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Meu mundo em perigo – José Eduardo Belmonte

Num ambiente de cinema que preza pelo preciosismo do maquinário e do ideal de uma retomada meio futurista (sem nada ter a ver com uma aproximação da vanguarda que teve esse nome), meio tupiniquim sem fronteiras, meio natureza global de Meireles, ou de um lado de Salles, a ordem é “senta e vê como estamos andando”. A passos curtos na história (e na História) e na narrativa, e a passos largos no posicionamento de um cinema bem estruturado. Mesmo que historicamente, ou em estruturas narrativas. O problema desse cinema da pós-retomada, ou do cinema da retomada tardio, é não entrar na História – sem fazer histórias e sem entrar no cotidiano real do que anda acontecendo conosco hoje em dia. Em Meu Mundo em Perigo(2009) existe um real, que com a ajuda de Mário Bortolotto se conseguiu chegar, com a fantasia necessária de uma política bem armada com uma psicologia dramática dos diálogos. Longe de um filme que queira atingir muitas platéias cheias de cinema – afinal, cinema hoje não quer mais dizer salas cheias de espectadores (isso fica pra shows em estádios e para a medição do ibope em programas de TV que precisam de publicidade pra sobreviver). Dá pra dizer que o intimismo do cinema de Belmonte é o mesmo intimismo de um cinema que quer conversar diretamente com cada um espectador, e não com muitos. Ele não fala com voz alta, em outras palavras.

Nisso, é preciso não prestar atenção em mensagens evidentes do que se vê: como a trama de um personagem que perde o filho e por causa de problemas familiares e uma “maré de má sorte” atropela um outro pai de família, mais velho, de um bairro de periferia de São Paulo. O que se vê, além da falta de diálogo entre centro da cidade nobre em seu diálogo que às vezes nem mesmo precisa falar, como é o caso da menina linda interpretada por Rosanne Mulholland – que se destacou como uma protagonista dentro da ironia de Reichenbach, em Falsa Loura(2008), é uma falta de entendimento.
Um pai de família, de um lado, fotógrafo desempregado e novo, bem arrumado e que ama seu filho, mata atropelado um velho pai de família conservador e pró-ditadura, machista e decadente. O ponto de encontro entre esses dois mundos é o filho do antigo modo de vida duro e torturante (ou torturador). Esse filho que, herdeiro da falta de compromisso algum com vida nenhuma, nem mesmo com a própria, revida a morte de seu pater família.
Filme barato mas enredo profundo – essa fórmula própria de John Cassavetes, que é visualizada até na câmera na mão longe dos atores, para que se capte o momento de forma mais realista. Ou na intervenção com transeuntes na rua. Sem deixar de querer discutir algo que é da natureza humana de nosso tempo cosmopolita – um problema em se entender o que é a “humanidade”.

Comentários

c. disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
c. disse…
sempre um texto banhado de descrição, discussões estéticas e filosóficas, fazendo jus aos seus dotes jornalísticos (nada insignificantes, ao contrário do que vc pensa), cinematográficos e sociológicos respectivamente - vc bem sabe que é um sociólogo em potencial.

vou ver esse filme só por causa do seu texto. (ainda tá em cartaz? - não entendo nada de cinema, nêgo, haha)

saudade de conversar com vc.

xêro

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