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Anos 80

O fim. O melodrama já era um artifício de ilusão, nesses anos de trevas ele vira a única via. Não por acaso o outro lado da corda é o hardcore, o suicídio, a revolta consigo mesmo que surge como alternativa contra o sistema conservado pelos patrões do mundo. Os jovens criam do satanismo de Keneth Anger e Aliester Crowley uma nova seita assassina da criatividade, uma seita unilateral que via no punk um bando de garotos podres sem direção. As camisas pretas, os cabelos longos e o apuro musical do progressivo volta com Iron Maiden, com Metallica, com Halloween. O cinismo do pop é execrado. Nem mesmo Dead Kennedys ou Misfits querem usar a mídia televisiva pra alguma coisa.

Na verdade, os anos oitenta com seu fetichismo criam mais ou menos 5 vertentes musicais (pra não entrar no resto das artes, fiquemos apenas com a música, que é mais divulgada pelo mundo e produz muito mais subjetividades):

1- O já chamado Heavy Metal. Black Sabbath não adivinharia que do blues denso e das facadas pesadas, revoltadas, dos seus primeiros discos com Ozzy sairia uma vertente musical. Nem falo dos alvos femininos Robert Plant e Jimi Page.

2- O pós punk, vendido e absorvido pelo que chamavam de pós modernismo. Talvez esse termo tenha aparecido nas artes mais populares (na arquitetura foi diferente) para criticar os modernistas e seu populismo – que viam como critério de boa arte uma aproximação do povo, dos pobres, dos desfavorecidos. No fundo o punk foi o último movimento forte contra uma opressão abstrata que o ser humano sente da sociedade contra ele mesmo. A partir de sua venda tudo volta à belle époque.

3- Já falei também do Hardcore, que era uma volta dos Billy boys, da raiva dos meninos mais novos. Só que há um elemento mais forte nessas músicas absurdamente rápidas: a anti-música. Essa música de São Francisco tem muito a ver com os esportes alternativos que surgiram instituídos nessa década, como os do mar em cima de uma prancha, e os do concreto, em cima de rodas. Também no ar, mas a asa delta é mais vista como hobby que competição. Não haveria, isso os jovens da década de 80 deveriam saber, não haveria Rezzilos sem Ramones (o punk). No fundo a anti-musica deles fica superficial, uma brincadeira com os instrumentos, uma palhaçada de crianças que querem atenção.

4- Se brecht ouvisse uma banda como Pere Ubu, certamente diria que é um suspiro modernista. Também agraciadas pelo faça você mesmo do punk, a estética desconstrutiva volta com Wire, Husker Du, Pixies, várias outras bandas que tentavam ainda trazer a arte desinfetada dos índices de audiência e criadoras de moda. Vê-se que Zappa entra num ostracismo, e não por acaso Tom Zé também, aqui no Brasil. O que assistiríamos junto ao início do punk com New York Dolls, ou Velvet, reaparece em bandas como Devo. É uma volta à leitura da música por ela própria, uma tentativa de entender e massacrar a percepção unificada da grande maioria das pessoas dessa época ( o que antes chamariam de massa).Obviamente essas bandas tocam pra platéias de no máximo 300 pessoas. Bem diferente de Queen, ou o main stream de Elton John. Schoenberg até volta, com Sonic Youth. É uma música absurdamente crítica, tão crítica que a sua negatividade não é entendida por cabeludos do heavy (que desandam no Hard Rock) ou do finado punk (como os adoradores de Smiths, ou Siouxie).

5- A depressão... A rádio volta com seus produtos fugazes, e a indústria cultural norte americana toma conta do mundo. Bon Jovi que o diga.

A década de 80 foi muito complicada, mas este último item dominou as cenas. O que antes era underground agora ficou mais underground ainda.

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