Pular para o conteúdo principal

o mito feminino

Imagina uma moça que sai do interior de Catolé do Rocha na Paraíba e vai direto para a globo, ganha as telas das novelas e surpreende com sua beleza diferente. Uma beleza meio avançada para a época, mas que não soa destoante ou corrosivo para aqueles mais tradicionalistas. Ela então pinta seu cabelo e canta para o presidente parabéns pra você. Bem sabemos que isso não faz sentido algum.

Mas nos EUA fez – assim que, mais ou menos, nasceu um mito das telas que influenciou o mundo, tal como fez um dia James Dean. Marlyn Monroe praticamente criou o clichê de mulher pop. Ela é a criadora tanto da Madonna quanto da imagem de Britney Spears. A sua sexualidade foi explorada tal como o cinema bem sabe fazer , através do erotismo do mostrar-sem-mostrar. Nada mais enlouquecedor para as feministas – nada mais generoso para com elas, também. Marlyn foi um símbolo de liberdade feminina.

Só que não é consenso esse papel de Marlyn entre as mulheres. Afinal, as pessoas lembram que ela se casou com um jogador famoso de baseball? Mas lembram da ventania que mostrava suas belas pernas, ou do presente a Kennedy. Ela vivia, parecia, como quem queria ganhar a vida com seu símbolo. Ela mudou completamente. Pareceu mais viva quando virou uma mulher midiática – mas no fim, sabemos, que ela era cada vez mais uma coisa, e não uma pessoa.

Podemos arriscar que sua morte veio disso. E podemos, também, arriscar, que sua vida hoje vem dessa sua coisificação.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

A Última Floresta - Luis Bolognesi e Davi Kopenawa

A imersão de Bolognesi nos temas indígenas, em seus últimos filmes, demonstra que quando o cinema dá atenção a isso, algo se revela. Parece ser um caminho sem volta. Uma estrada sem fim. Mostrar, em imagem, os temas indígenas, tem força de revelação, sim - mas também de reativação com discussões antigas. O que faz aquele que se chama de "indígena" um caso particular. Não se fala de uma humanidade, de um humanismo nos termos que antes das colonizações de falou. Estamos diante de uma questão, um dia chamada "indígena". Estamos diante, portanto, de algumas questões que envolvem afetos e sentimentos que nos forjam como pessoas ligadas ao subjetivo indiretamente violentado e assassinado pelo contato interétnico das interiorizações do país. Davi Kopenawa tem sido um dos maiores lutadores, desde os conflitos com garimpeiros nos tempos de Serra Pelada, e também, como não dizer, na briga que ainda se vale de gritos e falsas informações sobre as terras yanomami entre Roraima ...