Pular para o conteúdo principal
Beleza e Crumb

O underground necessitava, óbvio, de uma imagem, traços, mulheres, desenhos, sugestões, como Janis Joplin and the Big Brother's band, como Charles Bukowski, como Robert Crumb.
Precisava de vida, de atuações em cartaz, em camisetas e em peles. Precisou seus fatos em uma contínua procura pelo bonito no simples caminhar do desaparecimento - do enclausuramento.
Isso tudo depois de ver que não havia saída, sentido, êxito em militância pela mídia já dominada pela moral e bons costumes. Um cheiro cristão levava os artistas subversores da ordem-que-emburrece aos porões.
Ou então fazia com eles o que faria com tudo - plastificava. Tirava uma foto, assim, polaroid, sem que eles soubessem, e os levava para as universidades. Lá, então, os estudantes davam um mínimo de atenção ao que eles "produziam". Se a arte underground ficou pra trás, o momento dela parece ter se esvaído num limbo da surpresa. A fotografia faz isso - o que seria de nosso mundo sem a fotografia? Ela nos leva para o inabitável. E uma pintura, um desenho de uma fotografia? Acha-se a beleza.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Xingu

Há formas de se olhar o outro em narrativas. São os focos narrativos, pontos de vista, linhas condutivas através de personagens que encaram o, afinal, desconhecido da aventura, do enredo. Foi assim com aquelas grandes bilheterias da maestria de grandes massas conduzidas pelo olhar curioso, assustado. Alien, de Ridley Scott fez o mundo acordar para seres evoluídos, superiores, que nos consomem por dentro. Nascem, aliás, de nós mesmos. O “outro” que nos habita. No Brasil, terra bastante desconhecida, a regra é essa também. Explorar o oeste, tal como no gênero (também de grandes massas) foi a ordem de um elementar discurso oficial. Temos que nos conhecer por dentro, diria o positivista republicano, fragmento de um déspota esclarecido como D. Pedro II, intelectual do romantismo. Os não lugares então, aqui, estão no profundo interior da floresta. Xingu retoma a encenação deste interior do Brasil Grande. Paulo César Peréio entende bem dessa linguagem provocadora, que in...