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No Meu Lugar – Eduardo Valente, 2009

Um filme sem luz

A première em longas metragens do, agora sim, diretor de cinema Eduardo Valente deu mais o que falar em revistas internacionais por sua inconsistência do que por sua experimentação. Qualidades e defeitos, dependendo do ponto de vista, do lugar do espectador, estão nesta sua estréia. Caberia ao mais atento deixar o modo de narrar entrecortado da moda de filmes independentes de lado e observar, com os olhos mesmo, ou talvez com outros sentidos, a vida cotidiana captada atentamente de universos domésticos da cidade do Rio de Janeiro.

Eduardo, ou Duda Valente, é crítico de cinema desde sua faculdade. Passou pelo mestrado e continua sendo crítico hoje. Com alguns curta-metragens e clipes no repertório visual é difícil ver algo que grite, que seja estridente em seu longa. Algo como o que Fernando Meireles conseguiu com o espetáculo das favelas do Rio em Cidade de Deus (2002), ou o que diretores mais cuidadosos andam provando ser possível ao retratar dificuldades psicológicas e interiores de uma época difícil, como o que faz José Eduardo Belmonte, ou Beto Brant. Até mesmo as estréias dos atores Selton Melo (Feliz Natal, 2008) ou Mateus Nachtergaele (Festa da Menina Morta, 2009) forçam mais para o lado do “transe” que o drama pode provocar. Todo o contexto desses filmes é o da falta de perspectivas, e de uma melancolia perversa, que desfaz a ilusão que vemos constantemente em filmes mais comerciais.

Como atualizar o sentimento passado, atrasado, das famílias em busca de unidade? Apesar das diferenças em uso do grande tema, No Meu Lugar se assemelha em fraqueza de mise em scène ao segundo filme de Heitor Dhalia, o pouco visto À Deriva (2008). Uma fotografia com luz natural, muitas vezes escura e melancólica (fora da perversidade, longe da energia). Vemos atores com intuitos realistas, mas dizendo aquilo que a câmera, que é bastante presente na observação, quer captar.

Essa fórmula usada por todos esses diretores do Sudeste brasileiro citados até agora nessa crítica, excetuando Fernando Meireles, é o modelo do drama burguês – aquele drama que não sai de quatro paredes das casas, quartos, e de tanto blá-blá-blá deixa pessoas sem muito tempo pra ver um realismo descompromissado irritadas. Ver o interior de casas tão distintas em riqueza, em valores, em classes, funcionando em seu cotidiano doméstico ultrapassa a proeza espetacular e main stream de um Big Brother Brasil. O filme de Duda impõe um conflito de lugares diferentes.

O drama dos filmes é profundamente burguês, já que as famílias afetadas são da classe média alta do “sabe quem eu sou?” pai de família da metrópole praiana. Em À Deriva a iniciativa de pontos de virada da história são de uma família naturalmente bem composta em desestruturação. Um aborrecimento. No filme de Duda Valente, a profundidade da desestruturação dessa família carioca é bem mais controversa e do ponto de vista mais adulto. O conflito sai da praia de Búzios, e migra para o bairro de Laranjeiras, ganhando intensidade social. Citemos mais uma vez o filme de Selton Melo, que acertou na medida dramática, e certamente ecoa em conversas de No Meu Lugar.

São três universos diferentes no filme de Duda, cada um em seu lugar: a família de Roberto (Raphael Sil), que mora em uma favela próxima a um bairro classe média alta; a bela família de Fernando (Licurgo Espínola); e o difícil convívio doméstico do tenente Zé Maria (Márcio Vito). O foco maior da deriva do roteiro está na falta de tempo real, e de uma instância narrativa entrecortada, que se une na moldura – no início e ao fim do filme. Vê-se uma fuga arranjada pela experimentação que não invoca espíritos passados do próprio cinema brasileiro, deixando as comparações que surgem em críticas apenas à revelia de filmes de Gonzales Iñaritu, da argentina Lucrécia Martel, ou do violento Gaspar Noé (Irreversível, 2002). Não é bem isso - o interessante é prestar atenção em Beto, personagem principal extremamente realista, levado a um ato de violência gratuito, muito provavelmente ligada à sua rotina de trabalhador braçal em um mercadinho. Nada disso é muito claro, mas também não tão obscuro.

O fim de tudo: tiro, violência, conflito, morte, e falta de saída. Como manda a realidade. E qual é mesmo o grande problema da exclusão que é fato em grandes metrópoles? Cada um em seu lugar - um filme à deriva procurando luz nos lugares indiferentes ao olhar profundo da câmera – querendo que ela seja superficial. Uma delicadeza melancólica apegada ao velho, muito velho drama.

Comentários

Menos Inútil disse…
Olá! eu estou escrevendo TCC sobre análise fílmica e estou estudando a teoria de Bazin...
será que você poderia me esclarecer uma coisa: Tipo, por que o Bazin ficava tão furioso com o Barroco? não entendi MUITO bem esse lance...

Obrigada,

Abç
Marina.

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