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Christopher Nolan no set de filmagens de Interestellar |
O jogo de Christopher Nolan é outro – mesmo dentro do gênero épico. Ele
elabora um roteiro que nos traga a brincadeira de criança que é a lógica, e
falta dela. O herói americano tem que estar em todos os métiers. Afinal de contas trata-se de uma contemplação imperial, de
uma tentativa de convencimento do mundo inteiro que quem está na frente de
todas as corridas interesterales, ou, filosóficas, são os EUA. Stanley Cavell
nos dá a chave para tais jogos de linguagem, que remontam a um tipo de positivismo. O filósofo perseguiu por muito
tempo uma teoria do filme, aliada à cognição e o conhecimento lógico, em que tanto o melodrama quanto
a comédia provocariam um sentido afiado do que se forma dentro da vida moral Americana.
Como se essa vida norte-americana fosse a perspectiva central do que se vê no
mundo...
Nada que aparente estar dentro do roteiro lógico (chamamos assim porque ainda
vamos chegar no “ilógico”) é passível de ser chamado de gratuito. Nem mesmo uma espécie
de dinastia metafórica numa família comum que não se adapta ao largo geral do
sistema social, e por isso vive isolada em sua plantation como operários, ou
melhor, campesinos pós-modernos, liderada por Cooper.
Pois é, depois de ter desistido há muito tempo de seu “dom”, “vocação”, vivendo na sua fazendinha caipira, o
protagonista Cooper é designado no eterno retorno da percepção universal
(porque não dizer, adaptada à conjuntura econômica que também é cristã, pois
messiânica) a navegar uma nave espacial rumo a um lugar que “Eles”(they?)
mapearam. O planeta terra, em crise, em seu final de vida, não aguenta mais
tanta apatia dessa vida exploradora em relação a ele próprio – e quem é que
aguentaria um ser vivo como um explorador comum feito Cooper, modelo de nossa
aventura? Ele deixa, por causa da vocação do eterno retorno do roteiro ainda
lógico, sua filha e família, é um monocultor… Sabemos o que a monocultura é, hoje em dia, e como ela afeta o fator do aquecimento global. Isso não está
claro na história do filme, mas, certamente, Cooper, e sua apática família,
representam o que de menos politizado existe na sociedade norte-americana: aquela cultura red neck, ou, sem preconceitos, a anti-cultura interiorana exploradora
da terra (land). E, também, da Terra (Earth).
O filme começa a ficar ilógico (sim, sem lógica alguma) só quando entra em parafuso total no escuro
vivo. No vácuo, com sérias rememorações de Kubrick, a aparente teleologia se
perde em metáforas de planetas que representariam também mundos subjetivos de
alguns personagens – ou, personalidades - , sem qualquer ligação com uma aparente diegese... Mais uma “lição”: o planeta Terra
morreu, ou, morre, porque é também uma subjetividade geral destes exploradores
mortíferos tão alienados e eleitos como os seres mais perfeitos do universo. No universo, minhocas e um grande buraco negro também surgem como
personagens que revertem completamente a linha narrativa que nos guia, chegando ao exagero da pequena farm em formato circular ao fim do filme. Ironia que chega ao ridículo ou apologia do passado?
Eles (they), aquelas entidades que teriam dado todas as pistas do terreno da novidade
que é o inexplorado, não são os “outros”. São, simplesmente, e sabemos isso
somente ao fim do filme, os próprios norte-americanos interioranos heróis
gerais da pátria e salvadores do universo. Eles que voltam do futuro. Eles que salvam tudo. Eles que põem um buraco negro no meio do caminho. Eles que desenharam, arquitetaram, absolutamente, sem dúvida alguma, tudo o que se conhece e se vê.
Filme Ilógico, porém, extremamente, gigantemente ideológico.
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