
Pensemos no primeiro negro norte-americano tocando aquele blues. Como não poderia vir aquela imagem de um Skip James? Esse negro que, por causa do trabalho nos campos, teve sua vida sacrificada ao não exercício de uma produção musical constante. E de uma arte que ainda nasceria, uma arte tosca e viril, forte e reveladora de uma exploração própria da cultura americana (violenta desde que o primeiro colonizador pôs os pés nesse continente). Aliás – nem tem nada deste aspecto da cultura americana em geral, a proposta do blues. Não está aqui em questão a singularidade dessa cultura, mas os motivos do aparecimento desse gesto popular, chamado absurdamente de folk (vinda de volk) por conta da teorização filosófica e profunda do romantismo idealista alemão. Está em questão muito mais essa expressão popular como uma tentativa de fuga dos moldes eurocêntricos e teocêntricos que tanto oprimiram a América na exploração da acumulação primitiva de capital – os colonos cruzados junto aos padres catequizadores.
Certo é que na América do norte algo teve de diferente nessa colonização perturbadora. Algo de muitíssimo diferente, já que os puritanos pré-democráticos que fugiam de uma monarquia foram os novos habitantes dessa nova terra. Lá no norte do continente se constituiu uma cultura forte, efetiva, longe de qualquer exagero europeu. Diriam os mais yanques que os melhores ingleses criaram os EUA. Mas só que ali , junto a essa herança profundamente tolhedora dos brancos bretões, ainda, os negros eram o pilar sustentador dessa sociedade que se criava em um novo continente. Assim foi lá em cima, assim é aqui em baixo na America do sul.
Os blueseros, tão protestantes, ou talvez mais que os imigrantes colonizadores, eram descendentes de africanos. Daí vem tanto o blues que derivaria o Rock, quanto o Jazz, que derivaria no movimento hippie – obviamente numa longa estrada mental e literária subordinada ao estilo próprio de submundanos como os pastores da beat generation.
Mas voltemos ao ponto importante aqui neste texto: o bluesero tocava o seu violão com poucas cordas sozinho. Não era um alaúde, como no mundo antigo – era uma guitarra, um violão moderno. E a voz vinha da alma – era o soul. Tanto que Bob Dylan, na revisão pop de um Elvis Presley, com muita ironia, daria a esse popularesco um tom absurdamente poético e vanguardista. E a sua alma se expressaria, em seu primeiro disco, através de músicas que independem de mais instrumentos, a não ser um único violão.
O banquinho e o violão aparecem nesse mesmo contexto americano descrito aqui. Da nova música, assim como as novas ondas. Todas estas ondas - vanguardistas ao longe, já que se propunham modernas ao extremo. João Gilberto tocou, pela primeira vez no Brasil, uma música americana com tonalidade azul, mas também verde, rosa, amarela e negra. A magia estava justamente nesse samba e na síncope do Jazz ajuntados genialmente. E o samba era o blues do Brasil – assim como ainda é. Pena não haver derivativos tão veementes quanto esse folk que foi readaptado e moldado pelos ingleses da working class – como John Mayal, como Eric Clapton, como os próprios Beatles e o rock inglês refinadíssimo. O samba ainda não é compreendido pelo antigo mundo.
Para deixar claro, João Gilberto não tem nada a ver com o blues americano. Mas ele fez o mesmo que um jovem Bob Dylan - reviu a música popular nesse ambiente de vanguarda, de novas ondas, de modernismo, e de muito pensamento sobre o novo rumo que o mundo inteiro deveria tomar com essa globalização proposta pelas guerras.
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