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Apontamentos para uma visão dos filmes de Woody Allen e Charles Chaplin sob a ótica sem a estagnação semiótica

Um personagem como Carlitos, todo vestido ainda à moda da belle époque, com uma bengala e chapéu côco, andando pela rua em busca do nada, só mesmo naquele tempo. Chaplin pega um “vagabundo”, porque bêbado seria demais pra um cinema incipiente, em busca de algo que ninguém sabia.

Outro com óculos grandes, inseguro, judeu, que não vive sem cheirar um pouco de psicanálise, transita em nosso mundo mais moderno. Agora é Woody Allen, inclusive abusando das palavras ausentes em Carlitos pra compor a incompreensão de um mundo “em expansão”. Enquanto Chaplin, apesar de não procurar nada com seu personagem vagabundo, era mais seguro no mundo em seu cinismo, Woody Allen, se for seguro alguma vez em seus filmes é com sua insegurança. Os dois possuem um traço em comum, que é uma rejeição dos homens em relação à esquisitice deles – uma das causas da comicidade. Mas Charlot, o dono do mundo, é por causas econômicas e sociais. Ele até que tenta trabalhar no mundo moderno, mas não agüenta, não se encaixa, não se reifica, não consegue se adequar. E essa não era sua intenção: ele até que queria se adequar, mas o mundo não ajudava.

Carlitos, no preto e branco do contraste antigo e clássico, nos passa a idéia de que conhece tudo: todas as esquinas, todas as pessoas que aparecem a seu lado, e de todos os acontecimentos. Não há acontecimento que seja inesperado, está tudo sob controle. Ele se apaixona, mas não entra em caminhos tortos. Ele é o certo, o direto, e mais conciso, com forte pesonalidade – assim como Chaplin, seu criador. Mais: ele é o aristocrata vencido pela modernidade - um vagabundo ocioso, que não se adapta ao mundo da velocidade, dos normais vencedores, diferente de seu autor criador.

Woody Allen não se segura, sempre se arrepende, não sabe o que fazer em situações de risco. Em uma cena de Annie Hall (traduzido como Noivo Neurótico Noiva Nervosa, ou o contrário, isso não importa) o personagem principal, Ivy está na Califórnia, Hollywood, pra ele um lugar imbecil, tentando pela última vez se reaproximar de Annie. A conversa não é boa, é um dos momentos em que mais vemos a incompreensão entre os dois... Annie já está com outro, e não aceita o pedido de casamento de Ivy. Ela diz pra seu antigo parceiro: “Você é como New York, vive numa ilha, não precisa de ninguém”. Mas se não fosse Ivy ela mesma não teria percebido uma interioridade talentosa, e mais segura (é incrível como a insegurança de Allen é a mais segura de todas, e contagiante nos personagens que o rodeiam, pois eles gaguejam de verdade). Diante da insistência, Annie dá adeus a Ivy, no cume da discussão. Nos toldos do bar onde discutiam, está escrito: Ciao, Adieu, Adeus. Ivy sai do café: “Prêmio? Você está atrás de prêmios? Porque o mundo está atrás de prêmios, não acredito...”Adolf Hitler, líder nazista”. Ivy não sabe dirigir. Entra no carro e bate em três outros automóveis com apenas uma ré. Há um flashback neste momento – Ivy adorava furiosamente bater em outros carros no bate-bate. Chega o policial.

“Posso ver sua licença, por favor?”. O personagem de Woody Allen tem sempre que lembrar que é Judeu, que, não se sabe porque, mas não está em sua terra, e que todos estão contra ele por isso. Essa paranóia faz com que ele diga pra o guarda, não sem gaguejar muito: “Eu estou em um péssimo momento, minha namorada acabou de me dar um fora, não precisa falar assim com esse tom de voz comigo, está aqui minha licença, eu tenho problemas com autoridades”. Ivy Deixa cair a licença, diz que o carro é alugado e que nunca foi bom motorista. O guarda Manda ele pegar a licença no chão. Neste momento, absolutamente inesperado – pra Allen as coisas darem errado é o melhor que pode acontecer para um personagem de humor – nós estamos quase que no lugar de Ivy. Ele rasga a licença como se estivesse subornando o guarda, uma cena que traduz o filme do modo nem que seja com demonstrações de distanciamento da diegese como manobra humorística, ou nem que seja com o brilho dos momentos mais naturalistas que qualquer outro filme que se proponha como tal (ver a atuação de Diane Keaton, a Annie, que em alguns momentos parece ser mais ela que normalmente – algo que em Cassavetes seria a chave, mas em Woody Allen é mais a imprecisão que outra vez nos faz rir).

Comentários

Vagabundo disse…
Ok... fico satisfeito por saberes e propores tudo isto. Para mim é optimo, pois desconhecia a grande maioria dos factos aqui mostrados.

Abraço
Vagabundo

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