
Quando o filme Bem Amado termina, vemos o nome Brasil transmutar-se em Sucupira. Isso acontece por razões claras de uma tentativa de se fazer política nesse andamento indeterminado da arte cinematográfica contemporânea. Guel Arraes, diretor do filme, filho de político conhecido pelo exílio, de Pernambuco, que trabalha na Rede Globo desde a década de 80, assume diretamente o tema político – e finalmente - , mas com certeza meio tarde. Indeterminação também na tentativa de um diagnóstico usando a tardia alegoria do dramaturgo Dias Gomes, em tempos que tudo fica claro quando é dito “na cara”, e não em adornamentos e mensagens escondidas e distorcidas. Nada contra a alegoria, pelo contrário. O problema fica em seu manejo.
Digamos que, o ator Marco Nanini, que trabalha com Guel no seriado A Grande Família, e é relembrado como o matador de “Lisbela e o Prisioneiro”, chama o filme para si. Mais que, à época, Paulo Gracindo. Odorico Paraguaçu, o prefeito coronel, político-mor da província atrasada do nordeste medieval, cordelista e analfabeto em sua barroquice velho-republicana. Marco é carismático, do gênero de pai de família bem visto, e domina quase todas as cenas da película. Notamos esse domínio ordenador como um erro fundamental da narrativa que se queria ser crítica, ou irônica, acima do personagem do coronel. Diga-se de passagem, narrativa que permanece muito, anda e vira, nas eleições de quase todas as cidades do país. Nada a se falar sobre a estrutura, a armação genial de Dias Gomes. Lembremos que este ano é de eleições, então vemos isso em nossa porta de casa.
Percebe-se, com a performance vigorosa de Marco, Odorico tropicalista, que todos ficam fascinados. Mesmo o olho da câmera, que parece ser magnetizado por este desempenho. Uma outra força do cinema feito no Brasil atualmente, Matheus Nachtergaele, esforça-se para ficar como o coadjuvante burocrata. Odorico neo-barroco explode em discursos, está num palanque em todos os lugares onde fala, nunca sai do personagem político, tal como um verdadeiro conservador da ordem real, da realeza monárquica que “deixou” o Brasil para o filhote Dom Pedro, para mais tarde o seu filhote proclamasse a tal República. Tudo mudando pra continuar o mesmo, toda a sociedade tendo que mudar para que nada mudasse.
Fica então o gosto, o riso, o olhar atento à digressão paterna de Odorico, na pele de Nanini, que acabou invertendo a crítica – se é que ela realmente existia na operação do texto, e na articulação neo-tropicalista de Guel. Não é o caso de dizer que o erro, ao deixar esse coronel brilhar mais que qualquer outro personagem do filme, é formal. Pior: é um erro de conteúdo, portanto, também formal, também contextual. Na interpretação de Gracindo, que pode-se ver procurando na internet, Odorico era ridículo, patético. A riqueza real do tropicalismo, quando, por exemplo, Gilberto Gil encarna um ministro da cultura, ou Caetano Veloso canta na festa do Oscar – sem contar na época de Antônio Carlos Magalhães, quando quase todos os tropicalistas saíam às ruas para saudar o coronel mais que real - , essa riqueza é a evidência da pobreza de espírito político de alguns artistas mais avant garde.
Jorge Mautner, exemplo do poeta irreconhecível em máscara, sacaneia com a “bandeira vermelha”, de uma esquerda que lembra o Brizolismo, que foi, e é uma espécie de coronelismo bem arrumado e renovado. O jovem jornalista, aquele que quer mudar o mundo, no fim casa com a filha de Odorico. Tudo gira em torno da figura do personagem político carismático, o prefeito da cidadezinha provinciana. Todos querem ser amigos do Rei. Desta maneira, o filme teria acertado em nos fazer aderir ao carisma do desempenho floreador de Odorico. Mas não.
O personagem que é menos que coadjuvante, Zeca Diabo (em José Wilker), tem muito a dizer. Na novela da Globo, ele foi vivido por Lima Duarte, nos contornos de um palhaço interiorano que matava porque gostava. O Diabo, que é delegado de Deus, o coronel, precisa matar alguém para que este ganhe a fama. Ótima seria a metáfora, se este Deus nem mesmo consegue conversar com o Diabo frente a frente. Guel Arraes prefere o seu método de montagem a todo custo, sem realismo algum, sem continuidade, sem drama, sem ironia a essa dominante narrativa da elite. A sua inovação é essa, desde o seriado Armação Ilimitada, que nos faz logo relembrar de nossa maneira entrecortada e fugaz de se entender a realidade brasileira, na óbvia tentativa de acabar com toda a parafernalha intelectual que discutia a “realidade”. Em uma conversa entre Deus e o Diabo, muito bem encenada por Glauber em meio à caatinga, Guel esquece. Do passado faz uma firula, manobrismo, maneirismo capital, deixando todos felizes na comicidade e na irrelevância do ritmo da duração de planos. Ele como diretor expressionista, é um grande publicitário – vende esse tal “neo-tropicalismo”, mas só para quem cai em sua comédia burlesca sem sentido e sem tempo.
– Está aí outro sinônimo do atraso: a falta de tempo para se contar uma história. Todos que vêem o filme, e as narrativas de Guel, estão atrasados e devem correr para chegar ao final da história (o mais importante, para o próprio diretor).
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