Pular para o conteúdo principal

Um estranho no ninho - 1975 - Milos Forman

Em Füller, Shock Corridor (1963), o espaço da instituição reformatória manicomial serve de alegoria da sociedade norte americana de uma maneira ácida, própria do diretor. Já neste filme, One Flew Over the Cuckoo's Nest, de 1975, de Milos Forman, diretor checo que continua sua carreira de diretor nos EUA, vemos a repetição dessa alegoria, agora mais sutil.

Dois personagens são os mais significativos na narrativa: o chefe, índio, e McMurphy, o ator Jack Nicholson. Este último um revoltado amigo de prostitutas que parece estar no reformatório para loucos apenas porque é preguiçoso e para um período de observação. O índio, um personagem misterioso, que não fala e permanece em seu mundo isolado.

O visitante, estranho no ninho, McMurphy, é amigável e parece feliz no reformatório - a não ser com os empregados da burocracia da instituição, como no caso da enfermeira psicóloga, Ratched (absurdamente burocrática, pra enfatizar). Ele promove uma verdadeiro motim dentro do manicômio - parece um dos resistentes das mobilizações de 68 contra as instituições. Apesar desse seu poder revolucionário, ele, certas vezes parece triste e decadente em sua intenção subversiva.

Já o chefe, por ser calado, não oferece resistência. Mas há uma empatia entre os dois. Eles se ajudam no jogo final pela fuga rumo ao Canadá, como se ajudavam antes no jogo de basquete. Quando vemos a fuga desse pequeno universo social louco, também alegórico do país, apenas com a morte do personagem revolucionário que vemos uma emancipação.

Vejamos - os índios nos EUA foram completamente trucidados (mais que os negros, porque estes não se revoltavam) durante a colonização. A emancipação do Chefe, portanto, nos mostra como a tentativa de revolução por brancos parece apenas fazer parte do mesmo ambiente do qual a iniciativa indígena não faz parte. Ele apenas deu a idéia para McMurphy, mas logo após percebe que é ele mesmo quem não o deixa sair - talvez por inveja, talvez por alguma razão mais intuitiva no que diria respeito a sua efetividade. Ele , então, segue os passos do revolucionário, mas só após a eliminação desse fantasma de seu universo.

Como já sabemos, qualquer personagem revolucionário como o que Jack Nocholson representa, após a centralização fortíssima de poder de revolucionários autoritários no leste europeu (o mesmo de Milos Forman) acabou dando poucos resultados econômicos e sociais. Ou seja - o comunismo após Stálin e Mao foi completamente deturpado ao personalismo autoritário dos chefes de poder. Parece, ao que o filme indica, que um chefe sem nome - e índio, tem mais razão de ser numa luta social que qualquer nome popular e subversivo politicamente. No entanto, lembremos que sem McMurphy, Chefe não sairia do manicômio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Memória, de Apichatpong Weeraserhakul

  Uma coisa é certa em filmes de Apichatpong: você não se vê no tempo unicamente cronológico. Esse tempo-outro, mais relatado pela indistinção entre o que chamamos de passado, presente ou futuro, nos coloca em um questionamento direto sobre nossa presença no mundo atual. Memória, seu novo tratado (insisto em não chamar apenas de filme uma tese contínua), procura nos evidenciar aquela indistinção. Mas o tempo indistinto, na memória de uma colonizadora - vivida por Tilda Swinton -, mente o tempo todo. Se realiza na ficção, numa espécie de loucura. Por que isso se mostra dessa maneira? Provavelmente porque a racionalidade, o “colocar tudo nos eixos” é alguma coisa muito pouco elucidativa. Esse uso do racional para mostrar o que queremos, ou o que parece ser o “real” já se encontra há muito tempo em crise. Na memória, nós vemos uma profunda escavação arqueológica. Ela nos coloca em questão, como pessoas viventes em uma narração ocidental. Essa memória é capaz de unir a Tailândia com a ...

O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “ Para Além do Bem e do Mal ”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada. Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre...

Don't Look Up - Não olhe pra cima (2021)

Quem não gostou do filme, em particular da história do filme - do enredo -, é um negacionista. Disso não resta mais nenhuma dúvida. Mas, qual será a ordem desse negacionismo que nos cerca? Esse Bolsonaro-trumpismo influente e tão ameaçador que faria, nessa historinha de filme cômico, as democracias e os próprios democratas (se é que há democratas reais no filme) aderirem ao fim do mundo? Sim, se você não percebeu ainda, os negacionistas pretendem o fim do mundo. Seja de um mundo esférico, por uma defesa do mundo plano, seja de um mundo pleno (com E) e vivido pelas multiplicidades de pessoas diferentes. Esses negacionistas que nos atordoam a toda hora na internet, e que um dia foram chamados de HATERS, hoje estão nas famílias mais democráticas de nossas Américas, são negadores tal como aquela negatividade hegeliana que se travestiu ao longo dos tempos com a terminologia "crítica". Está, portanto, aberta a porta dos infernos, a chamada caixa de Pandora, um baú da infelicidade, ...