
Existiam abismos entre um elegante engomado aristocrata que sorria empinado em seus sapatos lustrados, e um músico mulato pobre de origem incerta que servia de alerta pra uma santa luta de classes. Mas essa luta não existia a não ser no olhar – digo que ela não saiu dos olhares: um de cima pra baixo e outro de baixo pra cima. Mas tudo continuava igual. Mas tudo continua igual.
O mundo que condenou um Noel Rosa, que não teve pena de sua classe média baixa, e que falava sempre mal de seu nome, pra muitos anda mudado. Pra quem não conhece o choro, adianto (ou atraso): estou falando dele.
Tinha algo de samba, ou seja, dos negros malandros ainda nem tanto traficantes, mas um tanto marginalizados. Era a dança mais esquisita que aparecia no mundo recém globalizado – um “molejo”, um passo “errado”... Pá pá pá... pá pá pá... párara pá pá pá.. pá pá pá, párárá pá pá pá... pá pá pá.... ouça o solo da violinha. A dança mostrava a embriaguez, a falta de rumo, um presente infinito, um mundo sem perspectivas, um charme extremamente brasileiro.
Breque.
Não se aprofundou tanto na música negra como no samba – no entanto não se esqueceu na mesma medida, não se deixou mais de lado outro ritmo. Vai ver o reggae, com os negros trazendo percussão pra guitarras americanas pulando com força revolucionária, ou o Blues, impondo a simplicidade na música e a morte por causa de colheitas de algodão e guerras aleatórias. O Blues tinha algo de ocidental, mas era anglo saxão – uma cadência feliz pra mostrar a opressão através de uma ironia. Ora: eram negros sorrindo de tanto chorar...
O samba – canção ou o choro pegava esse traço do colonialismo aqui no Brasil, mas de uma maneira absurda. Era uma lambança que se fazia com os ritmos ¾, quase chegando a deitar no chão toda a melodia, e fazer tropeçar aqueles mais conscientes da tristeza. MAS QUE TRSTEZA?? O choro era mais que isso – e não eram os sorrisos calmos do blues religioso. E quem dissesse tristeza poderia cair no melodrama que hoje ouvimos da boca de “sertanejos” ricos. A tristeza do choro era mais tragédia, melancolia, e, desculpem os mais afixados no gênero, submissão. Só que era uma tragédia barroca, uma manobra crítica que muitos não associam a nada, porque não conseguem entender.
Chegamos onde eu queria. O choro era baixar a cabeça, de maneira gentil e inteligente, para a opressão. Não tinha muita ironia ver um negro como Pixiguinha tocando muito melhor que um branco seu instrumento antigo. O ocidente vencia e o violão mostrava isso. A moderna cadência de acordes com diminutas, a dureza disciplinar de orações árduas laicas demais pra um país católico – longas tardes de treino. O sentimento era, portanto, demonstrar como nós, sambistas, somos eruditos a nosso modo.
Mais que o Jazz, porque não havia improvisação, ao menos a priori. O choro e o samba que saia dos quilombos, dos morros, das favelas, da miséria, de um universo mostrado por Lima Barreto em seus contos e livros, de uma Bahia e Rio de Janeiro fedidos pela falta de progresso – aquele estampado na bandeira havia pouco tempo.
Vejamos a letra de uma música cantada pelo cantor das multidões da rádio extinta, Orlando Silva, numa música que não sabe se fica na tragédia de uma só página da vida, ou se se deleita com o coração sofrido de uma vida sem jeito e cai no amor já esquecido:
Página de dor
Pagina de dor que faz lembrar
Volver as cinzas de um amor
Infeliz de quem amando ao léu
Em vão esconde uma paixão
Lágrimas existem que rolam na face
Há outras porem que rolam no coração
São essas que a rolar nos vem uma recordação
Pagina de dor
Que faz lembrar
Volver as cinzas de um amor
O amor que faz sofrer
Que envenena o coração
Para a gente esquecer padece tanto
E às vezes tudo em vão
Seja o teu amor o mais profano delator
Bendigo por que vem do amor
Sendo o pranto amenidades
Ao tocar minha saudade
Glorias tem o pecador do amor
Lagrimas existem que rolam na face
Há outras porem que rolam no coração
São essas que a rolar nos vem uma recordação
Pagina de dor
Que faz lembrar
Volver as cinzas de um amor
esta é uma das mais impressionantes músicas já compostas das esquecidas pelo nosso país.
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