
Jake e Grace. Dois personagens que voltam do grande sucesso de bilheterias em formato bem conhecido de “tragédias” no ponto certo a serem consumidas por uma grande massa de espectadores do mundo inteiro. James Cameron, e uma grande equipe que o auxilia na construção de uma invenção histórica, em Titanic, e construção alienígena, em Avatar, sabem a fórmula de romances impossíveis, e de imensas catástrofes proporcionadas pela construção e edificação humanas. Sem contar que a realização possui uma troca de olhares com uma outra produção em animação do extremo oriente.
De um lado o imenso navio real, do outro a imensa exploração “modernizante” de uma floresta fantasiosa. Jack (o Jake), no filme atual Avatar, pode ser chamado de um novo Neo, de Matrix – mas com uma debilitação própria de heróis modernos. O herói inicia sua aventura tomando lugar do irmão gêmeo que morre na batalha da conquista do planeta Pandora, o “novo mundo” com habitantes desconhecidos e, provavelmente primitivos, sem tecnologias e máquinas que só os Norte Americanos podem ter ao patamar do avanço tecnológico que chegaram. Ele, como Neo, new hero, entra em uma realidade virtual (ou sai de sua realidade realmente virtual) para combater as forças do mal – que, não por acaso, são seus semelhantes.
Grace não é mais sua amante, Rose, mas sua parceira na aventura - tão extraordinária que deixa os mais atentos à espera de um final mais bem ajustado à condução que é dada em todo o roteiro. Final feliz não convence nestes filmes de aventura pós-modernos, e especificamente neste filme reflexivo. Mas veremos, ao fim desse texto, o porquê dessa falha em uso de "artifícios clássicos" em filmes que se pretendem politizados em relação ao status atual da compreensão da realidade (levemos em conta que essa “realidade” é construída em simbiose na elaboração de um mundo através das artes de entretenimento, que são estes filmes bastante difundidos e líderes de bilheteria, como este último de Cameron).
A realidade em Matrix, ou em Titanic, ou em Avatar, são realidades criadas, e perfeitamente aceitas como criação. Faz parte do filme, da estorinha a criação de tal realidade. Tiremos, por enquanto, Titanic desse argumento, pois teríamos que nos estender até filmes como Duna, Blade Runer, ou edificações épicas, históricas da década de 80 com ares futuristas, na tentativa de compreensão desse “passado-presente”, ou, a falta de tempo histórico alegórico que podemos ver em alguns dos melhores filmes já feitos por autores que se elevam nesse título, tal como Laranja Mecânica (Stanley Kubrick), ou Terra em Transe (Glauber Rocha). A convicção de que o que vemos na tela é mentira não é mais discutida, em suma. Matrix, como uma pedante-matriz dessa pontuação a respeito do virtual, deu a deixa para Avatar, em um mundo atual que jogos de vídeo-game tornaram a interação entre homem e máquina algo que chega ao topo aterrorizante, de inércia e inadequação de certos tipos sociais que vão dos "nerds" aos épicos adolescentes ávidos por grana. Enfim, o social se extingue – entramos na era virtual, em que só se consegue ver, ouvir, entender o que se vive, o que se experiencia, tomando uma pílula, ou entrando em uma grande máquina que o leva a outra “realidade”. Isso tudo é também uma grande metáfora ao que o cinema e seu dispositivo clássico nos providenciou, desde sua criação. Sentamos, e entramos em outro personagem no processo de identificação, tal como Jake faz na sua entrada ao avatar azul, e tal como Neo ensinou a todos os espectadores contemporâneos.
A jornada de Jake é simples – salvar um mundo. Simples porque ele não precisa salvar lutando com suas mãos, ou corpo, que aliás é debilitado. Mas porque ele tem a capacidade de entrar em um personagem que é praticamente perfeito, inventado, que, afinal, até a mãe natureza do planeta azul, Euwa, reconhece em perfeição. A criação humana, ou, da ciência genética norte-americana, ou, terráquea, é simplesmente melhor, mais bela e sedutora que a da própria natureza daquele mundo e seu equilíbrio. Isso se vê na parte final do filme, em que o herói consegue, com um cochichinho no ouvido da árvore sagrada, mobilizar todos os seres vivos de Pandora contra a invasão de seus muy amigos norte-americanos. Tal politização inverossímil é mágica, bonitinha, fantasiosa e ridícula – da maneira que o mediando espectador adolescente quer ver, ao sentar em sua poltrona à procura de simulacros purgantes cheios de tiros e violência.
Há uma paixão – tem que haver - , entre o herói, um jarhead, um soldado raso e estúpido, um pau-mandado de uma estrutura que possui dois grandes chefes, mandantes: um coronel ao estilo do exército de Dr. Srangelove (Stanley Kubrick), e um pequeno-capitalista com cara yuppie, novo emergente em sua classe, e provocador da ciência que rentabiliza, observadora e curiosa atrás de certos minerais valiosos. Uma cientista do sexo feminino surpreende na estereotipagem – a volta de uma Sigourney Weaver caçadora de alienígenas (ver a trilogia de Alien, dirigida por Ridley Scott). Essa cientista é também pesquisadora, professora de inglês para os nativos azuis, e intelectual que produz conhecimento acerca da tal realidade que assistimos ali, em Pandora - mais uma vez, em filmes contemporâneos, a natureza é bela e feminina...
Nesse contexto de exploração norte-americana, que e também a ocidental que devastou o real novo mundo das Américas, matando nações indígenas, ou povos originários, que eram vistos com a lente desse filme, a luta entre colonos e colonizados se configura. Sim, eram alienígenas, os índios, os Mayas, os Astecas, Tupis, Tupinambás, Guaranis, etc. E não tinham alma – segundo o cristianismo, que inteligentemente, ou não, foi retirado de Avatar. Enfim, religião verossímil só a capitalista modernizante de uma tecnologia surpreendente, “criadora de realidades”.
Em suma, quem vê o filme espera por um desfecho que seja mais realista, paradoxalmente – pois o ponto está aí, na questão do realismo em filmes absurdos. Nada de absurdo no filme, aliás, é esticado. Tanto os personagens mais críticos quanto os territórios escolhidos para serem explorados (em geral, um planeta inventado), possuem suas raízes em uma vertente mais realista e revisora de guerras proporcionadas pelo único país imperialista em termos capitalistas atualmente – os EUA. Jake, o herói, é um guerreiro, ou soldado, que veio de lutas na Venezuela, país que, na década passada, teve o que podemos chamar de “pendenga” com o país de Hollywood – contra Bush e sua guerra contra o Terror no Iraque, em povos árabes (também alienígenas). Em toda a América Latina, hoje, existem nações indígenas que tiram quem vive pacificamente e feliz em seus lares do sério, já que esse continente parece ser “absolutamente” ocidental. A guerra, portanto, contra o Terror do desconhecido seria hilária, se não tivesse seu lastro real. É esse lastro que emociona no filme.
Podemos citar uma só obra, que, caso Cameron tivesse ligações afetivas com cinematografias "exóticas" do "terceiro mundo", poderíamos ter visto algo mais surpreendente em termos de realidade fílmica em Avatar. É a obra Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos. Lá vemos a mesma virada narrativa: um ocidental (francês) é capturado pelos indígenas, e é apresentado à cultura “primitiva” por uma linda nativa. Ao fim, ele é comido pela tribo, tal era o costume ritual, posto em caráter de ironia no filme da década de 70 do Brasil. Porém, é demais aceitar que o patriotismo norte-americano consiga sair de sua cultura para criar realidades, ou realidades virtuais estranhas em filmes. E isso chega a ser impressionante, para não dizer inaceitável, em um filme que custa milhões de dólares – que são repostos e triplicados pela bilheteria mundial (mundo esse que é rejeitado pela indústria do entretenimento em conteúdos e significados, mas prontamente seduzido quando se vêem os números das bilheterias).
Em termos, o alienígena no filme vence, mas só por causa de um herói americano, soldado: o idiota que toma consciência na condução narrativa. E é essa a tarefa pedagógica do filme, que puxou, e puxa, milhões de espectadores com seu processo de identificação metafórico – o herói que assiste a tudo sem usar suas pernas, movimentando-se e concluindo suas tarefas apenas pelo pensamento (tal como nós no cinema), e a heroína inteligentíssima e com experiência incomum, sacrificada no processo. Nada mais primitivo do que uma imensa produção hollywoodiana, by the way.
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