
Existe no Brasil uma tribo imensa de anglófonos em arte que se auto-intitulam independentes. São músicos, escritores, artistas plásticos e cineastas que às vezes conseguem pensar em inglês, e dizer algo que nem jamaicanos, nem australianos, nem nigerianos, nem mesmo norte americanos conseguem entender. Inglês, aliás, é a língua corrente nos undergrounds da vida global. Neste nicho pode se enquadrar Clarah Averbuck, escritora que admite um pop, deseja o espírito de Andy Warhol, misturando com John Fante, o velho Hank, a escritura Gonzo, e, quem sabe, a mística beat de Jack Kerouac.
Baseado em coisas que Clarah escreveu em blogs, e em seus dois livros publicados, e algo do que ela andou falando pelos bares, o filme Nome Próprio torna evidente essa cultura vaga, esfumada, indie, do pop tupiniquim (e não tupinambá). A batida, o ritmo é da modernidade tardia. Uma modernidade antiga, que tem ar retrô. Não haveria espaços melhores para serem gravados que não fossem os degradados condomínios “baratos”, e são eles que servem de cenário real para o último filme de Murilo Salles.
Filmes independentes, ou indies, são moda nos Estados Unidos. Há festivais conhecidíssimos, como o Sundance, que divulgam as últimas novidades dos indies. Mas dali saem diretores que depois entram na indústria e emplacam filmes premiados, divulgados da Indonésia ao Brasil, com legendas falsas de uma cultura “globalitária”. Ardem, portanto, os olhos que fogem do padrão. Mas ditam, em geral, aquelas regras da “arte” cinematográfica que quer públicos enormes. Aqui no Brasil, como em qualquer outro país que se meta a produzir filmes nesse formato standard, que um dia foi o pop, os olhos nem chegam a arder pois os filmes nem mesmo chegam a circular.
Nome Próprio poderia ser visto como um filme que afirma a feminilidade, que entra na psicologia de uma escritora contemporânea que se põe como personagem de uma ficção que ela mesma inventa para elaborar seu mundo e suas atitudes. Poderia, também, ser aquele filme que, mesmo mimetizando a estética independente, trouxesse a realidade social para as telas e propusesse um brilho diante da falta de dinheiro da classe média meio lupén. Mas, em geral, as aventuras de Clarah, como a diva pop do submundo metropolitano da maior cidade católica do mundo (com nome de santo: São Paulo) soam como uma pudica inocência da interpretação de Leandra Leal – uma ótima atriz que fica devendo em movimentos histéricos da letargia paradoxal do mundo sem sentido dos indies, e que vai ser lembrada no filme por ficar nua por muito tempo e participar de cenas eróticas. Há bares, de vez em quando uma música de Paulo Diniz (Pingos de Amor) que nos traz o que realmente vemos. Também as paredes descascadas dos apartamentos cheios de infiltração, mofo, ralo entupido, falta de dinheiro em conta, a velha internet discada e os desafetos amorosos de um melodrama que não se situa. Há, no fundo da montagem jovial, realidade neste filme que se enfia na psicologia alheia de uma poeta que mimetiza, tal como Ana Cristina César, algo de Hilda Hilst, ou da nova pin up Fernanda Young – tipos femininos que descascam a opressão de gênero que anda nas telas. Porém, fica tudo nas entrelinhas.
Dentre tantos outros que escolhem filmar em digital, como Beto Brant, Lina Chamie, e outros diretores de obras de baixo orçamento, Murilo consegue pender muito à publicidade das palavras e, ou, estereótipos em cena. E isso não fica destoante em relação à realidade atual, que é, digamos, completamente ditada pelas publicidades de qualquer mídia. Os filmes dele captam a história de hoje, marcam algo para futuros olhares mais atentos, ainda que deixem alguns espectadores de hoje desconfortáveis. Talvez seja algo da pobreza dos filmes brasileiros de hoje, que procuram imagens bonitas onde elas não existem.
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Comentários
Como amigo do cinema, convido-o a navegar no blog O Falcão Maltês. Com ele, procuro o deleite cinematográfico.
Abraços,
Antonio Nahud Júnior
www.ofalcaomaltes.blogspot.com