
O objeto afasta vampiros. Mata os obscuros, afirma as bondades pacíficas que todo o ser humano “precisa” e “quer”. O que foi aqui chamado de adorno, esqueçamos essa denominação, agora nos amedronta pela sua aparente insignificância.
Muito pelo contrário: o crucifixo significa muitas coisas. Na mente cristã que estratifica a moral e assassina o conhecimento, o crucifixo tem a incumbência de fazer a vida ter relevância, diante do hedonismo. Não tem uma força cruzada – não possui mais a forma de uma arma que conquista os atrasados, bárbaros, aqueles que recusam ser civilizados e ainda adoram o pai ditador que matou o próprio filho[1]. Não está nas bandeiras, nem tem o jesuíta para segura-lo. Ele apenas demonstra uma vitória, e os vencedores são os mais limpos discípulos de Napoleão Bonaparte. Sim, pois, apesar de seu ato anti-cristo, ele foi, como Hitler, um reconhecedor do poder clérico.
Não temos como fugir dessa cruz que nos atormenta. Não há mais espaço para os alquimistas e andarilhos, bruxas e ninfas. Nem mesmo para os aristocratas – os vampiros. A cruz molda, forma os cidadãos (citoyens) – ela expulsa a mendicância preguiçosa e elimina aquele que não acredita na neutralidade do homem. Quem pendura o crucifixo hoje tem a completa certeza de que Jesus Cristo não estava nela pra reclamar, lutar, pra subverter, pra revolucionar, pelo suicídio. Eles desumanizam completamente o que por si já era desumano, e a morte se profana para virar um símbolo , um artefato vendável e vendível, que dá força tanto às prostitutas mais tristes, quanto às beatas mais desacreditadas.
[1] Mouros, mulçumanos.
imagem: Annibale Carracci - Cristo aparecendo para são Pedro na via Appia.
"Estou indo para Roma, para ser novamente crucificado"
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