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Raul - O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel

É pena que uma grande geração de pessoas que imaginaram uma fantasia chamada contracultura hoje seja lembrada por documentários de arquivo. Pena que tudo tenha que aderir à linguagem dominante do "bem apurado", deixando melhor de uma época somente para uma história do passado. Em outras palavras, o documentário histórico nos retira o presente.

Em Glauber, Labirinto do Brasil, Dzi Croquettes, Uma noite em 67, Raul, a tônica é de relembrar um tempo de utopias, daquele jeito que foi a tese tão simples mencionada por Sílvio Tendler. Todos estes filmes nos confirmam a morte de uma geração, que pra o grande sistema pareceu "perdida" em apontamentos propositivos. Uma balela.

Os mesmos filmes de arquivo nos fazem reafirmar que todos esses ídolos de uma dimensão artística passada, chamada contracultural, underground, udigrudi, subversiva, ou, lírica, são vivos em nosso imaginário mais criativo. Claro, só podiam estar guardados em nossa Caixa de Pandora, que, caso ainda seja aberta nesse século que vem pela frente, ganhamos em uma infinita liberdade de comportamentos.
Talvez, em Raul, tenhamos visto aquela Lenda lírica. Talvez aquele cantor instintivo. Quem sabe aquele representante midiático dos jovens de 68 - adaptados à realidade mais crua do Brasil. Uma geração espontânea primitiva, aos olhos dos mais críticos. Ou, um artista livre da ordem harmônica e religiosa do capitalismo. Raul foi um mentiroso, à maneira de Aleister Crowley. Foi um escritor, com o vigor de um Paulo Coelho (que, como bem fala Nelson Mota, nos seus acessos de humildade, ainda sim já se empostava como um guru). Raul Seixas foi um modelo de arte, no fim das contas.

Que tipo de criatividade teve Raul, nesta arte subversiva e irônica? Aquela das mais livres, que associam a vida privada à pública, citando desde o desconhecido abismo da morte (Trem das 7) até o gênero mais popular (Mosca na Sopa). Uma mistura de Elvis com Luiz Gonzaga seria também um misto do imperialismo cultural sublime e degenerativo com a simplicidade intuitiva, bela, do inconsciente sertanejo. Urbano e rural, alta classe do rock e blues, ao jeito de Zappa ou Lennon, e baixa classe do forró pé de serra. Tudo confundido - morte e vida.

Pode-se dizer de uma confusão alegórica desse lírico. A magia está no uso dos símbolos em favor de uma abertura das nossas consciências ou percepções, como se dizia na época. Contra a grande lição de humanidade do cristianismo, mas a favor da racionalização primitiva do diabólico. O tal espírito de luz, seja ele um vetor iluminista ou sádico, está mais do que levantado pelas escolhas do artista que preferiu divulgar o que de mais contestador havia em sua época - nos EUA.

Por isso o começo do filme cita o Uivo, de Allen Ginsberg. O nome RAUL, é um uivo. E por isso tudo, também, vemos uma nova cultura nostálgica de On the road. Nada mais a declarar, sobre a falta de criatividade de nossa época atual, que ainda retorna aos arquivos estáticos, e sente a melancolia de tempos passados - sabendo que esses tempos voltam, se as raízes da árvore cortada são profundas, se a criação também chega nas formas e formatos, não se restringindo apenas ao remover as teias de aranha de um conteúdo ilusório.

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