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Na rua de manhã naquele sol quente amigo nosso de toda manhã, no ponto de ônibus. Tem umas árvores que balançam com uns ventos quentes, também, devagar no início e frenéticas no fim, isso porque o vento tem fim. Vento que tem cheiro, mas que fede, que tem ar desmedido, sem força de vontade. Um vento brando, sem querer viver.

Foi, na rua, na calçada pelando, perto daquele meio fio – uma reta de concreto que nos avisa até onde podemos ficar para não sermos trucidados pelas máquinas velozes – as máquinas que dão uma carapuça moral há milênios procurada pelos homens medievais, românticos e, agora, modernos. A carapuça que nos movimenta economicamente hoje em dia – e é movida à gasolina, derivado do petróleo das guerras.

O matinho tenta crescer entre as pedras. O vento tenta passar os prédios. E eu olhando aquela reta, aquela grande reta na qual nós não podemos ficar muito tempo – periga morrer. O sol esquenta mais, o tempo esquenta o sol e vice versa. Mas eu vejo, então, pessoas arrumadas, gostando de andar com o cabelo recém molhado do banho – que só saem de casa depois de um banho. E suspiram por ter que pegar um ônibus.

A grande máquina sem vento e que fede muito, então, chega. Todos esperavam vida, mas ela não chega.

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