
Eu fui um cachorro que chegou na cidade e todos os habitantes me acariciaram porque eu sabia fazer alguns truques e tinha um olhar bem sublime e diferente de outros que tinham passado pelas ruas da província. Os truques serviram pra ganhar habitação por um tempo mas nem deu pra sentir todos os cheiros de todas as casas pois umas estavam fechadas e só se via as fachadas. A cidade era nova, e as moradoras bem espontâneas – dançarinas e dionisíacas, outras calmas e pacatas.
A cidade me abrigou por um tempo pra saber quem era esse cão que um dia tinha sido uma pessoa, e porque ele não mais é uma pessoa. A cidade queria saber no início se eu era cão porque queria ou se era assim mesmo – depois enjoou. Açoitou o cachorro e disse: quero coisa melhor, chutando o bicho parasita pra fora querendo limpar suas ruas do pulguento.
A cidade, como toda provinciana, era pacata – mas só vista por satélite. A libido era exalada nas calçadas, nas luzes amarelas que cheiravam a fumaça nas noites em penumbra, e nas músicas agitadas – pops - que as tais modernas traziam da capital – momentos cujo olhar do cão sentia as silhuetas de uma dança que pela ingenuidade, espontaneidade faziam qualquer um seduzido, e se viu também que aquele vermelho da cidade era só visto à noite quando todas as cores se misturavam... A cidade, aparentemente pacata, tinha seu pecado. Como um vírus, o cão latiu em direção ao chão. Ele se viu num mundo impressionantemente novo, e descobria coisas junto das habitantes mais dionisíacas da tal província. Queria, na verdade, dançar com elas – mas como dança um cachorro? Ele apenas observava como era de praxe, e percebia tudo num panoptismo que incomodou a elite da cidade.
Uma votação estabelecida fez com que os prós e os contras da moradia do cachorro na rua fossem colocados no papel. E, como sempre, a instabilidade que o parasita provocava (que já tinha enjoado até, de tanta ladainha falada nessa briga eterna entre a paixão e a razão – o bicho e o cidadão).
Não ficaram claras as intenções de quais atores sociais votaram a favor, e de quais votaram contra. Mas os que ainda achavam que o cão pudesse viver nas calçadas foram os mais libidinosos, corajosos, os menos afetados. Os que votaram contra foram os mais calmos, os senhores da cidade – os mais fortes e donos de muitos prédios que andam em cabarés. Estes, os mais renomados da cidade, os mais poderosos, finalmente acharam por bem tirar esse cão parasita da história.
Eis o trágico já assimilado pelo cão – e ignorado pela cidade inteira.
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