
É verdade que, com a proximidade de junho, os nervos se agitam e o falatório já é unânime, ainda mais quando, como há muito tempo não acontecia, o Brasil parte como gande favorito. Todos seus adversários o temem, os prognósticos sempre o aponta na final, e a euforia sobe a um nível máximo ao deparar-nos com uma safra de jogadores que não se via desde o final dos anos 70, começo dos 80: período da brilhante seleçao do Mestre Telê Santana, composta por Zico, Sócrates, Falcão e companhia. Os Ronaldinhos, Adriano, Kaká e Robinho nos fazem acreditar no título e principalmente no "futebol arte".
Mas nem tudo é otimismo, principalmente ao relembrar-nos da "tragédia do Sarriá" em 82. É fato que sempre quando o Brasil era apontado como favorito (com exceção de 62) não se sagrou Campeão. E não só a canarinho, mas as demais seleções que entraram como favoritas quase nunca levaram a taça para casa. Por isso, até a imprensa faz questão de recordar-nos os maus momentos, como na final de 50 no Maracanã e, claro, 82, Brasil x Itália, Paolo Rossi. O clima do "já ganhou" não é total. É inegável que a nossa memória é fraca, mas não é inexistente.
Inegável também é a esperança do povo brasileiro, seguramente durante o mês da Copa. Toda população já vestida de verde e amarelo estará atenta a todos os jogos da canarinho, ninguém perde um momento, os que não gostam de futebol parecem aficcionados desde criança, os velhos, os mais novos, os pobres, os ricos, todos estao unidos; é um evento além da esportividade, é um evento social. Durante o eterno mês da Copa, essa terra continental assume ares de verdadeiro paraíso. Não existe mais pobreza, favelas, violência; não existem políticos (mesmo com tantas politicagens), não existem problemas. Trabalho? Só no intervalo entre uma partida e outra! Os humildes fazem festas em suas casas todos os jogos, mesa farta, muita bebida, parece que economizaram durante os quatro anos de intervalo por este momento. As famílias se reúnem, as pessoas se conhecem nos bares, restaurantes, na praça ou em qualquer outro lugar que tenha um telão gigante. Todos parecem se conhecer, serem amigos... E a hipocrisia e o futebol compartilham o trono do país.
Mais uma copa está chegando e mais uma vez o Brasil se camuflará de verde e amarelo, escondendo assim as corrupções, abusos políticos, centenas de mortes diárias, a "esperança" desgastada chamada Lula... Camufla-se do verde que já quase não existiria se não fosse a Amazônia americana em terras estrangeiras, o amarelo de um ouro que já se acabou há séculos. Esquecendo do azul da esperança e do branco da paz... Ah! Mas esse é o nosso uniforme reserva...
A Copa do Mundo para o brasileiro é algo além de qualquer fenômeno social, sem dúvida, muito mais que o carnaval. Ela já está institucionalizada e não se pode, nem se deve, impedir, pois, além de tudo, ela é um sopro de vida. É sentir que o "país do futuro" (mas sem presente) pode ser concretizado. O brasileiro mostra toda a beleza, toda a capacidade criativa, de união, de solidariedade que carrega em si, só que o Mundial dura apenas um mês e seja de quatro em quatro anos.
A Copa é um fato. Só nos resta torcer e entrar no clima, tirar de nós o que há de melhor, mesmo que por pouco tempo. Fingir que tudo vai bem, mesmo que no fim, só desempenhemos o papel do antigo império Romano, com seu pão e circo, comemorando diariamente em clima de "bon vivant " esquecendo que o seu governador não passava de um "simples" tirano de um império em decadência.
texto de Roberto Vagner, colega estudante de cinema,
atualmente reside na Espanha, e parece que não vai pra Copa.
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