
Documentário de Michael Moore sai de micro para macro-economia
Michael Moore é aquele gordinho chato que aparece, junto à sua equipe de filmagem, em portas de grandes empresas, corporações, da câmara dos deputados, do senado, da White House (casa branca). Ele consegue a empatia de poucos, e o ódio de muitos em todo o continente americano. Por aqui, a Folha de S. Paulo, em “crítica” feita pelo editor do caderno Dinheiro, o jovem Raul Juste Lores, já desestabilizou a recepção do filme chamando-o de “arrastado”. Convenhamos que economistas nunca foram muito bem em estética. Lançado no Brasil na semana passada durante o Festival É Tudo Verdade que acontece em São Paulo, o filme de Moore escolhe o tema do livre mercado e o sistema capitalista – o lucro, o crescimento, a vantagem, o benefício próprio.
Desde o início o recado da película está dentro da disciplina histórica: na comparação com o Império Romano, em cenas forjadas pela enciclopédia britânica, o breve histórico da era Reagan, a entrada do liberalismo na era de guerras de George Bush, o campo de uma nova aristocracia que se forma com o capital financeiro com especulações de grupos políticos do governo. Tudo isso com a ironia bufônica do personagem principal: o autor do filme. Moore ambiciona evidenciar algo que já era evidente na sociedade norte-americana - a acumulação mafiosa de dirigentes bancários, de grandes empresas, que lucram até com a morte de empregados por uma “pequena modificação” das regras da apólice de seguros de vida.
Não se vê, como em Sicko (2008), seu penúltimo filme, uma dicotomia que seria clara entre o Socialismo (como no caso cubano), e o Capitalismo. Há um aprimoramento nas discussões: o socialismo pode conviver com a democracia – e é essa a base ética do novo governode Barack Obama. Assim é visto na tese do filme, que chega a entrevistar democratas radicais que pregam o socialismo na “terra das oportunidades”, a América. Ainda que a realidade no Brasil seja outra, quando o assunto é desigualdade social nós temos muito que falar. Afinal, sendo a quinta economia do mundo, temos o salário mínimo que é ¼ da média nos EUA, e quase metade da população economicamente ativa vive fora de empregos. Mas o que deixaria as platéias mais atenciosas, a ironia do chato gordinho, funciona agora como um agente de distanciamento. Enfim – Moore clama pela ação dos americanos, já que “odeia a nação que vive, mas nunca vai deixá-la”. A diversão, no documentário, é politizada, é ambientada com trilhas sonoras ao estilo televisivo, espetáculo, show. É ingenuidade para atender a abstração possível de um novo pensamento sobre a sociedade global, direcionada pelo modelo americano. Por isso a associação com nossa realidade daqui. É um mundo no qual um gerente do McCdonald´s ganha mais que um piloto de avião.
Um filme sobre a luta de classes certamente é mal compreendido pela grande maioria dos espectadores do programa Fantástico, da Rede Globo. O dogma atual é o crescimento individual, tanto de gerentes, administradores, quanto de operários, trabalhadores. Esse dogma, em Capitalismo, Uma História de Amor, é anti-religioso, fora dos preceitos cristãos, longe do que Jesus Cristo pregava (o reino dos céus é dos pobres, como se lê em Lucas). O debate, portanto, é em torno de uma ideologia dominante que funciona como lei geral, do desenvolvimento de poucos (1%) em detrimento da exploração de muitos (99%). Vale a pena comparar os contextos ao ver esse ótimo documentário.
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