Mustapha Khayati
O desvio (détournement), que Lautréamont chamava plágio, confirma a tese, afirmada desde faz muito tempo pela arte moderna, da insubmissão das palavras, da impossibilidade para o poder de recuperar totalmente os sentidos criados, de fixar de uma vez por todas o sentido existente, isto é, a impossibilidade objetiva de uma "novlingua". A nova teoria revolucionária não pode avançar sem uma redefinição dos principais conceitos que a sustém. "As idéias melhoram", disse Lautréamont , "o sentido das palavras participam disso. O plágio é necessário: o progresso o implica. Achega-se da frase de um autor, se serve de suas expressões, elimina uma idéia falsa, a substitui por uma idéia justa." Para salvar o pensamento de Marx, deve-se sempre que necessário, corrigi-lo, reformulá-lo à luz de cem anos de fortalecimento da alienação e das possibilidades de sua negação. Marx precisa ser desviado (détourné) pelos que continuam esta linha histórica, e não ser citado de maneira imbecil pelas mil variedades de recuperadores. Por outro lado, o mesmo pensamento do poder se converte em nossas mãos em uma arma para si mesmo. Desde seu advento, a burguesia triunfante sonhou com uma língua universal que os cibernéticos intentam hoje realizar eletronicamente. Descartes sonhava com uma língua (ancestral da novlingua) na qual os pensamentos se seguiriam como os números, com um rigor matemático: a "mathesis universalis" ou a perenidade das categorias burguesas. Os Enciclopedistas que sonhavam (sob o poder feudal) com "definições tão rigorosas que a tirania não poderia acomodar-se a elas", preparavam a eternidade do futuro poder, como último momento do mundo, da história.
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