
Muito mais agora, que suas "regras" foram quebradas. "Nunca montar de maneira ilusória; não colocarás voz over em cenas distintas; nunca inventará ficções para enganar o público - não sejeis Michael Moore!" Coutinho crítico da invenção, da imaginação no filme agora cria.
Mas suas crias, suas criações ficam, ainda, na captação do momento. Ele quer, no fundo, deixar toda a discussão um pouco de lado, e aproveitar o ensejo de atrizes contratadas para tentar captar melhor aquilo que sempre tentou gravar. Isto seria algo que tem proximidade com uma noção de espírito humano, no caso, popular brasileiro.
O popular em Coutinho é óbvio, desde Cabra Marcado Para Morrer. Em jogo de cena ele aparece num estrato um pouco não-convencional - e fora da concepção de classes, muito carimbada em seus filmes anteriores. É a forma que, talvez, ele tenha arranjado para comunicar como a encenação política dos estereótipos é algo que também exclui. Não deixamos de considerar que vivemos em um dos paises com maior desigualdade de renda do mundo - nem nós deixamos, nem Coutinho deixa.
É neste âmbito que o povo, em Coutinho, toma a dianteira. Toma a frente. As mulheres que mais se destacam em atuação ( inclusive uma das histórias contadas que não sabemos qual das mulheres falou, e qual atuou) são as que nunca apareceram na TV, ou as mais, digamos, humildes. As conhecidas Marília Pêra, Fernanda Torres e Andrea Beltrão são questionadas como atrizes populares. Elas não contam histórias, a não ser no modo standislavskiano, algo que é modelo de atuação no mundo inteiro atualmente, e se casa com a Realidade percebida de hoje.
Mas Coutinho sabe, Fernanda Torres também problematizou. Não se pode captar o espírito de outra pessoa a não ser entrando na vida dessa pessoa. Andréa Beltrão fala de sua empregada, e Fernanda Torres fala da história de uma tia (dela, ou da moça que conta a história) que explicou uma depressão com símbolos do candomblé. A vida delas, das que contam as histórias verdadeiras, é distinta das vidas globais. Coutinho já trabalhou na Globo, e o imaginário de símbolos e mitos dessa rede de TV é o brasileiro, formador inclusive do que se chama de povo hoje. É o caso das meninas negras, de favela, quererem ser paquitas da Xuxa.
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