Adaptação
o filme que fez a arte mexer suas pálpebras no túmulo
um filme de Spike Jonzie
roteiro de C. Kaufman

Houve aqueles que não sabiam mesmo quem era nem Charlie, nem muito menos Donald Kaufman, mas que mesmo assim sorriram no filme. Ou seja: mesmo que o filme não tenha sido por inteiro codificado (e nunca o será) há o que se retirar seja da trama, ou da imagem, ou do som, ou do tão celebrado ator que aparece nos pôsteres.
No caso desse filme nós presenciamos uma inteira atenção ao roteiro do então personagem. Tão personagem que o vemos no set de filmagem de outro filme que roteirizou. Kaufman se coloca no filme realmente? Ele é mesmo aquele gordo careca que se masturba com fotos de orelhas de livros? A questão, na realidade (mesmo) não é essa.
Não sabemos se o filme é um roteiro que está sendo construído ou se tudo não passa de ficção. Outras perguntas: Kaufman tinha mesmo um livro para adaptar? Susie existe? Laroche? Mesmo que não tenhamos respostas, sabemos o que ele quis fazer com aquele filme. Ele sabe sim a que veio:
Um filme sobre um roteiro que fala de um roteiro não acabado que é sobre um roteiro não acabado e assim vai. As questões existenciais não ficam somente na trama ou na narração- o roteirista não é mais somente o encarregado de manipular o público sentimentalmente, seja com fórmulas já pré-fabricadas ou pela sua divina, maestral ou genial inspiração. O roteirista não é mais aquele que de uma maneira escondida o faz chorar, ou ficar irritado com uma narrativa dramática. A ironia está presente no filme desde que vemos a tela preta do seu início.
Quando Charlie, em sua profunda crise existencial promete não se vender- não aceita nem mesmo que seu “irmão” pronuncie a palavra "indústria"- ou se regrar ele demonstra querer fazer aquilo que antigamente se falava sobre coisas originais. Um filme sobre uma flor, a Orquídea, sobre um livro reportagem de uma escritora jornalista- é somente essa a sua simples intenção. A dificuldade, ou a impossibilidade é transparecida, e o espectador é conduzido a achar que a trama é justamente essa. E pode ser. O problema é o outro viés, que por sinal me parece muito mais interessante apesar de complicado. Seria um discurso do roteirista, um filme não ficcional, um amontoado de lamúrias “Woodyallenianas” sobre seu ser. Desde o início com os cortes da suposta descrição do ambiente da “real” trama com os personagens do livro, o filme nos leva a crer que ele não foi feito: ele não foi acabado, ele estava sendo construído diante de nossos olhos. Como o tal personagem gordo e careca mesmo nos diz durante a trama superficial. Já na mais complexa, assistimos a um roteiro entrecortado por lamentações subjetivas que nada têm a ver com nenhum filme jamais feito, e isso também vale para qualquer filme do W. Allen. Ou seja: se o que ele diz no filme fosse realmente verdade (e a trama complexa nos leva a acreditar nisso) estaríamos assistindo a um roteiro caseiro, que qualquer um blogueiro aqui da internet poderia fazer- mas não faz, e, por isso, retiro o que disse: não poderia.
Já no meio da narração Charlie começa a escrever o roteiro que já assistimos: o da evolução das espécies, o da van velha de Laroche, etc. Dentro da construção deste roteiro existe o real roteiro, o que vemos a deslumbrante (não acho nenhum outro adjetivo que não seja clichê) a brilhante (viu?) Meryl Strip e o não menos importante Chris Cooper. Eles são o filme, não o Kaufman. Mas, entretanto, o filme é com Nicholas Cage- que interpreta os Kaufman. O “não se saber qual é o filme” logo é tirado de nossa percepção tão esfaqueada por Jonzie e Kaufman.
Tendo em consideração a grande aceitabilidade do roteiro de The Three, de seu irmão gêmeo Donald, o que freqüentava uma das aulas de roteiro onde realmente se aprende como fazer o espectador ficar até o final do filme, Charlie entra em contradição consigo mesmo. Ele começa a assistir às aulas de Robert Mckee, um velho cheio de auto estima, tudo o que Charlie poderia querer para conseguir terminar a adaptação. Ele conversa com Mckee que lhe fala coisas importantes. Em New York ele chama seu irmão já conceituado na indústria cinematográfica para ajudá-lo. Então, Donald, o irmão gêmeo de Charlie que sempre o atrapalhava nos seus momentos de concentração no roteiro original que vinha tentando fazer o ajuda a terminar a adaptação, já que aquilo que ele vinha fazendo até então não era um filme (de acordo como próprio Mckee).
O que presenciamos a partir desse momento é tudo o que Charlie não queria para sua adaptação. Mas ele cede.
A flor vira uma droga rara que faz de Laroche (o Chris Cooper sem os dentes da frente um traficante); Susie é encaixada como amante viciada de Laroche; e, finalmente, os dois irmãos (que agora são mesmo personagens da trama) descobrem toda a estrutura da vendagem e armazenamento das Orquídeas. A perseguição é iniciada. A música não diegética cria o clima. Os Irmãos fogem para sobreviver, enquanto o casal vilão atira para matar. Para poucos, os que viram o roteiro complexo, talvez, o filme se demonstra como comédia. Talvez eu esteja subestimando a percepção do público, mas Charlie mesmo subestima.
Donald morre numa cena "impressionante", como a indústria gosta. Laroche em outra muito mais "espantosa". O desfecho da trama é puramente americano. O filme é um filme americano, a propósito. A adaptação foi terminada nos moldes de The Three, e o pragmatismo vence toda e qualquer iniciativa original de se comunicar uma narrativa. De um lado sim, o da visão superficial. De outro ele é totalmente dilacerado, como o protagonista de The Three faz com suas vítimas.
Está posta a questão, ou as questões, se preferirem. Já esperamos o próximo filme em que Kaufman e Jonzie estarão juntos, como alguns já esperaram depois de Quero ser John Malkovich. Mas e o resto? E a influência? E a continuação do destroçamento da narrativa de ação americana? Esperemos pra ver. Muitos dos "anglo-brasileiros" (nossos pseudo-americanos ou ingleses) não viram.
o filme que fez a arte mexer suas pálpebras no túmulo
um filme de Spike Jonzie
roteiro de C. Kaufman

Houve aqueles que não sabiam mesmo quem era nem Charlie, nem muito menos Donald Kaufman, mas que mesmo assim sorriram no filme. Ou seja: mesmo que o filme não tenha sido por inteiro codificado (e nunca o será) há o que se retirar seja da trama, ou da imagem, ou do som, ou do tão celebrado ator que aparece nos pôsteres.
No caso desse filme nós presenciamos uma inteira atenção ao roteiro do então personagem. Tão personagem que o vemos no set de filmagem de outro filme que roteirizou. Kaufman se coloca no filme realmente? Ele é mesmo aquele gordo careca que se masturba com fotos de orelhas de livros? A questão, na realidade (mesmo) não é essa.
Não sabemos se o filme é um roteiro que está sendo construído ou se tudo não passa de ficção. Outras perguntas: Kaufman tinha mesmo um livro para adaptar? Susie existe? Laroche? Mesmo que não tenhamos respostas, sabemos o que ele quis fazer com aquele filme. Ele sabe sim a que veio:
Um filme sobre um roteiro que fala de um roteiro não acabado que é sobre um roteiro não acabado e assim vai. As questões existenciais não ficam somente na trama ou na narração- o roteirista não é mais somente o encarregado de manipular o público sentimentalmente, seja com fórmulas já pré-fabricadas ou pela sua divina, maestral ou genial inspiração. O roteirista não é mais aquele que de uma maneira escondida o faz chorar, ou ficar irritado com uma narrativa dramática. A ironia está presente no filme desde que vemos a tela preta do seu início.
Quando Charlie, em sua profunda crise existencial promete não se vender- não aceita nem mesmo que seu “irmão” pronuncie a palavra "indústria"- ou se regrar ele demonstra querer fazer aquilo que antigamente se falava sobre coisas originais. Um filme sobre uma flor, a Orquídea, sobre um livro reportagem de uma escritora jornalista- é somente essa a sua simples intenção. A dificuldade, ou a impossibilidade é transparecida, e o espectador é conduzido a achar que a trama é justamente essa. E pode ser. O problema é o outro viés, que por sinal me parece muito mais interessante apesar de complicado. Seria um discurso do roteirista, um filme não ficcional, um amontoado de lamúrias “Woodyallenianas” sobre seu ser. Desde o início com os cortes da suposta descrição do ambiente da “real” trama com os personagens do livro, o filme nos leva a crer que ele não foi feito: ele não foi acabado, ele estava sendo construído diante de nossos olhos. Como o tal personagem gordo e careca mesmo nos diz durante a trama superficial. Já na mais complexa, assistimos a um roteiro entrecortado por lamentações subjetivas que nada têm a ver com nenhum filme jamais feito, e isso também vale para qualquer filme do W. Allen. Ou seja: se o que ele diz no filme fosse realmente verdade (e a trama complexa nos leva a acreditar nisso) estaríamos assistindo a um roteiro caseiro, que qualquer um blogueiro aqui da internet poderia fazer- mas não faz, e, por isso, retiro o que disse: não poderia.
Já no meio da narração Charlie começa a escrever o roteiro que já assistimos: o da evolução das espécies, o da van velha de Laroche, etc. Dentro da construção deste roteiro existe o real roteiro, o que vemos a deslumbrante (não acho nenhum outro adjetivo que não seja clichê) a brilhante (viu?) Meryl Strip e o não menos importante Chris Cooper. Eles são o filme, não o Kaufman. Mas, entretanto, o filme é com Nicholas Cage- que interpreta os Kaufman. O “não se saber qual é o filme” logo é tirado de nossa percepção tão esfaqueada por Jonzie e Kaufman.
Tendo em consideração a grande aceitabilidade do roteiro de The Three, de seu irmão gêmeo Donald, o que freqüentava uma das aulas de roteiro onde realmente se aprende como fazer o espectador ficar até o final do filme, Charlie entra em contradição consigo mesmo. Ele começa a assistir às aulas de Robert Mckee, um velho cheio de auto estima, tudo o que Charlie poderia querer para conseguir terminar a adaptação. Ele conversa com Mckee que lhe fala coisas importantes. Em New York ele chama seu irmão já conceituado na indústria cinematográfica para ajudá-lo. Então, Donald, o irmão gêmeo de Charlie que sempre o atrapalhava nos seus momentos de concentração no roteiro original que vinha tentando fazer o ajuda a terminar a adaptação, já que aquilo que ele vinha fazendo até então não era um filme (de acordo como próprio Mckee).
O que presenciamos a partir desse momento é tudo o que Charlie não queria para sua adaptação. Mas ele cede.
A flor vira uma droga rara que faz de Laroche (o Chris Cooper sem os dentes da frente um traficante); Susie é encaixada como amante viciada de Laroche; e, finalmente, os dois irmãos (que agora são mesmo personagens da trama) descobrem toda a estrutura da vendagem e armazenamento das Orquídeas. A perseguição é iniciada. A música não diegética cria o clima. Os Irmãos fogem para sobreviver, enquanto o casal vilão atira para matar. Para poucos, os que viram o roteiro complexo, talvez, o filme se demonstra como comédia. Talvez eu esteja subestimando a percepção do público, mas Charlie mesmo subestima.
Donald morre numa cena "impressionante", como a indústria gosta. Laroche em outra muito mais "espantosa". O desfecho da trama é puramente americano. O filme é um filme americano, a propósito. A adaptação foi terminada nos moldes de The Three, e o pragmatismo vence toda e qualquer iniciativa original de se comunicar uma narrativa. De um lado sim, o da visão superficial. De outro ele é totalmente dilacerado, como o protagonista de The Three faz com suas vítimas.
Está posta a questão, ou as questões, se preferirem. Já esperamos o próximo filme em que Kaufman e Jonzie estarão juntos, como alguns já esperaram depois de Quero ser John Malkovich. Mas e o resto? E a influência? E a continuação do destroçamento da narrativa de ação americana? Esperemos pra ver. Muitos dos "anglo-brasileiros" (nossos pseudo-americanos ou ingleses) não viram.
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