “pretensiosas”, mais cults, como A última noite de Boris Kuschensko, citando o realismo literário russo, ou A poderosa Afrodite, citando o teatro antigo da Grécia – sempre dentro do gênero da comédia, onde ele se iniciou, e onde ele domina sua maneira de trabalhar fazendo cinema. Agora ele vai até Shakespeare, autor como Machado de Assis, na Inglaterra. Mas de Dostoiévsky a Shakespeare, a jornada não é tão longa quanto parece. E é nessa junção que a ironia de Woody Allen tem se confirmado. Neste seu último filme, Cassandra’s Dream, o sonho de adquirir um barco para velejar em alguns feriados, e a tradicional maneira de se viver da working class inglesa se transformam, para os dois jovens irmãos, no início de uma viagem moderna capitalista. A partir do barco os dois percebem que podem ...

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias - Cristian Mungiu

Em pleno debate completamente alheio à sociedade, com mobilizações tanto que beiram ao feminismo de um lado, à insanidade religiosa do outro, o tema "aborto" deixa a população brasileira sem saber o que dizer à respeito da ciência e da gênese gnosiológica. Só pra constar: este não é o tema do filme de Cristian Mungiu. O tema seria algo como "o atraso mental" de certos posicionamentos políticos. Afinal, ser a favor ou contra o aborto é um posicionamento político. Hoje muito mais, no mundo globalizado. 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias evidencia o que é para a mulher comum lidar com o aborto. Nada mais que hipocrisia considerar que, tanto as drogas quanto o aborto são passíveis de crime. Ambos são usados pela sociedade, e ambos são auto-dilacerações, suicídio (num uso extremo). O caso do aborto quer impôr à discussão a vida que haveria no feto, ou mesmo no embrião. O engraçado é que ninguém se pergunta sobre a vida de animais que se comem à mesa - seria um assassinato difer...

Por que tanto Glauber?

Há de se considerar que ninguém mais aguenta ouvir o nome de Glauber como um marco no cinema brasileiro - e não saber o porquê de ele ser esse marco. Em qualquer lugar que haja um cinéfilo com olhos arregalados querendo saber das novidades do mercado de entretenimento, o nome de Glauber Rocha (tão repetido aqui neste blog que vos serve) é algo datado, se não ultrapassado, velho, antigo, sem referencial atual. Dá até pra concordar a respeito da não atualidade. Mas que tipo de atualidade é que se imagina nessa tentativa de representação cinematográfica contemporânea? Glauber é nicho de pesquisa sobre o audiovisual latinoamericano. Ele, dito abaixo no texto de Guerra Conjugal, foi como Oswald de Andrade ao dissecar a linguagem poética. E, se estes dois ficam em seu tempo, é muito porque a poesia hoje não faz mais muito sentido - o pragmatismo da imagem útil toma a dianteira da paleta de planos. Glauber Rocha desimagina o que se imaginou até sua presença no meio visual, e re-edita o início...

Guerra Conjugal - Joaquim Pedro de Andrade - 1975

Joaquim Pedro teve sempre que ser muito tímido para que sua imposição artística não tivesse presença autoral , como no amigo que ele sempre admirou, Glauber. Em uma comédia de costumes da classe média brasileira, só reatando as pazes com Nelson Rodrigues, mas ao jeito de Dalton Trevisan - exagerando no pessimismo, domesticando os planos em uma falta de sincronia entre o mundo velho e o mundo novo. Não só Joaquim Pedro seguiu, trilhou, abriu esse caminho no cinema novo, mas principalmente Arnaldo Jabôr, onde o drama de costumes chegou a seu ápice em uma agudez sátira. A briga é com o uso do melodrama com fins absolutos de mercado, e com o sentimento carioca meio bobo, de que há romantismo de folhetim em vida. O brega forte desse popular exagerado demonstra o que o avanço econômico nos proporciona, na mídia. Nesse ambiente de cultura de massa dominante surge o filme Guerra Conjugal, de Joaquim Pedro. A mediocridade e decadência chegam a doer de tanta verossimilhança, nesse filme. É um re...

Porto das Caixas - Paulo César Saraceni - 1962

Junte os seguintes nomes: fotografia de Mário Carneiro, trilha sonora de Antônio Carlos Jobim, roteiro adaptado de Lúcio Cardoso, atuação de Reginaldo Farias, direção de Paulo César Saraceni. Será que a obra poderia sair razoável, com tanto peso junto? Sim - saiu. Talvez porque Saraceni ainda não tinha a habilidade necessária para contradizer a linha do cinema traidicional no Brasil. São falsos raccords e quebras de eixo em demasia, são notas repetidas demais do Tom, ao passo que são fotografias lindíssimas de Mário - não se via tanta beleza até então no cinema brasileiro. Inclusive, nem se podia saber quanta beleza tinha esses dramas brasileiros. Lembra, também, Sven Nykvist, o segundo diretor dos filmes de Bergman. Mas o filme sinceramente deixa a desejar em seu ritmo monótono, sem maiores surpresas. Uma moça do interior, mora na casa de um marido rude, e procura, através de seu charme, sedução, um rapaz para matá-lo. Ela tem discussões que parecem não querer acabar com este marido -...