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Carta de um crítico a um artista

Senhor artista.

Desde um tempo que tenho pensado em mandar essa carta ao senhor, que pelo que me parece não consegue largar esse lado meio militante propagandista de suas produções. Desde já falo com a maior sinceridade que isso não mais está sendo visto com bons olhos, nem em países pobres, nem em países ricos.

Inclusive, essa mania sua de querer falar de ricos e pobres contamina qualquer um, inclusive eu mesmo - que gosto tanto de arte. Fico atordoado quando vejo seu altruísmo escandaloso nas suas fotografias da África, ou nos seus filmes em favelas. Na verdade essa sua mania, esse seu vício acaba por nos deixar um pouco sem saídas para um entendimento melhor a respeito de nossa estética de hoje em dia.

Eu não falo de coisas antigas, só estou querendo lhe alertar. Veja bem: houve algo no início da década de 90 que nos abriu os olhos pra uma condição. O muro caiu lá em Berlim. Não sou só eu que falo - muitos líderes mundiais dizem isso. O que antes estava tão claro - essa divisão entre esquerda e direita, hoje não se mostra mais diferente. Você bem sabe disso, sinta com sua percepção apurada.

Depois que o muro caiu, nós entramos finalmente nessa nossa nova era. O novo mundo agora dá os rumos - o velho e a tradição antiga conservadora européia se foi com as guerras. Vivemos em um mundo jovem. Os velhos são jovens. Nós temos muito o que viver e aprender, muito o que se drogar escondidos, muito o que fazer sexo sem sentido. Esse nosso legado da liberdade está aí, você bem sabe disso. Não há mais espaço pra essa militância que quer dizer aos malogrados imbecis o que fazer (O que fazer?). Veja só no que deu Stalin e Mao Tsé. Pior que a liberdade disso que chamam capitalismo. Se há mortes no lado da social democracia, pelo menos não são mortes intencionalmente arquitetadas. Aliás, esse tipo de morte tende a acabar. Vamos viver no tempo da paz - de todo o tipo de paz. A bomba atômica não vai ser jogada, pois ela serve apenas para dizer a todos que o poder do ser humano é infinito - ele é deus, e não é bom mexer com esse lado justiceiro dele (nosso).

Sem esquerda, sem livros vermelhos, sem casacos de generais, sem mais delongas, digo a você, caro artista, que a história finalmente pode parar de ser contada. A partir de agora nós vivemos na constante procura pela paz geral de todas as nações, contra qualquer tipo de guerrilha, ditadura ou totalitarismo antigo. Veja, senhor artista, nossas maravilhas, nossos grandes prédios, nossas infindáveis avenidas e pontes... veja como nós chegamos ao espaço, e como tiramos fotos de lugares onde nunca se imaginou chegar ( milhares de anos luz daqui).

Bem, já alertei o senhor. O senhor é que sabe o que faz da sua vida. Depois não diga que eu não avisei.

Retorno a carta, quando receber sua resposta.

Crítico, 10 de setembro de 2001, 51 andar do Wolrd Trade Center.

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