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Mostrando postagens com o rótulo Filosofia

Alga Doce - Andrej Wajda

O misto de um gênero documentário com a ficção vem de muito tempo - e se renova mais a cada dia. Mas muito tempo mesmo, já que o teatro é, quase em sua essência, essa mistura. Se a realidade influencia na ficção do ecrã, tal como um dia o teatro influenciou, então cinema e teatro não possuem distinções claras. Um erro pensar assim. Cinema é uma história, mas também uma História. O espectador de cinema é como o de TV, só que mais atento, afinal pagou para perder aproximadamente 2 horas de sua vida na frente de um telão. Lá naquele buraco, naquela caverna escura, o espectador visualiza um mundo presente, levado pela narrativa e pela crença fundamental de que o que ele assiste ali se passa como se estivesse passando pela primeira vez. O "ao vivo" da TV surge com essa credibilidade que tem a impressão de realidade. Alga Doce, último filme de Andrej Wadja, mistura realidade e realidade criada. Mas o misto é sem problematizações maiores. Ali, quem assiste pensa: estou vendo um film...

Anthropophagie c´est cinema brasileiro?

Gravura tirada do livro de Hans Staden : Warhaftig Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Seria a antropofagia uma zombaria do homem que viria da cultura de cavalaria? Poderia ser. Como Darcy Ribeiro diria - o índio é um zombador. Se assim a gente concorda, pelo menos nisso, a antropofagia que Oswald teria inventado de uma cultura antiga brasileira, ou, pré-brasileira, a suposta convicção de que essa cultura seria a única forte - neste ambiente de melancolia e tristeza que quer virar Portugal, um imenso Portugal, um Império Colonial... Se assim foi, o cinema a partir do início da década de 70 teve essa "nova revisão crítica". Mais postagens virão a respeito dessa "força" antropofágica.

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Nova bela época 3

Como se entender, então, como persona atuante dentro desse novo mundo? É por isso que a fotografia é tão importante. Os noticiários e a verdade moderna possuem seu início com a fotografia. Nestes textos sobre a nova bela época ela não aparece por esse motivo - sua importância em diluir qualquer idéia em imagem - e qualquer pensamento em sentimento superficial e... publicitário . O jornalista mais engajado tem essa mentalidade publicitária. Então, a persona fotografada tem aquele gestual próprio de um participante do programa Big Brother. O mundo é público, após a fotografia.  Quando você lê aqui a FOTOGRAFIA, leia-se também a FOTOGRAFIA EM MOVIMENTO. (a caixa alta é para deixar tudo bem claro) A nova bela época do consumismo desenfreado, sem inflações, mas sem tanta criatividade para as "novidades" do "novo" mundo, é a "nova" bela época antiga, e muito parecida com muitas outras que surgiram na história do que antigamente se chamava de humanidade.

Nouvelle Belle Époque 2

O que irrita mais as complicações contemporâneas é a ilusão de uma democracia de fato. Como você pode ver, esse texto continua o texto anterior, na tentativa de propor uma observação de um novo milênio que se inicia, e de um papel transformador que o ser humano, hoje já sem sua força humanista, possui dentro dessa democracia impulsionada por um bem estar social globalizado. O problema maior dessa irritação de fim de século, e de milênio, é que , dentro da perspectiva temporal do século, estamos no surto de um mundo livre. E, sobretudo, dentro de uma perspectiva de fim de milênio, ainda estamos no pós guerras - ou pós ecatombes. Pensemos o seguinte, car@ leitor (a) desavisad@ e distraíd@: nunca houve tamanha destruição após a segunda grande guerra mundial. E de lá saiu a grande potência atômica e econômica que é os EUA. Todos os planos de reconstrução da europa, como o plano Marshal, a OTAN, a criação do FMI - tudo teve seu início no pós guerra, e na finalização do facismo. E as ideolog...

La nouvelle belle époque - o terceiro milênio e seus prováveis "desdobramentos"

Início do século passado tudo ia bem. Tudo estava no mais completo sincronismo, as músicas eram todas no ritmo da sociedade modernizada, as pessoas andavam na multidão entre as ruas como flâneurs, e a sociedade ocidentalizada regrava o mercado que viria dar lições ao mundo de como se portar diante de uma transação entre pessoas - as relações tornavam-se espetacularizadas, principalmente quando a câmera fotográfica fora criada. A foto dava aos sujeitos fotografados o status de persona non grata no mundo que sempre existiu. Um dilema ético, já que, após as fotos, nem todos são agora os mesmos que sempre foram. Mais que o espelho lacaniano, a fotografia mostraria o ser que nunca se viu - numa perspectiva que nunca havia se visto. O mundo da nova época era o da industrialização e , por conseguinte, o da observação de uma arte completamente diferenciada da clássica.  Víamos um mundo moderno, e, ao mesmo tempo, naquela usurpação antiga de um velho mundo em busca dos ouros dos "novos mun...
Da imaginação  Nenhum homem duvida da verdade da seguinte afirmação: quando uma coisa está imóvel, permanecerá imóvel para sempre, a menos que algo a agite. Mas não é tão fácil aceitar esta outra, que quando uma coisa está em movimento, permanecerá eternamente em movimento, a menos que algo a pare, muito embora a razão seja a mesma, a saber, que nada pode mudar por si só. Porque os homens avaliam, não apenas os outros homens, mas todas as outras coisas, por si mesmos, e, porque depois do movimento se acham sujeitos à dor e ao cansaço, pensam que todo o resto se cansa do movimento e procura naturalmente o repouso, sem meditarem se não consiste em qualquer outro movimento esse desejo de repouso que encontram em si próprios. Daí se segue que as escolas afirmam que os corpos pesados caem para baixo por falta de um desejo para o repouso, e para conservação da sua natureza naquele lugar que é mais adequado para eles, atribuindo, de maneira absurda, a coisas inanimadas o desejo e o conhecimen...
NADA DE REVOLUÇÃO III Depois da revolução? Aqui estamos. Esse depois se define como o momento em que a revolução é nomeada apenas no passado. O que acontecerá e modificará o mundo não acontecerá mais da mesma forma que antes. Nós  viemos depois daquilo que tinha lugar na revolução. No centro, a implosão do gigante soviético. Havíamos lido Alxandre Zinoviev, mas também Mandelstam e Akhmatova. Sem falar de Eisenstein e Vertov, sacrificados ao Império , nem de Barnett nem de Koulechovo, Meyerhold, Babel, Maiakóvski, Khlebnikov, Bakhtin, Chlovski, Tynianv, Eikhenbaum, Propp... Esses, não os perdíamos de vista. A queda da casa vermelha não era, para nós, nem o desaparecimento da Rússia nem o do comunismo. Ainda digo “nós”, essa palavra que me dói. Mas o muro derrubado perturba, a bem dizer, a Europa mais do que a ex-União Soviética. Como Paisá ou Alemanha Ano Zero (Roberto Rossellini) marcaram o surgimento do cinema moderno nas ruínas da Europa destruída pela guerra, um filme marca essa ...
NADA DE REVOLUÇÃO II Oscar Niemeyer na Folha de S. Paulo escreve uma apologia ao velho Stálin - o conhecido burocrata que mostrou os novos caminhos de um comunismo fora de órbita, e anti-trotskista. Seria o verdadeiro sentido da revolução socialista, o levante stalinista em busca do desenvolvimento soviético? Há muito se discute a presença desse comunismo tradicionalista e tacanho na esquerda brasileira. Mas há pouco esse assunto parece algo descabido. A presença do capitalismo de estado, tal como talvez um Kurz teria dado mais asas à imaginação do arquiteto, caso este percebesse que a fraqueza maior da União Soviética foi a industrialização aos moldes capitalistas no regime chamado comunista. Pouco importa o posicionamento político de Niemeyer em sua obra? Sim - pouco importa. Afinal, o seu modernismo barroco futurista, quase pós-moderno antes mesmo dessa palavra pensar em aparecer, nos eleva ao degrau de país que dita cultura por onde aparece. No entanto, política mesmo, fica lá no ...

Dança da guerra

Mas quem disse que os negros vinham aqui submissos? a cultura negra era forte, e, de certa forma, tem ainda hoje uma parcela da hegemonia simbólica nacional. A festa é clara. Do lado esquerdo, um se veste de colonizador com uma conhecida cartola. A dança era esquisita, e resistente - era na verdade uma luta encoberta pela festividade. Coisa comum no Brasil cordial. Melhor não mostrar pra não ter briga de fato. Melhor brigar de outra maneira.

A MORTE de uma anarquia

Há pouco tempo eu ficava irritadíssimo (sim, esse blog também tem textos em primeira pessoa, mas nada, absolutamente nada indica que sejam mais verossimilhantes ou verdadeiros que os textos escritos na distante voz da terceira pessoa)... voltemos - eu ficava irritadíssimo com a idéia de novas bandas encarando o processo artístico de criação como um trabalho. Era um resquício da visão romântica que, na frente com a banda Nirvana, muita gente acabou concordando. É só ver o In Utero ( último disco da banda) pra sacar como tudo era, em outra década de 90 não consumista. Mas Kurt Cobain morreu com um tiro de espingarda e completamente dopado de heroína. Não quero dizer que ele sirva de lição para que, hoje, nós comecemos a ter outra visão do trabalho artístico, ou mesmo do meio artístico. Mas onde pode dar o radicalismo desenfr eado, noiado e insano do rock n´roll adolescente. Não que a adolescência seja o lugar de impostores, ou de falsos revolucionários... Mas é o lugar de uma anarquia h...

O choro de Renato Aragão

Renato Aragão foi, sem dúvidas, um dos personagens que tomou conta da imaginação brasileira. Ele apareceu muito na TV, e fez dezenas de filmes, que divertiram não só os instintos juvenis, mas também platéias de adultos e adolescentes. Ele era o nordestino do quarteto brasileiro trapalhão. Talvez pela sua comicidade “faca no bucho”, aquela seriedade sertaneja que faz rir de tão violenta, ele tenha conseguido chegar onde está. Conseguiu, como Chico Anísio, ser um dos cultuados comediantes de nossos tempos. Mas o que terá acontecido com aquela força que víamos no líder dos Trapalhões? Será que ele só envelheceu e perdeu o costume de liderar, ou de criticar os seus pares com a tal “faca no bucho”? Esse envelhecimento do personagem trapalhão incomoda a muitos nos domingos. Mas não é esse o fato que esse texto aqui tenta trazer à tona. O fato é que Renato Aragão, o suporte do personagem trapalhão, é hoje um grande empresário do meio midiático, e o senhor que possui um contato direto com a ...

Àqueles que adoram Wittgenstein

Este filósofo, desculpem-me vocês que o adoram, era contra a liberdade de criação. O pensamento dele nasceu na science e morreu nela, apesar de ter se nivelado à linguagem mais popular. A genialidade dele, aliás, foi de ter conseguido tirar o sacerdócio de cientistas-filósofos que sabiam de tudo - toda a história da filosofia, e todas as formas de se pensar. No entanto, convenhamos, Wittgenstein se guia por esquemas, formas, modelos. Certo é que todo o pensamento como conhecemos é estruturado dessa maneira - mas ele não é criado assim. A criação ultrapassa as retas e grades de regras ou regimentos filosóficos. As normas, mesmo sendo linguísticamente postas à prova mediante proposições, elas são esquemas dentro de grades e muros do saber. Conhecimento pode sim ser palpável através de exemplos e imagens. Não somente simbólicas, como sempre se falou, mas também alegóricas. A mímese ainda existe mesmo em dissertações, declarações, discursos. As imagens provocam pensamentos novos. Criaçõe...

De como Judas é importante na constituição de uma narração testamental

JUDAS - Pra quem tem como arquétipo ser Cristo, ou ter Jesus como parâmetro de um ser humano bondoso que quer dar ao mundo um princípio, ou princípios que não estão atrelados ao dinheiro ou à trocas abstratas, como o capital. Judas seria um traidor porque virou o rosto para Jesus, também, já depois de tê-lo caguetado. Nos morros e periferias o Judas, caguete, é aquele que tem proximidade com a polícia. Há códigos de conduta bastante profundos no crime organizado, ou no crime desorganizado como o é em grande parte dos casos. Aquele Miguel que dedura todos os participantes da organização é o maior dos traidores na linhagem humana - e não é visto como herói nem mesmo pela polícia depois. Se ele não ganha nada, nem de um lado nem do outro, contando ao Estado onde estão e quem são os contraventores, porque ele ainda faz isso? Medo? Isso - Judas é um medroso. Ele vira o rosto porque não quer olhar para aquilo que ele mesmo criou - a situação nova proporcionada por um ato seu. Ele não quer m...