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03/09/2004 Moradores de rua discursam: um dia histórico na Câmara Municipal de SP por ALCEU LUÍS CASTILHO Cinqüenta e quatro das 55 cadeiras utilizadas pelos vereadores paulistanos foram ocupadas nesta quinta-feira por representantes das pessoas em situação de rua, na Câmara Municipal. Uma vela foi acendida na mesa do plenário, em homenagem aos seis moradores de rua assassinados a pauladas ali bem perto, na região da Praça da Sé. O hino nacional foi tocado e teve seu som interrompido na metade. Todos continuaram cantando. Eram sobreviventes. Cerca de 15 deles empunharam o microfone e falaram - seus discursos serão publicados no Diário Oficial do Município. Falaram sobre a chacina, contaram como vivem, cobraram do poder público, da sociedade e da mídia ações sistemáticas em relação à população de rua. Emocionaram-se. Ganharam aplausos. Alguns falaram apenas uma frase. Outros, discursos com direito a citações da mais valia, o conceito marxist...
Não é que a arte moderna não fale nada, ou apenas queira o nada, ou talvez não queira contar acontecimentos. Perceba, quando uma história moderna é contada, algo de fora quer ser chamado naquele momento em que o contador e o ouvinte estão dialogando (um falando e outro esperando). Enquanto o narrador fala, fala, fala, fala, fala, o espectador ouve, ouve, ouve, e perde a atenção de vez em quando. O problema talvez seja essa atenção dispendida, e massacrada, durante a modernidade. Se você que gosta de obras clássicas, vê um Picasso acaba não só xingando, como dizendo que é uma falta de respeito comprarem um quadro dele por milhões de US$. Justamente, exatamente, essa era uma das intenções, e o espectador entendeu sem saber. O envólucro da obra vem com ela - esse é o mundo no qual ela foi feita, como um arranhão, por exemplo, na tela que fica pra sempre. Esse arranhão é a falta de compreensão do mundo, a dificuldade em se estabelecer um dispositivo que deixe todos à parte do que "aco...

Espetáculo #X

Juliana Paes, pessoa que ganhou muita notoriedade na mídia nacional devido àquela novela chamada celebridades, hoje ganha outras coisas com sua propaganda da antártica. Assim funciona a venda de seu capital simbólico acumulado. Juliana espetacularizou-se, logo após vendeu-se para a antártica. Até onde vai a realidade de Juliana? Pergunto: até onde a pessoa que vemos na propaganda comercial é Juliana Paes Leme? Já conhecemos todo seu corpo - ele está na internet, quem quiser que o procure. Já conhecemos sua voz. Já sabemos até, se procurarmos nos aprofundar na personalidade de sua atuação, como ela pode se comportar em determinadas situações. Ela mesma aparece em programas para exibir-se em carne e osso, não como personagem. Mas até onde podemos dizer que Juliana é Juliana? Não há problemas nisso. A escolha é justamente em desumanizar-se para tornar-se algo que não se deu outro nome, a não ser um corpo que, subjetivamente encarna devido tipo e continua até onde seus movimentos, suas po...
ANTROPOFAGIA Esta rama demasiado olvidada de la antropología, la antropofagia, no se muere; la antropofagia no ha muerto. Hay, como se sabe, dos formas de practicar la antropofagia: comer seres humanos o ser comido por ellos. Hay también dos maneras de probar que uno ha sido comido. Por el momento sólo examinaremos una: si La Patrie del 17 de febrero no ha disimulado la verdad, la misión antropofágica enviada por el diario a Nueva Guinea habría logrado un éxito total, tanto que ninguno de sus miembros habría regresado, excepción hecha, como corresponde, de dos o tres especímenes que los caníbales tienen la costumbre de dejar con vida para encargarles trasmitir sus saludos a la Sociedad de Geografía. Antes de la llegada de la misión de antropofagia, es verosímil pensar que, entre los papúes, esta ciencia se hallaba en pañales: le faltaban los primeros elementos, los materiales, nos atreveríamos a decir. En efecto, los salvajes no se comen entre ellos. Más aún, se desprend...

Casa de 6 milhões de reais

Foi quando eu vi em uma emissora de tv , se não me engano na record, um programa que falava de uma casa que custava não menos que R$ 6 milhões. O que acontece: eu achava, de verdade, que isso não podia existir aqui em um país como o Brasil. Não sabia que existiam pessoas com tanto dinheiro pra gastar em uma casa, somente - sem móveis nem nada. E ainda mais, não uma só casa, mas um apartamento, com 3 andares, elevadores para cada quarto e banheira de hidromassagem em todos, com programação via celular do início do banho. É sim. O cara ligava e já programava a banheira pra quando chegasse a água estivesse quente e o chão do banheiro em uma temperatura agradável. É sim, até o chão se aquecia. Não bastasse eu assistir a esse absurdo na tv , ainda me vem a apresentadora do programa que fazia propaganda da casa, sem dizer qual era a construtora - na verdade um programa de variedades que apenas também se via chocado com a imensidão do apartamento e o custo dele todo, mas se chocava não pelo m...

A respeito da esquizofrenia...

GUY DEBORD Capitulo IX A IDEOLOGIA MATERIALIZADA A auto-consciência existe em si e para si quando e porque ela existe em si e para si para uma outra auto-consciência; ou seja, ela não existe enquanto não for reconhecida. Hegel - Fenomenologia do Espírito 212 A ideologia é a base do pensamento duma sociedade de classes, no curso conflitual da história. Os fatos ideológicos não foram nunca simples quimeras, mas a consciência deformada das realidades, e, enquanto tais, fatores reais exercendo, por sua vez, uma real ação deformada; na medida em que a materialização da ideologia na forma do espetáculo, que arrasta consigo o êxito concreto da produção econômica autonomizada, se confunde com a realidade social, essa ideologia que pode talhar todo o real segundo o seu modelo. 213 Quando a ideologia, que é a vontade abstrata do universal, e a sua ilusão, se legitima pela abstração universal e pela ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna, ela já não é a luta voluntarista do parc...

Artaud

A Dança do Peiote A possessão física continuava aí. Este cataclisma que era meu corpo.. Após vinte e oito dias de espera, ainda não tinha voltado a mim - ou melhor dizendo, saído até mim. Até mim, esta montagem deslocada, este pedaço de geologia avariada. Inerte como a terra com suas rochas - e todas essas fendas que correm pelos estratos sedimentares empilhados. Quebradiço, é claro, eu estava, não em certos lugares mas por completo. Desde meu primeiro contato com essa terrível montanha que certamente levantou barreiras contra mim para impedir-me de entrar. E o sobrenatural, depois que estive lá, não me parece mais ser uma coisa tão extraordinária a ponto de eu não poder dizer, no sentido literal do termo, que fui enfeitiçado. Dar um passo não era mais dar um passo; era, para mim, sentir onde levava minha cabeça. É possível compreender isso? Membros que me obedecem um depois do outro, que avançam um depois do outro; e a posição vertical sobre a terra, que é preciso manter. Pois a ca...