


Manuel Castells chega a nos contar, a nós latino americanos, que somos praticamente a razão de grande parte de crimes que acontecem nos EUA. A perspectiva desse autor é clara - a da globalização, e de uma possibilidade de interação pacífica entre as mais diferenciadas nações. Perspectiva, portanto, representativa - fora do âmbito de discussões no campo da cultura. Isso porque, se este autor tivesse entrado no campo das discussões de costumes, de habitos, vícios, posturas e visões, teria percebido que o Narcotráfico que é estruturado como um sub-mercado é, na verdade, uma reminiscência de períodos fascistas que houveram em grande parte da América do Sul - quando não financiados, observados com entusiasmo pelos EUA.
No prefácio de “Para Além do Bem e do Mal”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada.
Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre apolíneo forte e beligerante - e o feminino dionisíaco; toda a brincadeira desse ditirambo era uma tentativa clara de revisão do sujeito que manda no saber – o sujeito falocêntrico, já na linguagem psicanalítica, de um Deus Pai (e não mãe).
Continuando essa introdução, damos a volta na mesa de estudos e encaramos mais uma vez essa natureza que parece ser demoníaca. O filme de Lars Von Trier, que talvez chegue como sua tese principal, é, no cinema atual, um revigorante tanto de uma arte nas telas, mas também como um questionador dos parâmetros atuais de produção e tematização em obras. O que nos deixa abismado são observações vistas na internet como essa: "é uma trabalho de alguém emocionalmente perturbado". Certamente, por esses meandros da tentativa de censura imposta pela democracia da “paz eterna”, manifestada em pequenas frases que atestariam loucura o diretor dinamarquês, que ele talvez não tenha conseguido o prêmio em Cannes – e tenha, inclusive, suscitado vaias da platéia. Para alguns, inclusive pra mim, o filme é o ponto alto do diretor.
Não o ponto alto como o cume de sua produção. Sobretudo, como o mais profundo em tema e abrangência trágica. Se antes ainda existia o resquício melodramático, que faltaria a Theodor Dreyer, ou a Ibsen, em filmes como Os Idiotas, ou Dançando no Escuro (esse sim ganhador da palma de ouro), agora o filme do diretor parece ter a dimensão mítica necessária para criticar o maior Best Seller do mundo, quiçá do universo: A Bíblia. Ironias à parte, o Anticristo não é a primeira facada na tradição cristã vista no cinema. Defoe , inclusive, renasce como um Adão após sua vida sob o simbólico e humano Cristo de Scorsese.
O filme de Lars é uma tese, tal como da personagem feminina, a Eva Charlotte Gainsbourg, sobre o Gynocide – assassinato do feminino. Três capítulos, além do prelúdio e do prólogo, dão o sumário: Luto, Dor e Desespero. São três percalços da filosofia cínica dos tempos hedonistas, mas na profundidade trágica já citada, admitem um caráter autoreflexivo desse distanciamento político. O mesmo distanciamento faz a teoria de Brecht ainda ser ativa, pois vemos como espectadores a natureza nos comandar. Sendo que a polis atual, além de estar no espetáculo, é permeada por natureza caótica internamente e externamente, segundo uma vertente muito bem estudada por espinosistas. Portanto, ela está cheia de impulsos que a crítica mais racional deixaria passar direto.
Sim, passaria bem rápido.
Primeiro, porque a natureza é insignificante, e, segundo, quando não é, ela tem a força de um inconsciente místico que remontariam a bruxas, feitiçarias, ninfas e sereias que desviam o olhar distraído da razão. Homero, o grande herói clássico, sabia tanto quanto Adão dessa força feminina, e por isso mandou sua tripulação tampar os ouvidos. Mas sabia também da sedução demoníaca e, quem sabe, cheia de sabedoria e conhecimento por trás dos cantos enigmáticos, e não tampou os seus.
Suponhamos que, realmente, a verdade seja uma mulher. Essa mulher que conhece mais que a figura masculina de um terapeuta, psicólogo, psicanalista (em suma, um cientista da alma moderna) sobre as forças da natureza. Essa mulher teria, portanto, essas forças a seu lado. No filme genial de Lars, o impulso depressivo provocado pelo suicídio de um filho da personagem feminina a liberta da prisão mítica masculina. Aquele filho era uma parte sua – a da tese racional e esquemática. Finalmente, levantamos aqui a hipótese de que uma tese pode ser comprovada naturalmente, sem maiores metodologias.
Se a natureza, ou a verdade, é uma mulher, então a racionalidade, o uso ad nauseum da inteligência e do intelecto é do homem. Enfim, quem constrói prédios são homens. Quem move aos braços o capitalismo material e fictício são os homens (levantando edifícios e gritando nas bolsas de valores). A arte, no fundo, é que vive das musas. E Eva, a parceira de Adão no Éden demoníaco, não era a virgem, mas a primeira sereia sedutora do herói, ou do nosso pai genético. Saímos agora do Gênesis para a floresta atual.
Nós vivemos aqui em um país onde a Natureza é constituinte de um imaginário feliz e festivo. Diferente da imaginação européia, que vê o verde como Triste (Levi-Strauss), ou como um Inferno. Nosso Éden ainda tem quês paradisíacos, não só por conta do carnaval e da prostituição de qualquer pessoa a euros ou dólares. Aqui ainda vivem povos originários desse território, que sabem mais dessa natureza que qualquer personagem feminina de uma Europa amedrontada e enfiada em castelos ou igrejas, monastérios e catedrais. A vida ao natural, aliás, foi ignorada, e ainda é ignorada pelos conferencistas da ordem mundial. Perde-se aquela força que se via em movimentos hippies, este que tentava mimetizar tanto os seres naturais Índicos, como os chamados Índios do novo mundo. Aliás, é essa a inversão Nietzscheana – uma que chega a ver a natureza como um destino feliz, muito longe de uma frieza rude bem vestida, e muito perto de uma latinidade composta pela cultura popular.
A vida, que não é vista no manifesto de Nietzsche, nem na obra política de Lars Von Trier, é um acovardamento diante do que se chamou muito tempo de demoníaco. Freud, aliás, está morto – e não se ouve isso nas esquinas de metrópoles e, ou , megalópoles. A natureza não pode ser Adão, que desemboca fatalmente no uso de uma racionalidade em vias de Auschwitz – extermínio racionalizado de etnias e seres inferiores. Essa Natureza culpa o instinto tanto quanto a liberdade e a ação deliberada por um destino imprevisível. Se a arte liberta o indivíduo de sua prisão racional, certamente O Anticristo, levando-se em conta a única maneira de se fazer tragédias naturais hoje que é no invólucro cristão, nos dá a deixa para discutirmos o que temos de mais interior e profundo.
Claro: além da dicotomia macho e fêmea, ou de um machismo e feminismo. Além do Bem e do Mal. E além do apolíneo e dionisíaco. A tese se confirma: matamos nosso ser mais estético, a árvore da sabedoria, mais... feminina.
Uma família burguesa passa "férias" em Búzios. Não haveria maiores decepções, se o tempo não fosse a década de 80. Então: como falar desse tempo que não existe na imaginação de ninguém, a não ser naquela criação de imagens que a mídia nos faz (de Xuxa, a rainha do cinema em Gramado à New Age)? Vindo de um diretor que parece gostar de tempos que não existem, vide Nina (2004) e Cheiro do Ralo(2007), falar de algo que nos incomoda , vide os dois filmes mais uma vez, e as repetições exaustivas de cenários... A década de 80 foi a modernização conservadora em suas vias de fato - seja em uma modernização proposta pela Rede Globo, única rede de TV moderna por aqui, ou pelas importações em massa de LPs, tapes, o surgimento do vídeo cassete e a fotografia polaroid. Tudo isso deixando fácil o acesso às mídias importadas, principalmente vindas do novo império dos EUA. Se alguém tinha dúvida de que o cinema de autor ainda poderia ser feito hoje no Brasil, e com uma qualidade bem próxima, até superior, ao cinema desse tipo que era feito nas passadas décadas de 60 e 70, agora não tem mais. Bressane, como um diretor que quer fazer de sua imagem um ícone da resistência do tipo de cinema citado, chega ao cume de sua arte cinematográfica feita ao público – algo que antes parecia causar ódio ao diretor, vendo o estilo histórico brasileiro, ou mesmo épico aberto desse intelectual.
Há muito diziam que ele tinha guardado a herança da narrativa de Glauber Rocha. Só que, em seus épicos como São Jerônimo, ou mesmo o Brás Cubas, Sermões de Padre Antônio Vieira, lembrávamos tanto de Glauber quanto um Jodorovsky mexicano. A razão de Bressane, hoje, ter deixado de lado as elucubrações monumentais e imagéticas de um cinema preocupado com causas da escritura nacional estão quase que evidentes na metalinguagem de Erva do Rato.
Parte então, ele, para um drama estabelecido entre um casal, que fora interpretado, ou expressado, por Alessandra Negrini e o ator da moda Selton Mello. Este último não só rouba a cena como o filme, em certa medida. Isso se nós encaramos, em um nível profundo de metalinguagem, que ali está uma discussão entre Bressane e Rosa Dias (mulher do diretor, professora universitária e também roteirista de alguns dos seus filmes, e, mais especificamente, deste). A relação do filme com o público é muito pacífica, chegando a ser até colaborativa. Ainda que o tom seja próximo da comédia, não se via algo desse tipo no cinema contemporâneo – mesmo com Selton Melo.
O personagem de Selton seria o fotógrafo que observa sua musa até seu desgaste. Poucas, quase nenhuma cena externa, economizando no orçamento. Coisa cara ao cinema autoral. E mais: bela fotografia, sem demais experimentações, de Walter Carvalho. Erva do Rato é simples, comum e inquietante – se é que alguém possa entender, aqui no Brasil, como alguém consegue inquietar outrem sem ser provocativo. Mas deve haver alguém que diga que esse filme provoca a platéia.
Já Negrini, vinda de Cleópatra, o épico absurdo, é uma moça interiorana que manca – tal como uma personagem de Machado de Assis (o filme, mais uma vez, é roteirizado em cima de dois contos do carioca Machado). Seus diálogos com o fotógrafo são cortados, incompreensíveis, extraordinários. Esse que seria o drama contemporâneo, é a ironia fina de um estilo que vem de tempos num país que, apesar de pobre, tem erudição em sua compreensão histórica e artística. Nisso, as imagens que ficariam pornográficas em um filme global (ou Global), são absolutamente devedoras a um modo do início do século, quando prostitutas faziam seu papel de musa em frente a pintores, fotógrafos e... cineastas iniciantes.
Não há prostituição alguma no filme – muito pelo contrário: há pintura. Há uma abertura de perspectiva acerca de como se pode fazer um cinema muito profundo atualmente. Bressane se mostra genial nesse filme, por muitos motivos. Preciso como nunca, nas imagens e nas falas. Uma espécie de Manoel de Oliveira da colônia – só que bem mais irritante, tóxico, e, sobretudo, subversivo. Bem melhor, diga-se de passagem, o barroco naif ao barroco estilizado. Continuando, claro, na comparação entre metrópole e colônia lusitana.
Num ambiente de cinema que preza pelo preciosismo do maquinário e do ideal de uma retomada meio futurista (sem nada ter a ver com uma aproximação da vanguarda que teve esse nome), meio tupiniquim sem fronteiras, meio natureza global de Meireles, ou de um lado de Salles, a ordem é “senta e vê como estamos andando”. A passos curtos na história (e na História) e na narrativa, e a passos largos no posicionamento de um cinema bem estruturado. Mesmo que historicamente, ou em estruturas narrativas. O problema desse cinema da pós-retomada, ou do cinema da retomada tardio, é não entrar na História – sem fazer histórias e sem entrar no cotidiano real do que anda acontecendo conosco hoje em dia. Em Meu Mundo em Perigo(2009) existe um real, que com a ajuda de Mário Bortolotto se conseguiu chegar, com a fantasia necessária de uma política bem armada com uma psicologia dramática dos diálogos. Longe de um filme que queira atingir muitas platéias cheias de cinema – afinal, cinema hoje não quer mais dizer salas cheias de espectadores (isso fica pra shows em estádios e para a medição do ibope em programas de TV que precisam de publicidade pra sobreviver). Dá pra dizer que o intimismo do cinema de Belmonte é o mesmo intimismo de um cinema que quer conversar diretamente com cada um espectador, e não com muitos. Ele não fala com voz alta, em outras palavras. Nisso, é preciso não prestar atenção em mensagens evidentes do que se vê: como a trama de um personagem que perde o filho e por causa de problemas familiares e uma “maré de má sorte” atropela um outro pai de família, mais velho, de um bairro de periferia de São Paulo. O que se vê, além da falta de diálogo entre centro da cidade nobre em seu diálogo que às vezes nem mesmo precisa falar, como é o caso da menina linda interpretada por Rosanne Mulholland – que se destacou como uma protagonista dentro da ironia de Reichenbach, em Falsa Loura(2008), é uma falta de entendimento.


Glauber - Leon. Leon - Glauber. Para mim, sobretudo, dois amigos. Daqueles de quem a gente traz os filhos sobre os joelhos, daqueles que trazem sobre os joelhos os filhos da gente. Glauber e Leon foram - é impossivel não recordar - dois dos quatro irmãos com que privei mo transcorrer de poucos amos, poucos meses. Os outros dois foram Arges Ristum "Il Turco"e Enzo Ungari. O Turco era exilado em Roma mos amos setenta, porta-bandeira da colônia brasileira da época. Ai conheceu Glauber e Leon, tendo trabalhado com ambos. Com seu inato camaleonismo, com sua atávica soturnidade, foi capaz de integrar-se a um e ao outro, conseguindo "traduzi-los". Por Glauber, Enzo viveu uma de suas inflamadas paixões intelectuais; com Leon teceu uma verdadeira amizade; com o Turco se embriagava sempre. Juntos, em Veneza, Enzo (na Mostra) e Turco (como promotor), haviam vivido, em 81, a catástrofe em A IDADE DA TERRA e, em 82, o triunfo de Leon, em ELES NÃO USAM BLACK TIE. OS DOIS BRASIS é uma saga de Jacques Lambert, considerada um clássico. Uma das primeiras tentativas de ler o Brasil, através de suas contradições de país rico-pobre, moderno-arcaico, urbano-desértico. Não recordo quem, talvez o próprio Glauber, talvez Paulo Cezar Saraceni ou Carlos "Cará Diegues", colocou o livro nas minhas mãos, estrangeiro que, no inicio dos anos sessenta, ia freqüentemente ao Rio com a intenção de compreender. Este livro fundamental voltou-me à mente quando os responsáveis por Sorrento tiveram a sensibilidade de pedir-me estas linhas. Glauber - Leon. Dificil imaginar dois homens tão diferentes. O primeiro veio dos campos, do coração profundo da Bahia, daquela Vitória da Conquista que - ele dizia com certo orgulho - ostentou por anos o mais alto índice de criminalidade do Brasil. Só delitos de honra. O segundo lugar pertencia à metrópole, da zona norte do Rio de Janeiro, cinturão entre cidade e pré-história, que viu formar o proletariado carioca. Num país dividido entre o catolicismo e a tradição africana - o primeiro de origem protestante e o segundo, da família hebreu-polaca. Ambos cresceram entre o atabaque e o tamborim, os tambores do candomblé e do samba. Entre os cabelos loiros e a pele dourada de Glauber, pairava toda a gama de cores do Brasil. Não me consta que Glauber - que conseguia brigar com todos - tenha, alguma vez, se indisposto com Leon. Entre os dois, havia um respeito absoluto. Até se temiam. Antes de conhecê-los pessoalmente, conheci-os através das maravilhosas fotos (precisas nas descrições físicas das pessoas, agudas ao registrar a essência do caráter, sempre pleno de humor) feitas por Gustavo Dahl, então estudante do Centro Experimental de Cinematografia. Pessoalmente, conheci Glauber durante o Sestri Levante, em 1962, por ocasião da resenha de Cinema Latinoamericano, de que então me ocupava. Tinha 23 anos, e sob os braços as pizzas do Barravento, que ele levava a Karlovy Vary. Sobre nosso primeiro encontro já escrevi. Aqui, apenas quero ressaltar que Glauber monopolizou as atenções do festival, atirando sobre a assembléia dos cineastas latinoamericanos uma torrente de idéias e iniciativas, propondo uma estratégia continental para o cinema da América do Sul. Um autêntico terremoto cultural. Depois, recordo-me dele, em Carnes em 64. Entusiasta, exaltado. Compartilhava com Luís Carlos Barreto e Nelson Pereira dos Santos a felicidade de haver finalmente, atraído a atenção do mundo sobre o cinema brasileiro. Em Porretta Terme, poucos meses depois, venceu o Festival com DEUS E O DIABO. Cesare Zavattini, presidente do juri, argumentou: "Finalmente um filme de pau duro". Uma noite, em Porretta, descobri que ele se achava sob as bordas do Monte Castelo, mítico palco da única batalha travada entre o corpo da expedição brasileira, integrado aos aliados, e o exército alemão. Teve um choque. Na manhã seguinte, fomos recuperá-lo na estação dos soldados. À noite, com Paolo Brunatto, arriamos ao longo da alameda as bandeiras dos países participantes do Festival. E ainda, em Gênova, no início de 65, quando a Embaixada do Brasil em Roma queria anular a primeira retrospectiva do Cinema Novo, coordenada por Arnaldo Carrilho, antes do golpe acontecido nesse ínterim. Na véspera da manifestação, chegou de Roma em coronel encarregado de ver todos os filmes. Recordo-me de uma projeção - no cinema do Arecco. Glauber sentou-se junto ao coronel, colou a boca na orelha dele e falou, ininterruptamente, durante toda a projeção. O coronel partiu à noite, autorizando a manifestação e afirmando que se tratava de filmes que honravam o país que os havia produzido. Logo depois, durante a reunião, Glauber apresentou para uma platéia de intelectuais a sua ESTÉTICA DA FOME. Em Roma, viu pela primeira vez a neve. Passou o dia inteiro na Vila Borghese e quando voltou para casa, minha sogra teve que enxugá-lo de depois envolvê-lo nas cobertas como uma criança. Dai em diante, passamos muito tempo juntos. Com ele, vi pela primeira vez, TV a cor. Itália - Brasil, final do México-70. O televisor era de Pierre Kast. Excetuando Pierre e eu, todos os outros expectadores eram brasileiros. Glauber, Fernanda, Nara, Cacá, David, se bem me recordo, e outros entre tantos que haviam escolhido, àquela época, Paris. Depois da euforia do 4 x 1, nas mesas do bistrot sob a casa, Glauber foi colhido por uma violenta saudade da terra (os brasileiros, sobretudo no exterior, chamam o Brasil de "Terra") que contagiou rapidamente toda a turma. De repente, cessou o vai-e-vém das cervejas, a frenética gritaria. O grupo de festivos se transformou em um grupo de desesperados. Uma imagem do Samba de Orly, a obra-prima de Chico Buarque, dedicada aos exilados brasileiros em Paris nos anos da ditadura. Recordo o loft sobre a Bowery nos inícios dos anos setenta. Glauber o percorria, desnorteado, passando com impressionante rapidez da depressão à exaltação. Havia planejado uma estratégia de ataque à vida cultural nova- yorkina, com a assistência de Fabiano Canosa, encarregado das relações públicas, e Naná Vasconcelos, diretor musical. Creio que tenha sido em uma dessas casas de Manhattan, onde na época se viveu mais intensamente. Deveria haver vestígios em um vídeo, um dos primeiros, de Afonso Beato. Morar com ele era um compromisso. De manhã, tomava banho enquanto outro escovava os dentes, porque ele queria falar de um texto de Eisenstein que havia relido (ou sonhado) durante a noite; os almoços quase sempre viravam comício; à noite, acordava alguém para falar do filme que havia visto. Era desordenado, caótico, barulhento. As casas adaptavam-se, inevitavelmente, ao seu ritmo que era o mesmo de um samba-rock. Em 78, foi muito emocionante nosso reencontro no Rio. A última noite, no Brasil, passamos na casa em Botafogo vendo alguns números de ABERTURA, seu programa na TV. São imagens que trago ainda nos olhos. Glauber usava a televisão para arranhar a realidade, tinha a capacidade de levar os entrevistados a revelar-se, em tal medida e em tal modo que tomava aqueles trechos inesquecíveis na minha memória. Fiquei com a impressão de haver, naqueles poucos minutos, aprendido muito, muitíssimo mais sobre a "Terra" do que Glauber já me havia ensinado; e me ficou, ainda, o desejo de que qualquer um, vencidas a preguiça e a pobreza, se decida finalmente a editar, para mostrá-lo ao mundo, este superGlauber. A última vez o vi em Roma, depois de ter estado em Veneza. Estava cansado. Passamos muito tempo jogando com Ava e Amaque, seus filhos menores. Ficava atônito diante da reação a seu último filme: hostil, na Europa; indiferente, na "Terra". Havia perseguido, por anos, o projeto de A IDADE DA TERRA, convencido de que realizaria um filme-manifesto de um novo Cinema Novo, não só brasileiro, mas de toda a América. Quando, finalmente, conseguiu articular seu discurso numa obra que exprimia toda a ambição, sentiu que não era ouvido, ou pior, ainda, mal interpretado. O seu discurso de líder de um cinema e de uma cultura, como referência para uma geração de cineastas latinoamericanos, havia se transformado, de repente, numa pregação no deserto. Imediatamente após sua morte, escrevi sobre ele, para reinvindicar a absoluta coerência de seu trabalho, a clara lógica interna de seu discurso, em confronto a quem pretendia descrever as contradições e as incertezas da nossa cultura homogeneizada. Hoje me parece ainda mais evidente que relacionar Glauber a uma das posições político-culturais reconhecidas é uma operação que não tem sentido. Glauber se movia como um missionário, sua missão era o Brasil. As armas da revolução eram seus filmes do Cinema Novo. Glauber vivia a responsabilidade do Brasil como uma obsessão. Dava a impressão de estar carregando sobre as costas o peso do pais. O seu Brasil, que não coincidia com o geográfico, mas tinha, antes, os limites da nação nordestina, de que ouvi falar, um dia, em Paris desde Luiz Gonzaga. Havia estacionado a câmera no ventre esfomeado e não trocou mais de ângulo. Havia personificado o DIABO no imperialismo vestindo-o de dragão da maldade, de monstro das sete cabeças. "Na barriga da miséria eu nasci brasileiro"(um verso de Chico Buarque, cantado por Caetano Veloso). Interessava-se por todas as teorias políticas. Interessavam-no na exata medida em que vislumbrava uma idéia, uma contribuição aplicável ao processo de liberação de seu povo. Eu visitava-o sempre quando militante na clandestinidade, com o nome de "Severino". Acompanhei-o nos seus diálogos com os generais. Defronte a um país do qual sublinhava a evidência do surrealismo (aquele trágico de Bunuel, que Glauber adorava) no cotidiano, parecia sempre convencido de que somente a lógica da magia, a cientificidade do sonho, a vontade da utopia poderiam fornecer-lhe respostas adequadas. Este era Glauber, e assim era fé cega, faca amolada, como cantavam Milton Nascimento, os eternos baianos, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso. De Roma parte para hibernar em Sintra, lugar mítico da cultura lusitana, como um novo e eterno argonauta. Onde estava Glauber, estava o cinema. Ilospedou-se, de fato, no hotel onde Wenders rodava LO STATO DELLE COSE. Notícias dele eu obtinha indiretamente. Quando soube que ele estava doente, já havia morado. Leon chegou depois. Rio, 1967. Rodávamos contemporaneamente cenas de carnaval. Ele para GAROTA DE IPANEMA, eu para AM! VEM O SAMBA. Ambos tínhamos poucas lâmpadas, insuficientes para o total. Aranovich e Pelloni, os dois iluminadores, estavam desesperados. Decidiram juntar as luzes à disposição e rodar, numa noite, um dos filmes, e na noite seguinte, o outro. Conheci Leon no set, na noite em que ele deveria filmar. Dele eu conhecia MAIORIA ABSOLUTA, filme super clandestino. Já o tinha visto em Gênova, na retrospectiva de 65, único filme que Glauber não havia tido a coragem de mostrar ao coronel 'censor; mas, logo depois, padre Arpa, responsável pela manifestação, tirou-o do seu chapéu de 'prestidigitador, no momento da cerimônia de premiação e na presença de todos os embaixadores latinoamericanos. Foi triunfal, com Saldanha, único presente entre os realizadores do filme, alçado do palco pelos outros cineastas. E foi um grande escândalo político: as Resenhas do Cinema Latinoamericano nunca mais foram organizadas. Nos encontramos e nos tornamos amigos, em Pesaro,em 68. Foi um dos primeiros brasileiros a ver TRÓPICOS. Eu esperava, nervosíssimo, sua reação ao meu filme, que, entre outras, continha uma citação do seu MAIORIA (três enquadraturas de Brasília, do alto). Depois, com Paulo César, em um quarto do Piccolo Hotel, ficamos conversando até a madrugada, enquanto no banho, Julinho Bressane havia se fantasiado de papai noel com o creme de barbear. Até a metade dos anos 70, Leon rodou para a RAI um documentário sobre a cultura brasileira e permaneceu em Roma, muitos meses, para montá-lo. Sempre que podia, ia nos encontrar em Cinque Terre. Duas sequências de DIÁRIO DI MANAROLA foram rodadas por ele. Lembro-me de nós dois, comovidos, após as primeiras projeções, quase contemporâneas a SÃO BERNARDO e AFINIDADES ELETIVAS. Lembro-me dele, emocionadíssímo, em Veneza, na estréia de BLACK TIE, chorando nos braços de Guarnieri, este ainda mais emocionado, perante o público que não parava de aplaudir. Lembro-me também de quando ele deu uma cantada na Liv Ulmann, roubada da telecâmera, no momento da premiação. Lembro-me dele, no ano seguinte, no júri com Bernardo Bertolucci, premiando Godard. Na semana anterior, havíamos trabalhado juntos na filmagem de um filme sobre o samba da Bahia, desde então, interrompido. Quando nos falamos, pela última vez, sonhando um dia, poder concluí-lo, ele adorou a idéia de poder intitulá-lo GLAUBERALIA. De fato, a aventura-desventura do filme sobre samba muito nos tinha unido, nos últimos tempos. Em Roma, ele morava comigo. No Rio, eu morava um pouco com ele, um pouco com Gustavo Dahl. Eu provava da estranha sensação de ser o único contato entre os dois. Como hóspede, Leon era ordenado, discreto, silencioso, reservado. A hora das refeições e das sestas eram sagradas. Com ele vivia-se ao ritmo de um choro, a forma clássica da canção popular brasileira. Era comunista. Era-o de modo rigoroso, responsável, atento, quase burocrático, da forma que consenguem sê-lo só os comunistas. Nos últimos tempos, estava sempre mais envolvido com IMAGENS DO INCONSCIENTE. É muito fácil, hoje, perceber como Leon viveu o seu último filme como uma experiência totalizante, assim como Glauber, havia vivido A IDADE DA TERRA. Estava convencido de ter entrevisto, durante a montagem de IMAGENS, o fio de uma lógica profunda, de uma nova articulação estrutural capaz de fazer coincidir o peso do social com a penetração nas profundezas do indivíduo, isto contado como energia criadora de paixões (esta era sua palavra preferida). E foi surpreendente, quando terminou o filme, a sua vontade de fazê-lo circular fora dos circuitos normais, quase como se tratasse de uma criatura carente de atenções e olhares especiais: embrião daquilo que parecia delinear-se, em Leon, como um repensamento das reflexões sobre a montagem que estavam na base da sua pesquisa teórica. Como Glauber, era obsecado pela necessidade de alçar a ambição do discurso, de aumentar a qualidade e a amplitude da proposta cultural. Durante a minha última viagem ao Rio, ele já começara a ficar doente. Depois, falávamos, por telefone longamente, até quando foi possível. Glauber - Leon. Diferentes, os dois homens, differentissimo o cinema de cada um. Glauber, hoje, me parece definir-se como a expressão barroco-tropicalista daquela linha de cultura brasileira (metropolitana, cosmopolita, experimental, orgulhosa da própria cultura ao ponto de querer reinventara a lingua) que vem do modernismo. Leon, com seus teoremas sobre as pulsões do social e do privado, como artista um pouco neoclássico e um pouco nordestino. OS DOIS BRASIS se cruzam, talvez se encontram. As horas passadas conversando, discutindo, brigando com eles estão entre os grande prazeres da minha vida. Eram dois grandes faladores, fascinantes, surpreendentes, sempre prontos a enriquecer o assunto com pontuações agudas, narrações plenas de sabores. Certa vez, em Roma, meados dos anos setenta, os três nos reencontramos. Falou-se durante o dia inteiro. Entre Glauber e Leon se estabelecia uma linha de idéias, de proposta, de reflexões. As mais audazes provocações de Leon encontravam Glauber pronto a apoiar o golpe e a relançá-lo; os desenhos planetários de Glauber eram reconduzidos por Leon como hipótese de trabalho. Os dois, de repente, começavam a assemelhar-se. Quando Glauber passava, como ele dizia, da dialética à dialética, encontrava Leon já sintonizado. Bastava uma palavra, uma pergunta inocente, o pedido de uma informação para desencadear a oratória de ambos. Sobretudo se falavam da "Terra". Nesse momento, os dois se tornavam idênticos. No afeto com que falavam do Brasil, no orgulho com que reinvindicavam a originalidade de sua cultura, na fé naquele que, nas palavras deles, já era "o país do futuro". Tornavam-se sectários ao defender tudo aquilo que a cultura brasileira, a deles, propunha. Não era necessário exprimir reservas, bastava uma dúvida para se tomar objeto de uma agressão que os via recorrer a todas as flechas do arco dialético de ambos. Os últimos encontros com Glauber aconteceram em Ipanema, no momento em que pedi notícias sobre a real diretriz das inovações introduzidas por Figueiredo, o presidente que havia encaminhado, ao fim dos anos setenta, o processo de democratização. E com Leon, na casa de Copacabana, no momento em que cruzei os dedos falando do futuro do Plano Cruzado, o plano econômico criado pelo presidente Sarney em 1986. O inimigo para ambos era o mesmo. Aquilo que Glauber chamava de diabo, Leon chamava de câncer. As palavras de Glauber e de Leon sobre a "Terra" deveriam ser registradas. Ainda que muito diferentes: iluministas e rigorosas as de Leon, enquanto que aquelas de Glauber tinham o estilo do padre Cícero (o líder religioso nordestino, no qual foi inspirado DEUS E O DIABO, e a quem, Leon, por sua vez, tinha dedicado um filme que preparara havia muito tempo), um discurso que, passando pelo delírio, dissolvia-se na profecia. A prova da existência de um Brasil moderno e capaz de organizar a própria potencialidade está no cinema de Glauber e Leon. Ou melhor, no Cinema Novo, para ambos sinônimo de "cinema brasileiro". Exemplo concreto da possibilidade e da capacidade de criar obras sem complexo de inferioridade cultural, dedicadas ao subdesenvolvimento mas não subdesenvolvidas, provenientes da provinciano mundo para não propor um discurso provinciano, mas sim para afirmar a centralidade da província. Glauber ficava contente quando eu falava de Milagres (uma cidadezinha de 500 almas no interior da Bahia, onde não só por coincidência foi filmado OS FUZIS, a parte central de TRÓPICOS e O DRAGÃO DA MALDADE) como capital do globo em alternativa a Moscou ou Nova York. No fundo, dizia, o problema é só onde fincar o cavalete. Ficou em mim a impressão de que, perplexos e preocupados com as vicissitudes do país e das nuvens que viam adensar-se sobre o cinema brasileiro, ambos consideravam seus últimos trabalhos como tentativas de abrir uma fase de maturidade que julgava indispensável para a sociedade e para o cinema brasileiro. Creio que somente a materialização do sonho de um Brasil capaz de apresentar-se íntegro e independente na sua cultura, em confronto com o mundo, possa dar um sentido ao trabalho e à existência deles. O sertao vai virar mar. |

Moscou de Eduardo Coutinho (2009)
Coutinho deixou, realmente, a velha procura por um documentário popular. E o que o fez deixar, só ele pode explicar. A vertente que permeia sua tentação cinematográfica atual é a de um filme em que não haja mais uma divisão cerrada entre o verdadeiro e o mentiroso, e, numa espetacularização própria do contemporâneo, a não problematização do verídico. Assim, ele parece voltar ao seu primeiro modo criativo, que era sim a ficção, e era sim a narração cinematográfica.
Se em seus documentários anteriores a regra era a demonstração de um imaginário de costumes do povo, desde sua investida etnográfica, ou mesmo curiosa a respeito das classes mais baixas do país, o que na era da militância do PCB se chamava proletariado, o lado escolhido agora é o da investigação da cena. Vejamos Jogo de Cena, e percebamos isso.
Mas não só da cena por si – afinal é uma investigação, e, nestes casos, nada fica em si. Como se vê em outros textos aqui pela internet, Coutinho procura descobrir alguns mistérios da memória - do passado. O principal movente e criativo, e a principal fonte de vida pra um trabalho como a montagem de uma peça russa pré-revolucionária de Tchekóv – As três irmãs. – Muito se sabe, mas pouco se fala da confluência de ideais e de costumes entre a Rússia pré-revolução e o Brasil. Mas a diferença fundamental é a falta de utopia revolucionária por aqui, hoje.
Mas nem sempre foi assim. E mesmo Coutinho, que participou ativamente de uma militância desde a década de 60, é um personagem próprio desse passado quase revolucionário (e que moda era essa revolução entre os jovens da década de 60). O mais engraçado de Moscou é que Coutinho só apresenta o filme, e narra na moldura. Ele some. Não é diretor da mise en scéne. Ainda que, continua sendo o exímio montador de sempre.
É o filme mais experimental, e, sobretudo, o mais fragmentado do cineasta. Ainda bem que chamamos hoje Coutinho de cineasta, e não de documentarista – é essa a razão principal desse filme que junta, com muita força, o modo narrativo ficcional, atualmente muito pobre no país, e o documental, muito bem elaborado por alguns poucos cineastas, por outro lado. E, se o caso é lembrar, vejamos a trajetória do documentarista e levemos em conta sua decepção e melancolia com a atualidade sem perspectivas de um país subdesenvolvido, mas feliz.
Seguindo Brecht
Sobre:
- Provocações e questionamentos acerca do cinema, das imagens, do aparato técnico, ideológico e filosófico (às vezes religioso, astral, cosmo-ético) que é a TV e os demais meios de expressão midiática. A postura calma e paciente de um espectador é sempre uma falta de posição a respeito dos imensos problemas que ele assiste aos jornais - da morte à miséria.
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