Pular para o conteúdo principal

Alucinação


Eu não estou interessado em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia, nem no algo mais
nem em tinta pro meu rosto, oba-oba ou melodia
para acompanhar bocejos, sonhos matinais
Eu não estou interessado em nenhuma teoria
nem nessas coisas do Oriente
romances astrais
a minha alucinação é suportar o dia-a-dia
e meu delírio é a experiência com coisas reais

Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha
Blue Jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais
Garotas dentro da noite, revólver: "cheira, cachorro"
os humilhados do parque com os seus jornais
carneiros , mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar
a solidão das pessoas nessas capitais
a violência da noite, o movimento do tráfego
um rapaz delicado e alegre que canta e requebra
é demais?
cravos, espinhos no rosto, rock, hot dog, play it cool, baby
doze jovens coloridos...
dois policiais cumprindo o seu duro dever
e defendendo o seu, amor. É nossa vida
cumprindo o seu duro dever e defendendo o seu, amor
eh, nossa vida

Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria
em nenhuma fantasia, nem no algo mais
longe do profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
amar e mudar as coisas me interessa mais.

Já se foram as flores do passado, e a juventude aproximava-se da criação de um mundo novo, de um novo mundo. Belchior, latino americano e pobre, sabia o quanto de fantasia existia na brincadeira das teorias. Ele andava desesperado, preferia o tango ao blues, e nos seus poucos anos de vida no destino brasileiro da decadência e falta de perspectivas previu como nós andaríamos da mesma maneira que sempre andamos, apesar dessa moda ilusória do novo. No fundo Belchior violentava com uma faca pra dizer que não temos porque sonhar ainda, mas sim alucinar-se e enlouquecer-se.

E era bastante comum o suicídio, o assassinato, a desistência ou a violência prática. Não há nada de louco em Belchior, mas ele chega próximo da insanidade da proximidade do fim, do delírio com coisas reais mais cruas, cruéis. O que se imagina no nosso mundo aqui, o novo mundo, é a uma guerra social constante, que por vezes se esclarece como étnica, além de ética. A gritaria aqui é alta, mas parece que ninguém ouve lá fora. Parece que precisamos de mais delírios e violências.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

A Última Floresta - Luis Bolognesi e Davi Kopenawa

A imersão de Bolognesi nos temas indígenas, em seus últimos filmes, demonstra que quando o cinema dá atenção a isso, algo se revela. Parece ser um caminho sem volta. Uma estrada sem fim. Mostrar, em imagem, os temas indígenas, tem força de revelação, sim - mas também de reativação com discussões antigas. O que faz aquele que se chama de "indígena" um caso particular. Não se fala de uma humanidade, de um humanismo nos termos que antes das colonizações de falou. Estamos diante de uma questão, um dia chamada "indígena". Estamos diante, portanto, de algumas questões que envolvem afetos e sentimentos que nos forjam como pessoas ligadas ao subjetivo indiretamente violentado e assassinado pelo contato interétnico das interiorizações do país. Davi Kopenawa tem sido um dos maiores lutadores, desde os conflitos com garimpeiros nos tempos de Serra Pelada, e também, como não dizer, na briga que ainda se vale de gritos e falsas informações sobre as terras yanomami entre Roraima ...