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Produção de Life of Pi mostra a criação de deuses contemporâneos no cinema |
(título brasileiro: As Aventuras de Pi, 2012) O cinema faz tratos com Deus sempre que foi cinema. Os grandes épicos flertam diretamente com aquilo que a entidade teria nos criado numa linguagem comum – de Intolerância, Griffith, passando por Alemanha Ano Zero, Rossellini, até em Tabu, Murnau, ou Idade da Terra, Glauber Rocha. Citações aleatórias, mas completamente distintas umas das outras – filmes distantes. Isso pra não falar dos épicos propriamente religiosos. O cinema, sem dúvidas, em todas as suas linhas, vertentes, escolas, linguagens e experimentos, brinca com (de) Deus ou Deuses. Simplesmente, nos avisa que não mais a fala, não mais a simples expressão gestual, não mais o comum faz parte do que chamamos de realidade. Enquadra-se o real, divide-se a percepção, cria-se uma história para, poética ou pedagogicamente, nos mostrar expressões divinas da vida.
Tocar essa manifestação divina, pra alguns, parece ser
espantar-se com a própria realidade gravada. Em outras palavras, dizer algo
como: “mas isso existe mesmo?”. O espanto, mais que filosófico, é também de um
nível poético, criativo, que nos eleva à condição de um espectador que dialoga
diretamente com o diretor, ou com o filme – a falta de atenção, a dispersão, o
tédio seriam o movimento contrário a esse diálogo direto. Há várias maneiras de
se espantar o público...
***
Em certo momento, o jovem herói Pi grita para nós,
plateias do mundo inteiro, frases de apresentação do espetáculo – uma metáfora
auto-reflexiva, uma citação ao que vemos sem acreditar: “senhoras e senhores,
agora, diretamente vindo da floresta, o grande espetáculo, aquilo que todos
estavam esperando, o grande, inacreditável, Tigre de bengala!”. A partir daí o
filme é “ação”.
Dá pra acreditar no espantoso, não é difícil. É como
acreditar em Deus, ou Deuses – eles nos provocam a imagem do abismo, do
desconhecido, daquilo que os seres humanos temem ser a causa da morte... Mas
não seria justamente esse medo - a vida? Espanto.
É costume de um povo diferente da linha ocidental, esta
que criou o monoteísmo, buscar o entendimento da morte na própria vida. O cristianismo
nos diz, simplificando, “o filho de Deus deu a vida (encontrou a morte) por
nós, não precisamos mais fazer isso cotidianamente”. Tem essa razão no
sacrifício diário, de identificação em um deus pregado na cruz, morto pelos
próprios homens, ambiguamente esquecido pelo grande Deus das escrituras
sagradas, Javé. Ele morreu, e nós vivemos por esta causa. A limitação cristã é
criticada por todas as outras religiões quando estas a denominam como “religião
abstrata”.
O crescimento do personagem heroico, Pi, se dá quando ele
confronta o seu Deus procurado. No filme, as forças da natureza são expressões
divinatórias, estas que não estão nos homens. Perspectiva oriental – e nossa
também, no fim das contas.
A vida, junto ao medo da vida, cria. Transforma a realidade
em sonho, tal como a sempre citada magia do cinema. Em uma situação liminar,
nós ali olhando para um Tigre asiático, tememos a morte. O ocidente, enfim,
morre mais uma vez. Aos poucos.
***
Nosso espanto se dá com a proximidade da morte, com a
descrença, com a força de um garoto (Mogli?) em frente ao perigo. Ele deseja o
perigo, caso contrário não estaria vivo. Ele parece ter provocado o desastre do
navio que levava sua família ao Canadá (Titanic?). Ele convive com a morte, com
o desastre, ou, melhor dizendo, com aquilo que pode levá-lo à morte. Prefere
assim, pois caso contrário encontraria o grande fosso que o levaria ao
definhamento – a denominada pulsão de morte, pelo ocidente: o niilismo.
Com o tempo Pi ganha poder diante da natureza. Ele, aos
poucos, a compreende majestosamente, com a mesma grandeza da catástrofe.
Percebe que também é natureza, e que há uma linguagem comum (não humana) que
combina aquilo o que ele dizia ser de Deus. Há um ir e vir, há tempestades e
bonanças, há vida e morte em luta e em diálogo. Seu tigre, chamado Richard
Parker (nome de um antropólogo estadunidense brasilianista colocado
ironicamente no animal), é aquilo que ele identifica nele mesmo. A troca se dá
aos poucos entre a violência selvagem e uma adequação, domínio dessas forças
quase incontroláveis. O Tigre só é amigo quando está debilitado, caso
contrário, sua natureza é a da violência.
É a violência, uma pulsão certeira contra a morte. Violência
esta, quando domada, serve aos intuitos mais certeiros, mais... “divinos”. A
humanização da natureza nos produz não apenas um perspectivismo em relação ao
velho humanismo. Ela pode, e certamente vai, nos colocar no devido lugar dentro
do cosmos. Afinal, humanizar algo bem mais forte que o humano é, na verdade,
fazer o movimento contrário – naturalizar aquilo que entendemos ser da
linguagem humana.
Domar o tigre, enfim, é domar a guerra. Domar os
instintos. Dominar a natureza, sabendo de sua potência destrutiva monumental.
Foi essa a estratégia da modernidade, mas a tonalidade pedante ocidental acabou
criando um equívoco. Não somos, nós humanos, o centro do mundo.
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