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Selton não esquece o cinema - ao fazer cinema |
Em Bye Bye Brasil, 1979, Carlos Cacá Diegues brinca com uma expressão forte da época, a internacionalização de nossa cultura. A brincadeira alegórica, como era de se esperar daquele Cinema ainda Novo, centrava as atenções em um circo. Este, sim, o lugar de brincadeiras, troças, palhaçadas, e, de vez em quando por trás de tudo, de empreendedorismo – do desenvolvimento de uma cultura.
Com o termo “internacionalização” vem muito debate. Estes, aliás, às vezes infrutíferos. Tudo é internacional, ainda mais no Brasil, país criado por imigrantes colonizadores. Em um filme que Selton Melo aparece alimentando essa mesma discussão no interior imaginado pela colônia, ninguém pareceu entrar na seara do debate: falo de Lavoura Arcaica. A família, sempre presente hoje nos melodramas cinematográficos, ali toma o pedestal de parábola bíblica, a forma usual, que qualquer cultura cristã parece compreender. Foi incompreendido, como ainda é também o escritor da fonte do argumento cinematográfico, Raduan Nassar. Apesar de tudo, o filme causou belas críticas em 2001, principalmente pela atuação de Selton.
A Odisséia de um herói kafkiano, ou melhor, muttareliano (de Lourenço Muttareli), o erudito quadrinhesco paulistano, leva Heitor Dhalia a produzir, junto a Selton, o comentado Cheiro do Ralo, em 2007. Wes Anderson poderia ter estabelecido uma ponte com essa obra, como ela própria parece construir em sua narração em planos frontais. Mas o diretor americano preferiu chamar a música de Seu Jorge, e não a imagem seca por ele influenciada aqui no Brasil. Selton Melo, então, fixa sua interpretação alojada no cômico drama de Harold Pinter, e inaugura uma paranóia do personagem por ralos e bundas.
Passa o tempo, e Selton resolve dirigir seu próprio filme. Agora sobre o Natal (Feliz Natal, 2008) – sem neves falsas, sem velhos cantando músicas de um território gelado, mas com a velha forma do drama quase grotesco do nosso país. O filme sai, como algumas outras produções independentes de nossa época, sem muita bilheteria: sem provocar muita atenção. Com certeza a experiência serviu ao diretor, e a muitos que entenderam naquela experiência uma expressão cinematográfica.
É então que, à parte de suas participações sempre muito notáveis em filmes comerciais da Globo Filmes, vêm à tona O Palhaço (2011), filme do ator e diretor mais promissor – à parte dos otimismos e projeções de críticas folhetinescas. Para quem conhece o interesse que há hoje pela cultura cigana ou marginal, de Toni Gatlif a Emir Kusturica, falar mais uma vez de uma caravana Rolidei seria um achado no Brasil. Principalmente depois de seriados que tomaram a Globo nessa armação estética, como Hoje é dia de Maria, ou Capitu – que ao longe lembram a fama de um grupo musical como Teatro Mágico entre as crianças rurais e metropolitanas. Chamar, aliás, Paulo José para figurar o palhaço, nos trazendo a inspiração que faltava ao velho espírito Macunaíma ao chão de nossa percepção, é mais que um ponto alto da produção que nos permite mais uma vez colocar em pauta a nossa realidade. O filme, certamente, junta muita referência.
Essa bricolage é própria de uma brincadeira comum circense. O amigo Jorge Loredo, mais conhecido como Zé Bonitinho, personagem de Sem Essa Aranha (Rogério Sganzerla, 1970), reaparece agora sem máscara. Selton, Chicó no Auto da Compadecida, Leléu em Lisbela e o Prisioneiro, reinventa seu palhaço.
A trama fica pra quem vai assistir. Todos gostam do antigo palco, picadeiro, teatro de rua, do oprimido. Mas o experimento, sem dúvida, tira do marginal arlequim a carga da identidade nacional. Há no palhaço um empresário que vê no “circo esperança” uma saída, mesmo que na pesquisa de si próprio, de suas possibilidades, de seus objetivos. E esse personagem, sendo Selton Melo ou seu duplo, cobra sutilmente do espectador maior cuidado na procura pela sua identidade... Não um empreendedor como Lorde Cigano, mas um pierrô apaixonado, talvez.
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