
O filme acabou incomodando algumas pessoas com o frenesi junto aos planos fugazes e rápidos. Mas é assim, São Paulo. E é assim também a loucura do limiar entre a realidade e aquilo que se sonha. É assim o cinema. Principalmente um cinema mergulhado no passado vanguardista com olhos na natureza distante de nossa realidade seca.
Seca e concreta, brusca, sem saída. Essa vanguarda, nova, essa revisitação às nuances da fotogenia e da natureza que nos assassina e aterroriza. O jeito de se falar em uma arte pela arte hoje é entrar na ciência, na ficção científica – paradoxalmente. Uma poesia parnasiana no meio dos prédios e de um trânsito de carros, um tráfego interminável via a morte.
Não é entediante, mas deixa alguns espectadores brasileiros sem paciência no jogo de esconde e esconde, de acontece e não acontece. Um jogo literário transposto para as telas, que puxou uma bela mise em scéne proposta aos atores, que estão profundos em suas interpretações. Marco Ricca, principalmente, que repete, praticamente, um personagem do filme de Beto Brant, chamado Crime Delicado.
Mas o jogo crítico agora é não com a própria arte, mas com a realidade. Se afundar, portanto, na via láctea de estrelas que nascem e morrem nas avenidas à procura de dinheiro e, ou, impulsionando o caráter humano futurista e mercador – devido o grande avanço tecnológico que a humanidade conseguiu com as viagens para fora da órbita terrestre, mesmo com a pequena cachorrinha da raça Laika no Sputnik. Se afundar nessa ficção não parece ser mais esquizofrenia. É a própria realidade que nos envolve, é a nossa natureza.
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