Pular para o conteúdo principal

Aquarius - Kleber Mendonça Filho

A sensibilidade do filme Aquarius é de tocar em assuntos que são de debates políticos viciados - tornados inclusive fetichizados - , e mostrá-los de uma maneira como se fosse a primeira vez que experienciamos aquilo. Uma orgia com Wesley Safadão; um papo da juventude reacionária filha da casa grande racista com a protagonista; uma invasão do cotidiano evangélico e religioso em nossa privacidade; a dificuldade em remontar a história de escravidão do trabalho doméstico...

A própria Clara é uma remanescente da casa grande, óbvio. Ela tem a experiência da ocupação dos espaços por uma "nova direita" que, pior que a velha, é agressiva na adaptação ao mercado. Tudo o que é viciado no olhar deixa de ser "discutível". O filme então pode trazer aos que se beneficiam do mercado imobiliário, das igrejas pentecostais, da exploração do trabalho doméstico, do mercado de músicas "pancadas", portanto, um outro olhar sobre isso tudo. É como se estivéssemos vendo tudo o que nos é muito comum pela primeira vez.
Sônia Braga, personagem principal, já foi a Dona Flor, A dama do lotação, a mulher aranha, já passou por filmes internacionais, pelo Oscar, pelos festivais europeus, parou metaforicamente numa data anterior à que temos vivido. É assim que também vemos Clara, protagonista de Aquarius. Há aquela recusa que se percebe em alguns remanescentes do vigor de uma época de revolução cultural atualmente. 
Aquilo que acontece em Cannes este ano só vem a juntar mais força ao filme. Mesmo Sônia, como se vê na foto, tentou chamar atenção para o que acontece no ambiente político-institucional no país. A história, sempre irônica, mostra Sônia no papel de um gênero (o feminino da geração de Aquário) sendo levada pela opressão masculina-coronelista a sair de cena. Real, ficcional, imaginário, tudo se coaduna nesse ato político do festival.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

A Última Floresta - Luis Bolognesi e Davi Kopenawa

A imersão de Bolognesi nos temas indígenas, em seus últimos filmes, demonstra que quando o cinema dá atenção a isso, algo se revela. Parece ser um caminho sem volta. Uma estrada sem fim. Mostrar, em imagem, os temas indígenas, tem força de revelação, sim - mas também de reativação com discussões antigas. O que faz aquele que se chama de "indígena" um caso particular. Não se fala de uma humanidade, de um humanismo nos termos que antes das colonizações de falou. Estamos diante de uma questão, um dia chamada "indígena". Estamos diante, portanto, de algumas questões que envolvem afetos e sentimentos que nos forjam como pessoas ligadas ao subjetivo indiretamente violentado e assassinado pelo contato interétnico das interiorizações do país. Davi Kopenawa tem sido um dos maiores lutadores, desde os conflitos com garimpeiros nos tempos de Serra Pelada, e também, como não dizer, na briga que ainda se vale de gritos e falsas informações sobre as terras yanomami entre Roraima ...