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Dzi Croquettes, as internacionais

Sobreviver aqui no Brasil não é tarefa para qualquer um. Quem se atreve a mergulhar no trabalho artístico, se mete em uma aposta quase igual a jogar na loteria. E quem se metia com arte, na década de 60, tinha plena consciência disso, não só porque se vivia tempos autoritários. Temos que concordar que nosso país foi, e é extremamente conservador no quesito artístico, e faz parte de qualquer cabeça mais inquieta essa reclamação. Ele foi, e é retrógrado em arte por diversos fatores que parecem extraterrestres, mas que passam pela incapacidade das famílias - arraigadas na presença da moral, da autoridade, da economia primitiva -, de entender que para que haja liberdade poética é indispensável uma atenção a estes artifícios simbólicos de nossa multiculturalidade inovadora.

Pois bem – diante desse contexto, surgem artistas rebeldes em manejos surrealistas, e corrompem algumas atenções presas ao moralismo. Artistas, aliás, fora da classe média que não sabe comprar outra coisa que não seja as músicas e shows engarrafados. Dzi Croquettes, grupo liderado pelo coreógrafo “importado” dos EUA Lennie Dale, contradizendo o último período que escrevi aqui, se tornou tema resgatado de um documentário produzido pelo Canal Brasil esse ano. Arrancou lágrimas de vários nostálgicos, diversos ansiosos pela liberdade sexual no Rio de Janeiro e em São Paulo. Este filme, inesperadamente se tornou indispensável para quem quer conhecer a cultura brasileira em geral, e entender porque o carnaval por aqui é imenso e grandioso. Ganhou mais de 10 prêmios pelo mundo, sendo um dos documentários brasileiros que mais tiveram êxito fora do país.


Lennie Dale foi parceiro de artistas famosos no Rio, influenciou Elis Regina, trocou idéias com o tropicalismo de Gil e Caetano, Hélio Oiticica, teve correspondências espirituais com Gal Costa e os Secos e Molhados de Ney Matogrosso, alavancou uma cena carioca que parecia meio sem esperanças diante do aprisionamento da tradição, família e propriedade. Foi relembrado por Liza Minnelli, Jeanne Moreau, explodiu como dançarino no espetáculo Dzi Croquettes na França, Itália e Inglaterra. Morreu tragicamente pela doença que rendeu o movimento gay iniciado pelo Dzi, a AIDS.

O grupo surge na Lapa, e era formado por 13 artistas. Eles diziam não ter sexo, mas eram homens – todos magros, fortes, esbeltos em movimentos, clássicos em depravação. Poliglotas, o texto do espetáculo passava pelo português, inglês e francês, daí a internacionalidade. Misturavam teatro, coreografias dificílimas, comédia grotesca travesti, loucos cenários, e cultura popular como quem mistura sal com açúcar e faz um doce salgado agradável ao paladar mais exigente. Era o escracho, comum ao udigrudi brasileiro, demonstrado nas linhas do mais avançado teatro do mundo.

O documentário, feito por Tatiana Issa, filha de um dos agregados ao grupo, mostra a história que foi vista como núcleo de várias expressões, várias atitudes do desbunde carioca da década de 80. A palavra Tiete, vem do Dzi. Também a irreverência sexual das chacretes, das Frenéticas, do grupo Azdrubal Trouxe o Trombone, enfim, são inúmeras as incorporações dos Croquettes. Suas apresentações eram sempre um festival carnavalesco de fantasias e deboches com o público pagante – que, diga-se de passagem, adorava as esquetes gays dos rapazes seminus do palco. Dizem algumas línguas mais “entendidas” que muito da Rede Globo saiu daquele núcleo artístico gay, que literalmente aloprava no uso do corpo como objeto artístico. Jorge Fernando, Miguel Falabella, Marília Pêra, Beth Faria, dão depoimentos emocionados de como aconteceu aquilo naquele momento do país, algo mais do que surreal. Completamente incorporado pela cultura de massa, mais tarde, o movimento era algo meio sagrado em sua profanação, da mesma maneira que vemos a brincadeira carnavalesca.

Muito existia por trás do Dzi Croquettes, e para saber temos que ir mais fundo. O documentário nos traz as lembranças, recontando histórias da vida dos rapazes que escolheram a arte para abrir a cabeça do país. Escolheram a maneira mais difícil, pois passaram por dificuldades das mais duras – o que não os deixou infelizes, pelo contrário, estavam sempre com sorriso no rosto. O que Lennie Dale viu no Brasil? Que magia o contagiou, o trouxe a esse lugar árduo com qualquer avant garde? Aí se instala a contradição. Talvez por isso foram esquecidos por tanto tempo.

Aliás, o grupo assume a contradição como início de discussão. Não existe nada de distanciamento do público e dos artistas, porque todos ali no teatro são artistas. Não existe dicotomia entre a arte popular e a arte erudita, porque em qualquer lugar do mundo ser erudito é também ser popular. Pior de tudo, não existiria nem mesmo a diferença entre os gêneros, pois “não somos nem homens nem mulheres: somos gente”. Daí se vê a barra para encontrar lugar à militância homossexual, em espaços tão pequenos de atuação. Tiveram que ir à Europa, passar alguns anos por lá, para voltarem ao Brasil e inventarem seu jeito de viver de uma maneira mais livre. As imagens que temos no filme, aliás, vêm de uma TV da Alemanha, já que, por aqui, ninguém conseguiu gravar o espetáculo.

Fica para a história do mundo, essas “internacionais”, do cabaret idiossincrático, das vaudevilles constantes, dos travestis incorporados, do espírito gay coordenado pela natureza feminina da década de 70 e início de 80. Uma revolução espiritual condenada tragicamente pela falta de compreensão dos mais convictos moralistas.


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