
Parece que sobre cinema não se fala – só se assiste. Escrever sobre cinema é coisa de gente que se mete a decodificar socialmente aquilo que no ecrã (tela) se expressa. Pois, na cinemateca portuguesa não há biblioteca tão farta, tanto quanto a cinemateca de São Paulo, por exemplo. Mas está, assim dizem, a maior coleção de filmes da Europa, ganhando inclusive da França, país da crítica, dos cahiers. E, convenhamos, não é em toda cidade que há museus de imagem e som.
Neste lugar da falta de textos sobre uma cinematografia, está um dos mais controversos, polêmicos (e nem por isso pouco assistido) cineastas portugueses: Pedro Costa. Este dá as costas a qualquer tipo de cinema comumente aceito. É, segundo alguns, discípulo de António Reis, um grande teórico da imagem, perfeito em sua pesquisa e precisão técnica – à maneira de Jean-Marie Straub. Mas assim, antes de teorizar, para eles há o imaginar!
Provocações súbitas à parte, tanto António Reis quanto Pedro Costa imaginam muito mais com o uso do tempo. Na modulação que nos retira do andar da carruagem (ou dos automóveis) moderna, e impõe a reflexão sobre aquilo que estamos a contemplar na tela. Em Sangue (1989), a beleza da fotografia e os lapsos da montagem certamente fazem menção à singularidade de Robert Bresson – um cineasta ainda a ser bem conhecido. Não pelo seu catolicismo, mas pela sua aspereza, ascetismo, rapidez de composição e tino para a imperfeição. Simplesmente, Pedro Costa está na linha destes grandes compositores rítmicos do cinema, deixando a entender a quem consegue ver em meias palavras o que temos de característica comum ao ficar em silêncio em frente à câmera.
João Benárd da Costa, um crítico, um diretor da cinemateca, um pesquisador que há alguns anos veio a falecer em Lisboa, diria que Pedro Costa em Sangue entra na dimensão onírica, e contorna fantasmas ao invés de personagens. Muito disso estaria em seus filmes posteriores, quando o personagem se esquece de sua direção, e vemos uma história a ser contada pela gravação do momento. Mas em Sangue, o obscuro da cidade e os desejos repreendidos são a tonalidade incisiva.
Além disso tudo que escreveu Benárd, poderíamos citar nossa brasileira invenção atual, de filmes como os de Júlio Bressane. Trazer o espectador ao degrau mítico, aliás, é tarefa árdua, das que livros e livros tentam sem muito resultado. Poemas e poemas caem no esquecimento da lírica adolescente. Esse mítico desencantado, sem música e sem falas, com grunhidos e barulhos do movimento – das marchas - , Pedro Costa conhece, e deve sim à linha que segue de um cinema fixo em regras de desprendimento dos significados comumente associados às imagens midiáticas clichés. Nisso ele é algo que chamaríamos de "único". Tanto vale, mais uma vez, lembrar de Robert Bresson de L´argent (1983), que nos põe no desencanto de uma modernidade o toque que faltaria, que é a percepção de que não vivemos mais como seres humanos, mas sim como seres comandados pelo ritmo do dinheiro, das autovias, da incompreensão e incompletude. Fica a dica a quem quiser conhecer a poesia na sua mais essencial tragédia anti-cristã. De um mundo em que Deus não conhece mais os homens que criou, e portanto se afasta deixando sua criação nas mãos do sacrilégio, do amor passional, efêmero: do profano. Ainda bem? Creio que sim. Há mais beleza nisso em nosso mundo do que nas imensas igrejas que viraram museus – ou nos filmes para espectadores de igrejas que antes eram cinema. Enfim...
Comentários
Gostei!!!
Bjo